O «Colégio»

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Para quem nasceu ou viveu nas chamadas Terras do Planalto do Ribacoa a palavra «Colégio» não lhe é indiferente. Na minha criancice, na década cinquenta do século passado. já ouvia inúmeras vezes o meu pai falar-me no «Colégio» de Aldeia da Ponte (Sabugal), mas sem lhe dar a grande importância que através dos tempos aquela instituição mereceu e devia merecer.

O «Colégio» de Aldeia da Ponte

No meu caso pessoal os meus progenitores estiveram ligados à história daquele secular «Colégio». O meu Pai, membro da família dos Missionários do Coração de Maria no País Basco e em Portugal, e a minha Mãe em Idanha-Belas (Sintra) nas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Também em tempos de contrabando familiar, este era escondido perto do «Colégio», enquanto íamos cumprir o dever de assistir à missa dominical, na Igreja Matriz.

Fundado em 1892, os anos foram passando e muitas e diversas vicissitudes aconteceram até chegar ao estado degradante em que se encontra.

Durante cinco anos, ali esteve sediada a Ordem dos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus, por onde passou diversas vezes São Bento Menni, preocupado com a situação desta comunidade.

Em 1898 foi transferido para as mãos da Congregação dos Missionários do Coração de Maria, fundada por Santo António Maria Claret, a quem muitos apelidavam de Frades Jesuítas de Aldeia da Ponte.

Já em finais da Monarquia Portuguesa a crise do «Colégio» se acentuava, agudizando-se com a proclamação da República e expulsão das Ordens Religiosas. O «Colégio» ficou em mãos de particulares, servindo os fins mais impróprios.

Nos últimos tempos aprofundei os meus conhecimentos sobre o «Colégio» de Aldeia da Ponte, através do livro «UM JUSTO PATER FAMILIAS», da autoria de Ezequiel Alves Fernandes, numa investigação sobre o seu pai José Maria Fernandes: em 1920, por influência que ainda se mantinha naquela zona Arraiana dos Padres Marianos, foi frequentar o Seminário de São Domingos da Calçada em Espanha. Clandestinamente atravessou a fronteira e em Fuentes de Oñoro, encontrou Missionários Claretianos que por via férrea o acompanharam até São Domingos.

Na Bismula (Sabugal), assim como em muitas povoações arraianas, abriram-se caminhos para centenas de jovens seguirem o mesmo destino.

Recordo os bismulenses que terminaram as suas vidas ao serviço daquela Congregação, Padre Manuel Joaquim Leal, Eduardo Videira e ainda ao serviço o Padre Manuel Leal Fernandes.

O «Colégio» no tempo em que tinha actividade

Há dias foi apresentado, na Biblioteca Eduardo Lourenço, uma obra de grande valor histórico: «1908-1910 “FRADES JESUÍTAS” CORREM PORTUGAL PELA MUITA TINTA DOS JORNAIS», cujo autor é Manuel Peres Sanches, que nasceu em Aldeia da Ponte e numa residência junto ao «Colégio».

Obra com mais de seiscentas páginas, trabalho de uma profunda investigação, cuja leitura é aconselhável a todos os que se interessam pela História de Portugal e as repercussões culturais, sociais e políticas do «Colégio» de Aldeia da Ponte.

Este «Colégio» abriu portas a que milhares de jovens através dos tempos, principalmente de todas as aldeias e anexas do Concelho do Sabugal, ingressassem na Congregação dos Missionários do Coração de Maria, das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e dos Irmãos de São João de Deus.

Um «COLÉGIO» com tão longa história, monumento de interesse municipal, que devia ser património nacional, não pode, não deve ficar entregue ao abandono, a acumular ruínas ano após ano.

Salve-se o «COLÉGIO» de Aldeia da Ponte! Os nossos vindouros não perdoarão.

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

One Response to O «Colégio»

  1. Francisco Leal diz:

    Leio habitualmente e com muito agrado as suas crónicas.
    Do Colégio falava-me muitas vezes meu pai, Manuel Leal Freire, que nele viveu em criança quando meu avô, Francisco Leal, era guarda-fiscal na Aldeia da Ponte.

    Francisco Leal

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