A morte do feitor da baronesa

Nos tempos que se seguiram à guerra civil entre absolutistas e liberais, no Portugal do século XIX, ganharam vulto algumas figuras que espalharam o terror por muitas terras, especialmente na província da Beira.

O Conimbricense era dirigido por Joaquim Martins de Carvalho

Um desses malvados foi João Brandão, natural de Midões e chefe de uma quadrilha sanguinária.

Uma das façanhas que praticou, foi ir à freguesia da Cerdeira, no concelho de Arganil, e ali matar a tiro de bacamarte, por vingança, João Maximino Dias, feitor da quinta da baronesa de Argamassa.

Logo os factos se souberam em Coimbra, onde o jornalista Joaquim Martins de Carvalho, quis publicar a notícia no Conimbricense, jornal que o mesmo dirigia e que era, ao tempo, o paladino na denuncia dos actos bárbaros que os assassinos da Beira vinham praticando.

Sucede que também vivia em Coimbra a baronesa, patroa do feitor assassinado. A senhora, que era viúva do general Francisco da Gama Botelho, padecia muito do coração, e os familiares temeram que a notícia do falecimento do seu feitor lhe fosse fatal. Para o evitar, disseram-lhe que o João Maximino Dias ficara apenas ferido, deixando a verdadeira notícia para momento mais oportuno.

Mas a dita senhora era assinante do Conimbricense, jornal que lia de fio a pavio, não perdendo uma só edição. Ora, o jornal ia dar a notícia crua falando do assassinato e da forma como ele sucedeu.

Um familiar da condessa, foi a casa do director do jornal, implorando-lhe que adiasse a notícia, pela razão da saúde da senhora. Porém o jornal já estava na impressão e seria distribuído nas horas seguintes. Face às insistências, e não querendo o jornalista ficar com o ónus de ser causador da morte da sua fiel leitora, correu à oficina gráfica e mandou imprimir um só exemplar suplementar do jornal, no qual alterou a notícia, substituindo a palavra «assassinado» por «ferido», sendo esse mesmo exemplar remetido a casa da baronesa.

Contou depois o director do jornal que valeu o esforço, pois a baronesa aguentou-se do coração e, ainda que muito pesarosa, viveu por bons anos.

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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

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