Pobres de Pedir

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Muitos dos leitores mais velhos do Capeia Arraiana lembram-se certamente da leitura do «Livro da Primeira Classe» usado em todas as escolas primárias de Portugal nos anos 50 e 60 do século passado. Intitulava-se «Os pobrezinhos»…

Sem-abrigo numa das galerias da Praça do Comércio, em Lisboa

Sem-abrigo numa das galerias da Praça do Comércio, em Lisboa

«
– Batem à porta. Meu filho, vai ver quem é.

– É um pobre, minha mãe, um pobrezinho a pedir esmola.

A mãe veio logo com um prato de sopa e deu-o ao pobre. Depois, voltou para a sala de costura e deixou o filho a fazer companhia ao mendigo. […] O menino ficou comovido:

– Que pena tive do pobrezinho, mãezinha!

– E é caso para isso, respondeu a mãe. Os pobres são nossos irmãos. Devemos fazer-lhes todo o bem que pudermos. Jesus ensinou que até um copo de água, dado aos pobres por caridade, terá grande prémio no céu.
»

Nesse tempo, os Pobres de Pedir existiam por todo o país. Andavam de porta em porta, nas aldeias, nas vilas e nas cidades, com um alforge ao ombro, pedindo «Pão por Deus». Também eu, criança remediada, lá em Aldeia do Bispo, me lembro muito bem de levar-lhes à porta da casa dos meus avós um pedaço de centeio com morcela ou toucinho. E ficava sempre muito impressionado com a roupa esfarrapada e as chagas desses desgraçados.

Iluminura do “Livro de Horas” de Jaime IV da Escócia, de cerca de 1510

Iluminura do «Livro de Horas» de Jaime IV da Escócia, de cerca de 1510

Quatrocentos anos depois, os mendigos que iam bater à nossa porta eram iguais àquele que vemos na iluminura do século XVI aqui reproduzida. Nesta imagem, do Livro de Horas do rei Jaime IV da Escócia, vemos o interior de uma casa abastada e, à porta, um pobre de pedir. Notem-se alguns pormenores destacados pelo pintor: na janela, a presença de um macaco amestrado e, na gaiola, um papagaio que, nessa época, os portugueses traziam do Brasil e os europeus ricos gostavam de exibir nas suas habitações; a baixela de prata, incluindo um jarro de vinho que refresca numa selha com água. Por oposição, já no exterior, um cão lambe as feridas na perna do pedinte; e, na parte inferior da imagem, dois anjos elevam a alma do mendigo ao paraíso.

No final do século XIX, Guerra Junqueiro, num dos seus poemas de carácter social, reflecte o mesmo pensamento:

«Batem às portas, erguem-se as mães, /Choram meninos, ladram os cães. /Rezam e cantam, levam a esmola, / Vinho no bucho, pão na sacola. /Um que tem chagas, velho, coitado, /Quer ligaduras ou mel rosado. […] /Mas no outro mundo Deus lhes prepara /Leito o mais alvo, ceia a mais rara. /Os pés doridos lhos lavarão /Santos e santas com devoção! /Viverão sempre na eterna luz, /Pobres benditos, amém, Jesus!»

Sempre a promessa de felicidade «no outro mundo», nunca aquilo que a poetisa galega Rosalía de Castro exigia: «Quiero mis flores antes de mi funeral.»

Página ilustrada do suplemento dominical do “Petit Journal” de 12 de Janeiro de 1908

Página ilustrada do suplemento dominical do «Petit Journal» de 12 de Janeiro de 1908

Pouco tempo depois, no começo do século XX, um periódico francês que já tenho citado nestas crónicas, «Le Petit Journal», mostra uma cena que poderia perfeitamente ilustrar o texto do «Livro da Primeira Classe» acima citado.

Tudo isto, porém – dirão alguns dos meus leitores – são coisas do passado. São, de facto. Hoje já não nos batem à porta estes mendigos humildes, de sacola ao ombro. E, no entanto, eles não deixaram de existir. São mais e vivem pior. Vejamos alguns números.

No mundo inteiro, um por cento da população possui 50% da riqueza e os outros 99% possuem os restantes 50%. Segundo a ONU, três mil e oitocentos milhões de pessoas (aproximadamente metade da população mundial) têm rendimento inferior a dois dólares americanos por dia e cerca de mil milhões de crianças encontram-se subnutridas.

Aspecto de uma favela em Jacarta, Indonésia

Aspecto de uma favela em Jacarta, Indonésia

Em Portugal, perto de dois milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza. A mim, a impressão que me causavam os pobres de pedir da minha infância aldeã foi agora substituída pela amargura que me provoca a condição desumana dos sem-abrigo que dormem numa das galerias da Praça do Comércio (ver imagem). E também a vida nas favelas do Rio de Janeiro ou de Jacarta (ver a outra imagem). E os migrantes que atravessam rios e mares ou caminham por milhares de quilómetros para esbarrarem em muros de indiferença ou de hostilidade. E as crianças esqueléticas do Iémen, impiedosamente bombardeado pela Arábia Saudita. E as populações sírias que vivem em campos de refugiados ou em cidades arruinadas pelos bombardeamentos do Governo sírio, do Daesh, dos russos, dos curdos, dos americanos, dos iraquianos, dos iranianos. E os meninos africanos obrigados a fazer a guerra ou as meninas raptadas e escravizadas pelos radicais islamitas do Boko Haram. E… e…

Guerras sempre as houve e pobres sempre os tivemos. Mas a pobreza de antigamente, de mão estendida, era menos ostensiva e menos impressionante, talvez por ser menos visível. Hoje vivemos com imagens instantâneas, que nos entram em casa pela televisão ou pelas redes sociais e nos colocam diante dos olhos um menino sírio de três anos, morto, a flutuar na rebentação das ondas, numa praia da Turquia.

Boa parte da pobreza contemporânea é directamente provocada pelas guerras de todo o tipo que assolam este nosso mundo violento. Aqui há uns anos escrevi um texto para o «Capeia Arraiana» que intitulei «Algumas reflexões sobre a estupidez humana». Nessa altura, citei um pequeno ensaio do historiador italiano Carlo Maria Cipolla, «Allegro ma non troppo», no qual ele considerava a estupidez pior que a maldade, porque o estúpido não se importa de se prejudicar a si próprio quando prejudica os outros. Permitam-me os leitores que agora me cite a mim próprio:

«Se o sofrimento humano fosse quantificável, mensurável, teríamos milhões de toneladas dele, ao longo dos milénios: pirâmides de mortos; multidões incontáveis de mutilados, de estropiados, de crianças esfomeadas, esqueléticas, de olhar inocente e suplicante; bandos de pedintes esfarrapados e pustulentos; milhões de deserdados sem eira nem beira, dormindo ao relento e vagueando aos Deus-dará por essas megalópoles desumanizadas, onde vale mais um cão de raça que um ser humano, onde se mata o próximo por dez réis de mel coado. Ó Céus! Que mundo construímos, depois de milhares de anos de civilização e de terem por cá passado Cristo, Buda, Confúcio e Maomé! Matamo-nos uns aos outros em nome deles! São guerras nacionalistas, guerras de fronteiras, guerras de religião, guerras de máfias, guerras para vender armas, guerras para estimular a economia, guerras para…
E, como dizia o Padre António Vieira, a guerra é esse monstro que tudo devora.»

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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