Casteleiro – Profissões há 60 e tal anos

José Carlos Mendes - Orelha - Colaborador - Capeia Arraiana - 180x135

Há dias, por indução, referi esta peça escrita há 10 anos. Chegou a altura de a repor para si. A questão é: o que se passava antes de eu ter um mínimo de memória das coisas não sei. Mas como funcionava a nossa terra em termos de profissões quando eu tinha os meus 6 a 10 anos?

Igreja do Casteleiro - Capeia Arraiana

Igreja do Casteleiro

Bom! Antes de mais! As pessoas trabalhavam quase todas no campo. E de sol a sol.

Eram as batatas, o milho para os animais, o centeio (nada de trigo, aqui), os pimentos, as couves. Eram as melancias (com poças da altura de um homem para cada uma), era a azeitona, as castanhas para meia dúzia, os pepinos, os tomateiros e pouco mais. Nunca tinha visto cenouras até ao dia em que saí do Casteleiro!.

A agricultura era de sobrevivência, ou seja, cada qual cultivava para si os legumes, batatas, pão – e não dava nem para a família quanto mais para outros brilharetes…

Hoje a malta queixa-se e com razão. Então imaginem nesses tempos.

Uma vida muito difícil. Muito difícil.

De vez em quando, havia assim uns mimos.

Vinha peixe uma ou duas vezes por semana. Em caixas de madeira. Peixe salgado como o diabo. Quem o vendia eram as duas «sardinheiras»: a ti’ Carminda e e a ti’ Mari Cândida Madeiras.

Os comerciantes vendiam o bacalhauzito – ainda mais salgado. Matava-se o porquito por alturas do Natal e dava carninha para todo o ano – era a poupar, meus amigos. Alguns iam à caça. Caçava-se durante todo o ano nesse tempo.

Havia uns coelhitos numa capoeira ou outra.

As galinhas, duas ou três vezes por ano, ajudavam a aumentar a dose de proteínas. Mas pouco. Até se dizia que só se matava uma galinha quando alguém estava doente. De resto, as galinhas eram para pôr os ovos da praxe. E que bom que era aquele prato de batata frita com ovos estrelados…

Sapateiros - Todas as aldeias tinham um...

Sapateiros – Todas as aldeias tinham um… (Foto: D.R.)

Profissões especiais

No Casteleiro, como certamente em cada aldeia, havia umas quantas profissões que fugiam deste registo.

Vamos corrê-las uma a uma.

Primeiro, os lagares de azeite que, em dois meses por ano, ocupavam cinco ou seis pessoas. O mais antigo era nos Lagares, a caminho da Ribeira da Nave, digamos. Depois, funcionavam o do Sr. Manelzinho Fortuna, no Alvarcão, e o da Senhora da Quinta. Trabalhar nestes lagares, não era bem uma profissão: era antes um biscate naqueles dois meses muito duros de trabalhos forçados.

Depois, a padaria do Sr. Abílio Moleiro, lá em cima, ao pé do campo da bola desses tempos, em frente ao actual Lar. A família toda laborava na profissão: o Sr. Hermínio Moleiro (Fernandes), a Sra. Adelina, familiares e empregados.

Latoeiros - Uma profissão em extinção

Latoeiros – Uma profissão em extinção

Um profissional que sempre me impressionou foi um senhor que era latoeiro e caldeireiro. Era o ti’João Latoeiro. A oficinazita acanhanda dele, lembro-me muito bem, era ali ao Batorel, mesmo em frente da casa do Sr. Manuel Machado (pai do nosso Amigo Daniel Machado e avô do nosso fotógrafo e operador de vídeo, o jovem José Manuel).

Barbeiros, no Casteleiro desse tempo, acho que havia pelo menos três: o ti’Náciso (Narciso), o «mudo» (desculpem, mas não me lembro do nome), e o «Zé Rosa». O ti’Náciso era também «enfermeiro, médico, dentista» – tudo, para desenrascar as situações desse foro.

