Casteleiro – Linguajar antigo com piada

José Carlos Mendes - Orelha - Colaborador - Capeia Arraiana - 180x135

Sempre me deliciou a maneira como os nossos mais velhos falam e falavam. Quanto mais entrava pelos estudos que fiz, mais percebia o que estava em cima da mesa quando alguém chegava e dizia: «A marrana anda barronda».

Gatcho – cacho de uvas

Gatcho – cacho de uvas

Há dez anos publiquei estas notas no blogue da aldeia. Muita gente gostou imenso. Muita gente já nem se lembrava destes sons, mas depois de serem publicados reviveram tudo e deliciaram-se com a leitura em voz alta: aí está o prazer destas coisas…

Sempre procurei perceber de onde vinham aquelas palavras que não estavam no dicionário. Umas vezes percebia, outras nem tanto. Querem ler alguns exemplos? Vamos a isso. Mas, antes de mais, umas notas sobre pronúncia propriamente dita:

– na nossa terra pronunciava-se «tch» em vez de «ch» (por exemplo: «tchave» por «chave»);

– dizia-se «ais» no final das palavras em vez de «agem» (em «lavagem», por exemplo, «lavais»);

– pronunciava-se «ê» por «ei» (em «rosêra», em vez de «roseira», por exemplo).

Sampa – tampa de uma panela

Sampa – tampa de uma panela

Agora alguns vocábulos típicos do Casteleiro

Irvais (por ervagem, penso) – lameiro, pasto para os animais.

Lapatchêro – lamaçal, água entornada no chão (por lapacheiro, acho, seja lá o que for, não encontro no dicionário).

Gatcho – cacho de uvas (trata-se apenas de uma corruptela na pronúncia, o abrandamento de consoantes, de c para g neste caso, é muito frequente na linguagem popular).

Pintcho – fechadura.

Cortelho – pocilga, local onde permanecem os animais. Chamo a atenção para o seguinte: no Minho, pelo menos, chamam «corte» – leia-se côrte – às pocilgas. Ora, pela proximidade de Castela, a nossa palavra «cortelho» pode resultar de um diminutivo de corte – o que em castelhano se escreveria, hipoteticamente, «cortello»… Sei lá…).

Sampa – tampa de uma panela (esta é muito boa).

Azado, azadinho – jeitoso (leia o primeiro «a» aberto, como se tivesse um acento: «àzado».

Cotear – usar muito.

Frintcha – abertura estreita.

Cote – uso.

Mas há duas expressões antigas com piada: o fato dos domingos era o fato domingueiro, o da semana era o «da cote». Leia «dà cóte» e faça sorrir os seus mais velhos lá de casa.

Limbelha – metidiça, que quer saber tudo. Ponho no feminino porque era mesmo usado só para as raparigas e para as mulheres.

Atchaque – maleita, doença.

Assêqui (esta é muito bem apanhada) – dizem que, parece que, consta (de: «Eu sei que», acho).

Pantchana – enrascado.

Delido – desfeito (por exemplo, um peixe quase podre está mesmo «delido»).

Gostaram? Isto tem muita piada. Obrigado a quem me ajudou nesta tarefa.

Tenham uma boa semana, caros leitores.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta