Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (30)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 30).

Mapa da Índia

Mapa da Índia

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 90

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Curiosidades

>> Fevereiro de 1990 >> Para além das habituais viagens profissionais a Torres Vedras e Viseu, em Fevereiro de 1990 fui ver as contas de 1989 da empresa Ediçor em Ponta Delgada, acompanhado da minha ex. Ficámos no Hotel Avenida durante três noites. Eu aproveitava as férias de Carnaval para não faltar às aulas no Liceu Camões. Durante muitos anos não dei uma única falta. Tivemos oportunidade de conhecer os melhores restaurantes da ilha de São Miguel e a própria cidade.

>> 1990 >> Fiquei novamente só. Iniciou-se o meu processo de divórcio, a pedido dela, processo que haveria de durar 13 anos em tribunal, mesmo sem haver filhos. Influenciada por vizinhos queixava-se que estava sempre só, já que eu dava aulas de noite e trabalhava como ROC de dia, embora nem sempre ocupado. Ela dava aulas de dia. O tribunal decidiu que não havia razão para divórcio à vista das viagens em que a levei comigo. No fim percebeu-se que, influenciada por advogados, queria ficar com o meu dinheiro. Tínhamos contas separadas mas queria o meu dinheiro.

A partir do Verão de 1990 viajei muito, mas já não à boleia, embora o espírito de aventureiro continuasse comigo.

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VERÃO DE 1990 – I PARTE

Viagem de rico seguindo a Rota dos Descobrimentos: Bombaim, Goa, Mormugão, Madras, Bangalore, Mysore, Sri-Lanka, Malásia e Singapura.

Viagem preparada para mim pelas Viagens Mapa Mundo. Custou-me uma nota preta.

>> 01.08.1990 >> Saí de Lisboa na Lufthansa. A agência foi-me levar o passaporte ao aeroporto com o visto para o Sri Lanka. Tinha-me esquecido da bolsinha do dinheiro em casa. Tive de ir de táxi buscá-la. O avião saiu com uma hora de atraso para Frankfurt. Aí dormi no quarto n.º 27 do hotel Plaza, de 3.ª (tipo espelunca), por 100DM, na rua Schiller. Como tinha jantado a bordo, apenas comi uns abrunhos que levava comigo.

>> 02.08.1990 >> Pequeno-almoço médio mais uvas e abrunhos trazidos de Portugal. Saí de carro do hotel para o aeroporto para apanhar o avião da Lufthansa de Frankfurt para Bombaim. Do terraço do aeroporto era um espectáculo ver aviões a descolar e aterrar a cada meio minuto.

>> 03.08.1990 >> Em Bombaim, ao esperar pela bagagem no tapete rolante verifiquei que um saco não chegara. Tinha ficado na pista em Frankfurt por excesso de bagagem no avião, conforme me informaram. Era o famoso saco preto que já se havia extraviado duas vezes no Perú. Recuperei-o três dias depois. Perdi umas duas horas no aeroporto de Bombaim a preencher declarações. Cheguei ao hotel Ambassador pelas 03:30 horas da manhã. O quarto n.º 418 era fraquito, mas tinha ar condicionado, banho e televisão.

De manhã passeei pela Marine Road até aos jardins suspensos, Hanging Gardens, onde vi muitos urubus e outras aves necrófagas. Choveu. Depois visitei o Gateway of India, construído em 1911 para comemorar uma visita real, Malabar Hill, Jain Temple e Dhobi Ghat. Na rua vi um vigarista de truques de cartas que aldrabava quem jogava. Descobri o truque, mas não quis jogar. Nos jardins havia famílias a dormir em tendas improvisadas. Procurei os escritórios da Lufthansa para confirmação de viagem. O indivíduo a quem perguntei disse-me que o seguisse. Fartámo-nos de andar debaixo de chuva, mas ele dizia sempre que era já ali. Afinal levou-me a um cemitério persa, onde havia corpos a arder, que servia também para cristãos e muçulmanos. Num recanto do cemitério, juntamente com um coveiro, começou a pedir-me dinheiro para os cristãos, para os persas e muçulmanos. Uma armadilha de vigarista. Dei-lhe algumas rupias mas procurei desaparecer dali rapidamente.

Jantei mouton com duas boas cervejas grandes num pequeno restaurante. Paguei só 58 rupias. Cada dólar valia 17,20 rupias. 1 rupia indiana = 8$00 portugueses.

Franklim nos Hanging Gardens de Bombaim

Franklim nos Hanging Gardens de Bombaim

Franklim nos Hanging Gardens de Bombaim

Franklim nos Hanging Gardens de Bombaim

Gateway of India

Gateway of India

>> 04.08.1990 >> Avisaram-me que o saco só estaria no aeroporto no dia seguinte. Choveu todo o dia e eu sem poder mudar de roupa, pois estava no saco. Tive de comprar alguma que depois a Lufthansa me pagou mediante a apresentação da factura. Apesar das peripécias do Perú, ainda não tinha aprendido a levar sempre comigo no avião o indispensável-pijama e apetrechos da barba.

Visitei o museu Prince of Wales, a estação de caminhos de ferro Chhatrapati Shivaj (Victoria Terminus) e outros lugares de Bombaim. Comi em pequenos restaurantes deles e com eles masquei umas drogas para limpar os dentes após a refeição. Na rua, outro aldrabava com cartas, a par de encantadores de serpentes.

>> 05.08.1990 >> Parti para o aeroporto internacional à procura do saco. Lá estava ele. Segui para o aeroporto de voos domésticos para ir para Goa em avião da Indian Airlines. O programa dizia: Saída de avião às 08:40 horas. Chegada a Goa pelas 09:35 horas. Fiquei no hotel Oberoi Bagmalo, em Mormugão, junto à praia. Aí comprei duas camisas e seda a metro. Tive uma desilusão. Pensei encontrar muita gente que falasse Português no aeroporto de Goa e nada. Só uma moça de apelido Pereira, natural de Damão, sabia um pouco e mostrou vontade de aprender. Outra desilusão: nem uma palavra de Português no aeroporto. Estava um táxi à minha espera, mas não foi preciso porque o autocarro do Oberói tinha o meu nome na lista a transportar. Foram uns 5 quilómetros até ao hotel em Bagmalo, junto da praia. O taxista, de nome Cristo da Piedade, sabia contar em Português e ainda algumas palavras portuguesas.

Após tomar banho e me barbear, apanhei o bus para Vasco da Gama e outro para Panagi ou Pangim (Nova Goa). Atravessei os rios Mandovi e Zuari, muito largos.

Tentei falar Português, mas nada. No caminho vi muitas casas com nomes portugueses (Hotel Rebelo, Vila Ana, Maison deles Mascarenhas, mansão Bravo da Costa, solar de…), muitos com a palavra entreprise: Vaz entreprise, e nomes deturpados: Daman, Marmogao. Em Pangim começou a chover muito. Abriguei-me no alpendre da polícia, à procura do Dr. Almeida, pai do Filomeno, meu colega, professor em Lisboa. Perguntei mesmo ao carteiro onde era a rua e ele não sabia. No entanto, era ali bem perto. Vi alguns guardas de Goa com panos enrolados na cabeça encimados por penachos. Não me deixaram fotografá-los. Comi num restaurante no 1.º andar, The Loft, fraco, mas tinha bifinhos de cebolada e cerveja, tendo pago 34,00 rupias por dois bifinhos e cerveja (sem taxas). No Avanti, em Goa, paguei 54,50 rs. Bife=13rs.

No largo onde se apanhavam os transportes havia rapazes a gritar: Vasco(da Gama), Vasco ou outro nome, tentando angariar clientes para os seus autocarros. Apanhei o bus para Vasco(da Gama) e aí o carro do hotel. Ao chegar ao hotel havia um grupo folclórico que dançava o Malhão, a Tia Anica e o bailinho da Madeira. Havia festa de uma empresa no hotel e o grupo musical do Sr. Timóteo Fernandes (Ribeiro, Myzra, Linda) tocava e dançava. Conversei com eles em bom Português e comi com eles. Tinham saudades do tempo dos portugueses e a Myzra queria aprender Português. Chegou a escrever-me em bom Português.