Comerciantes, houve uns quantos: o ti’Manè Pinto (avô do Paulinho Pinto Martins), ao pé da Praça; mais tarde, o Sr. José Mourinha e o Sr. Tó Pinto; um pouco antes e por pouco tempo, o Sr. Manuel Abade, e sempre, naqueles tempos, o Sr. Firmino – estes dois, mais lá para os lados do Largo do Chafariz.

Para comércio mais grossista, havia o Ti’Jaquim Canelo, que viveu lá mais adiante, a caminho da saída para os lados da Ponte.

Carpinteiros, havia o Ti’Zé Mel e o Ti’Zé Lopes.

Ferreiros - Necessários em todas as aldeias

Ferreiros – Necessários em todas as aldeias

Ferreiros, Taxistas, Pedreiros e Alfaiates…

Ferreiros: o Ti’João «Ferreiro» e o filho, o Tó «Ferreiro» (pai do meu especial Amigo Zé Augusto, que também fez a sua vida profissional no mesmo ramo).

Taxistas: havia um só de cada vez: primeiro, o Sr. Quim Paiva, depois o Quiel e por fim, nesses tempos, o meu pai, o Ti’Zé Pedro (José Augusto).

Sapateiros havia dois: o Ti’Luís Pinto, na Rua Direita, e o Ti’António Martins no Reduto.

Havia Pedreiros na nossa terra. Um grupo deles: em primeiro lugar, os Catanas quase todos (o Ti’João Catana – o tal que batia na televisão da Casa do Povo quando a emissão estava suspensa ou o aparelho avariava! –, o Ti’Manel Catana, irmão do primeiro, e ainda o meu avô, o Ti’Jaquim Pedro (Joaquim Catana). O Sr. Venâncio era pedreiro também.

Havia também três alfaiates, o Sr. Tó «Coxo», o Sr. Miguel Coelho e, mais tarde, o Tonito.

E duas costureiras: a Sra. Maria Augusta (mulher do Sr. Miguel «Beijina»), que morava na Rua Direita, logo a seguir à Praça, e a Sra. Ana Eleutério.

Nas aldeias havia fornos comunitários e fornos particulares

Nas aldeias havia fornos comunitários e fornos particulares

E havia as duas forneiras: a Ti’Mari Bárbra (Maria Bárbara de seu verdadeiro nome, claro) e outra, a Ti’Maria (era chamada só assim, mas os eu nome era Maria da Piedade Leitão). Os fornos ficavam um próximo da casa do Sr. Alexandre Paiva e o outro em frente do balcão da casa do Ti’Henrique Cameira, cuja frente dá para o Reduto.

Na nossa terra naqueles tempos da minha infância houve vários professores que nos marcaram. Penso que, por todos, devo citar o Prof. Neves e a mulher, D. Nazaré.

Houve na terra pelo menos uma tecedeira: a Sra. Antónia, ao Batorel.

Havia o alambique, a São Francisco, com o Ti’Adelino.

E a profissão dos ferreiros (que ferravam burros, cavalos, vacas) tinha dois representantes: Firmino «Ferreiro», do Monte do Bispo, radicado no Casteleiro, e o Ti’António Torra (que também foi taberneiro).

Taberneiros, havia mais dois: o Ti’Manel Silva, ao pé do Sr. Tó Pinto, e o Ti’Zé «da Velha», na Praça.

E é tudo.

A rapaziada que me lê não se lembra disto. Mais uma vez aconselho-os a que perguntem aos pais e sobretudo aos avós. Eles conhecem isto tudo e vão gostar que vocês lhes leiam os nomes da malta do seu tempo.

Se os conto bem, numa aldeia que à data devia ter uns 1 500 habitantes, haveria aí umas 40 a 50 pessoas que não faziam a sua vida na agricultura mas sim em profissões de outros ramos. Ou seja: 97 por cento eram agricultores; os restantes três por cento estavam noutras profissões.

Assim era o Casteleiro desse tempo difícil. Muito difícil.

Tenham uma boa semana, caros leitores.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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