A aflição do criado do juiz de Midões

O salteador João Brandão, conhecido pelo Terror das Beiras, perseguiu um homem do povo que lhe fizera uma afronta, valendo a acção do seu irmão Roque Brandão, que interveio e livrou o homem de um atroz martírio.

João Brandão, o «Terror das Beiras»

Após o assassinato do juiz de Midões, Nicolau Batista de Figueiredo Pacheco Telles, praticado pelo bando de João Brandão, entenderam as autoridades enviar um destacamento militar para aquela antiga vila, onde procedeu a buscas na casa dos suspeitos. Os soldados actuaram com brutalidade, sendo auxiliados nesses excessos por um criado do novo juiz da comarca, o que muito irritou João Brandão que o ameaçou de morte.

O homem, sentindo que a sua vida corria perigo, despediu-se do amo e ausentou-se da povoação.

Passaram-se cinco anos até que, em 1847, o chefe da quadrilha dos Brandões, que era também capitão de uma companhia da milícia, foi destacado para a cidade de Viseu, em defesa do governo face à formação da Junta do Porto, que o queria depor.

Uma vez na cidade, João Brandão ficou conhecedor de que o tal homenzinho, que o afrontara em Midões, se acolhera em Viseu onde mantinha um botequim aberto ao público.

Tratou de aprisionar o homem e arrastou-o para o centro da cidade onde, junto à cadeia, o atirou para cima de um muro. Apertando o pescoço do pobre homem com uma das mãos e segurando na outra um facalhão, João Brandou mandou vir um alguidar com uma mancheia de sal no fundo, dizendo que iria matar aquele porco e oferecer à família do infeliz o sangue para fazer morcelas. Em vão a mulher e os filhos da vítima se arrastavam pelo chão pedindo misericórdia.

A cena era tão horrível, que Roque Brandão, irmão do chefe da quadrilha, se lhe dirigiu, dizendo em voz alta que aquele infame não era digno de uma morte rápida, sendo mister dar-lhe castigo com sofrimento prolongado. Propôs ao irmão que o desgraçado, que tanto mal fizera à família dos Brandões, fosse na manhã seguinte conduzido ao largo de Santa Catarina, onde se lhe cortaria uma orelha, e depois a outra, depois um braço e depois outras partes do corpo até que desse o último suspiro.

A ideia agradou ao sanguinário João Brandão, que recolheu a faca e entregou a vítima ao irmão, que ficou de o guardar até às 8 horas da manhã, altura em que se procederia conforme o sugerido.

Roque Brandão meteu o infeliz na cadeia e, noite alta, voltou para lhe abrir a porta e aconselhá-lo a fugir de Viseu e a ali não voltar enquanto a milícia estivesse na cidade.

João Brandão, quando soube da traição do irmão procurou-o por toda a cidade, declarando que havia de o matar.

Valeu vir de Midões a Viseu o velho Manuel Brandão que mandou chamar os filhos e os obrigou a fazerem as pazes, no que obedeceram de pronto, por saberem que o pai não admitia réplicas.

Curiosa foi a forma como, anos mais tarde, em 1870, quando estava na cadeia do Limoeiro, o bandoleiro contou o episódio na sua autobiografia «Apontamentos da vida de João Brandão»:

«Quando estive com o meu batalhão em Viseu, observei um dia, junto à noite, uma multidão de soldados no meio da praça em alvoroço. Correndo a eles fui dar com o homem, que tanto me havia ofendido e à minha família, debatendo-se entre a soldadesca desenfreada, que à porfia lhe queria fazer pagar caro as provocações, os insultos, as infâmias que praticara em Midões. – A vingança que tirei dele foi salvá-lo da morte, quando já contava com ela, lançando-lhe na alma a semente do remorso das afrontas que me havia feito, se acaso ela pudesse vingar ali.
Mal diria ele, quando me perseguiu, que tinha de dever-me a vida!»

A maldade de João Brandão, que morreria anos depois no degredo em Angola, não tinha limites.

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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

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