Franklim à mesa do hotel Oberoi com o grupo de cantares e danças portuguesas

Franklim à mesa do hotel Oberoi com o grupo de cantares e danças portuguesas

>> 06.08.1990 >> Esperei até às 11:45 horas pela agência para lhes entregar os bilhetes para fazerem a confirmação. O hotel, com varanda para o mar e piscina, era bom. Quarto 218. Tirei umas fotos na praia e andei pelas ruas da aldeia, entre coqueiros. Entrei numa casa. Ainda sabiam umas palavras de Português. Provei aguardente de coco e vi a igreja por fora. Havia nomes portugueses numa placa com os donativos para reparar o alpendre. Uma senhora e moças não se furtaram à conversa e aquela disse que o marido falava Português. Um velho sabia o nome do peixe em Português: cavala. Em Vasco, ao dizer o nome cavala, logo disseram: português. Em Pangim procurei novamente o Dr. Almeida. O Sr. Fonseca estava arrependido de não ter ido para Portugal e levou-me à casa dos pais do Filomeno, professor de Geografia em Lisboa. Não vi o nome da rua. Finalmente, consegui falar com o Dr. Almeida, o filho, filha e irmão do Filomeno. Ofereceram-me cerveja. Andei pelo mercado e fui a Goa Velha. Visitei a catedral, a igreja de São Francisco de Assis, com ar de abandono, o museu com os retratos dos vice-reis, nem sempre por ordem, de Tomás e de Salazar. Visitei ainda a igreja de São Caetano (com o altar coberto de porcaria de pombos), o arco dos vice-reis, a igreja do Bom Jesus, onde se encontra o túmulo de São Francisco Xavier, que continua a ser visitado por muitos devotos locais. O sacristão falava bem Português. Todo este conjunto é considerado património da humanidade. E a chuva continuava. Jantei no mesmo restaurante de Panagi ou Pangim (The Loft), com batatas fritas e bife, por 38,50 rupias. Dei com uma manifestação contra o rapto de uma rapariga. Vi o escritório de um contabilista. Nem móveis tinha.

Polícia da cidade de Goa

Polícia da cidade de Goa

A imensidade do rio Mandovi

A imensidade do rio Mandovi

>> 07.08.1990 >> Voltei de autocarro à Velha Goa, tendo conversado com um rapaz e uma senhora. Vi o resto do museu de São Francisco de Assis, a capela de Santa Catarina e São João de Deus, ruínas de Santo Agostinho, da Sagrada Família (ainda com noviças), de Nossa Senhora do Rosário (Instituto de Freiras) e Santa Mónica (fechada e com ar de abandono). As ervas e até árvores cresciam nos telhados e rebentavam com os cruzeiros. Vi a galeria de arte com a vida de São Francisco Xavier. Ainda há placas com inscrições em Português. Mas, as informações são todas em Inglês. Em Pangim visitei a igreja de Nossa Senhora da Conceição. Encontrei uma senhora que falava Português e tinha um irmão em Portugal. Numa loja conversei com um grupo de homens a falar meio-meio Português. Estavam descontentes com o governo do Sr. Barbosa por ser corrupto. Tinham saudades dos portugueses. Comprei várias gravatas de seda. Vi o palácio do governador e jantei no Avanti bife de porco com sopa por 54,5 rupias. Regressei a Vasco, onde conversei com o Joaquim Fernandes, que fora cozinheiro e lutara ao lado dos portugueses, o que lhe valeu seis meses de prisão. Tinha grandes saudades dos portugueses. Já não falava correctamente Português. Como não chegava o carro do hotel, apanhei uma moto.

Franklim à porta da igreja de São Francisco de Assis na Velha Goa

Franklim à porta da igreja de São Francisco de Assis na Velha Goa

>> 08.08.1990 >> Fui a Vasco da Gama e Margão. Esta cidade é pequena, mas bonita. Várias pessoas ainda falavam Português. Entrei na casa da irmã dum bispo, cuja outra irmã fora professora primária durante 25 anos. Por isso, falavam bem Português. Vi por fora a igreja do Espírito Santo. As casas eram típicas com telhados em alpendre. Segui para Pondá com a forte chuva a acompanhar-me. É uma vilória fracota, terra do deputado português Narana Coissoró. Regressei a Pangim e, em ferry-boat, fui a Mapussá, terra bonita com um templo hindu. Jantei novamente no Avanti. Comi bife de vaca (ou porco) guardado numa arca frigorífica, já que não era fácil arranjar carne de vaca. Regressei a Vasco e, de moto, ao hotel.

>> 09.08.1990 >> Após o pequeno-almoço, saí de autobus para visitar o templo hindu Sri Manguesh, bonito, a uns 8 quilómetros da Velha Goa. Almocei no hotel Oberói sopa e bife por 110,00 rupias, mais 35,20 de taxas. Fui para o aeroporto para seguir para Bangalore, com um atraso do avião de 03:30 horas. Aí, fiquei no Hotel Windsor Manor Sheraton, quarto 2036. Era muito bom, com boa fruta à minha espera.

Em Goa não encontrei a miséria de outras cidades, incluindo Bombaim. Em Vasco da Gama as vacas deitavam-se nas ruas indiferentes aos passantes. Nesse aspecto já haviam tomado o hábito dos hindus. Em Pangim já se encontravam pequenas estátuas de deuses hindus com velas. Ainda vi um talho de carne de vaca a funcionar.

Tenho muitas fotografias de Bombaim e de Goa. Como não as legendei, é-me difícil identifica-las. Por isso, não as apresento.

(Fim da Etapa 30.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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