O futuro dos nossos filhos

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Em tempos um amigo explicou-me que a evolução do mercado de trabalho começou em casa, a seguir na rua. As ruas inclusivamente tinham o nome dos artesãos, ourives, correeiros, ferradores, sapateiros, etc., depois na cidade, mais recentemente no país e agora o mercado é global.

Benção 2019 na UBI-Universidade da Beira Interior

Benção 2019 na UBI-Universidade da Beira Interior

Para a grande maioria dos pais esta globalidade muitas vezes é um susto de insegurança porque o seu querido ou querida poderá ir para um sítio cheio de fantasmas e malfeitores. Mas o facto é que em muitas profissões, um jovem só se consegue realizar fora de Portugal, porque a economia do nosso país baseia-se essencialmente nos serviços e muitas atividades que requerem estudo e investigação concreta, essencialmente por razões financeiras e de sustentabilidade, só em países com economias mais robustas.

Esta semana vou tentar sensibilizar os pais e mães da importância do futuro dos seus filhos e, também do país, porque com a experiência que adquirem podem regressar e criar mais valias na economia nacional.

Para matar as saudades hoje há tecnologias que permitem estar próximos e acima de tudo, até nem são dispendiosas. É só uma questão de hábito!

Ao contrário da maioria das pessoas, sempre sonhei ir trabalhar para o estrangeiro. Cheguei até ter visto de embarque, mas pelo facto de haver uma grande seca em 2005 e a minha mulher estar grávida da minha filha Carolina, acabei por desistir. De facto, quando nascesse não estaria em Portugal.

Porem, trabalhei com estrangeiros em Portugal, angolanos, americanos e espanhóis, e sem dúvida que enriqueceu a minha experiência. No caso de ter trabalhado com americanos, ainda nos anos 80, quando saí e entrei numa empresa portuguesa foi um choque. Efetivamente a organização e planeamento era a pauta da música que se dançava com os ianques.

Chegou agora a vez da minha filha mais velha começar a pensar no seu futuro. Tendo optado pelas chamadas «life sciences», ciências da vida, sem dúvida que em Portugal esse mercado de trabalho ainda é dominado pelos médicos e farmacêuticos. Porém nos países do Norte da Europa, e até em Espanha, a biotecnologia, biomédicas e bioquímica começam a ter um papel determinante no desenvolvimento de novos produtos, descoberta de novas doenças, tecnologias mais eficientes na segurança alimentar e até em novos processos de tratamento, analises e apoio à investigação criminal. E acreditem que estou a ser muito sucinto.

O atual Presidente do Instituto Superior Técnico, tem andando numa luta para ver se consegue levar o curso de Biotecnologia para a sua escola. Porque entende que é o futuro do mercado profissional e é de uma utilidade crucial para a nossa qualidade de vida.

Daí que voltando ao papel de pai nunca irei impedir que a minha filha opte por sair do país para continuar a estudar e procurar emprego. Ao fazê-lo estaria a condicionar o seu futuro.
Basta um pouco refletir em nós próprios. Há decisões que tomamos que mudam por completo o rumo da nossa vida. Por exemplo se em vez de Engenheiro tivesse sido Médico. Estes 30 anos que levo de vida ativa seriam completamente diferentes.

Tal como no trabalho. Se tivesse ido para o estrangeiro, que nunca consegui, também teria uma vida diferente de ter estado em Portugal.

Os filhos são o melhor que temos, mesmo que, por vezes, nos dêem chatices sérias e trabalhos desnecessários. Mas se cá estão foi porque os pais tomaram essa decisão. Só que o cordão umbilical com o tempo vai-se desligando, e falando pessoalmente, é importante nunca esquecer que o futuro pertence a eles. Não aos pais!

Cada caso é um caso. Cada família tem as suas particularidades. Cada filho, ou filha, é diferente. Mas curiosamente os pais não. Têm a responsabilidade de lutar pelo seu futuro, mesmo que, às vezes, não tenham sucesso. Mas pelo menos fizeram a sua obrigação!

Felicidades para o futuro dos nossos filhos e filhas.

Comporta, 20 de julho de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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