Uns têm olho! Outros têm visão!

António Martins - Capeia Arraiana

Levei algum tempo a pensar o que escrever sobre a II Feira do Touro e Do Cavalo! Mas aqui vai! Perdoem lá alguma falta de modéstia, no longo discurso que se prolonga para além do elogio e agradecimento, mas a emoção escreve mais forte!

Tiago Nabais, Presidente da JF do Soito, em declarações à RTP sobre a II Feira do Touro e do Cavalo

Por trás deste honroso e mui digno grande evento para o Soito, II FEIRA DO TOURO E DO CAVALO, esteve um grande homem, Tiago Nabais. Com certeza, que ele teve ao seu lado uma pequena mas grande equipa, em que todos juntos deram provas de uma capacidade de organização extraordinária, que esteve sempre a superar-se a si mesma, em esforço e dedicação inesgotáveis.

Todos trabalharam muito, mas poucos terão dado tanto tempo da sua vida pessoal, à causa comum, como o nosso Presidente da Junta do Soito, daí esta minha reflexão e singela homenagem a todos, mas em especial e com maior destaque a ele. Pois muitas vezes somos muito bons a criticar o que se faz mal, mas péssimos a reconhecer e elogiar, o que se faz bem.

Quem viu a dimensão e complexidade do evento deve tentar perceber que por trás de tudo aquilo a que se assistiu, terá havido muita entrega, dedicação, planeamento, projeto, comunicação, imaginação, criatividade, muita reunião, muito contrato, etc.

E para escolher uma imagem que pudesse representar todo o esforço e dedicação do Dr. Tiago Nabais, enquanto Presidente da Junta do Soito, seria esta que aqui partilho. Ainda que não esteja nítida a imagem, mas com ela queria enaltecer uma imagem do seu incansável esforço e dedicação, que nem dos trabalhos, ditos mais elementares e de esforço mais físico, se recusou a participar. Isso revela muita humildade, perseverança, responsabilização, dedicação e enorme entrega para que nada falhasse.

Incansável esforço e dedicação de Tiago Nabais

Deu para perceber que com ele estava uma equipa pequena, mas ao mais alto nível de organização e merece todo o apreço e admiração dos Soitenses, por nos terem mostrado que, apesar de serem poucos, foram muito capazes de promover uma boa imagem ibérica do Soito em particular, mas do Concelho do Sabugal em geral e de todas as suas freguesias com o bom, o bem, o belo e o único que se faz na nossa região raiana.

Desde o nome do evento, ao seu logótipo, aos esforços para a sua promoção e divulgação, até à escolha de cada um dos espetáculos constantes do programa. Sempre com o foco e preocupação de dar uma oportunidade aos artistas da terra. Desta feita, foram os filhos da terra, o grupo “Volta e Meia”, que deram um espetáculo fabuloso, que abrilhantou a primeira noite do evento.

Pena que foi, que a prevista pega de caras do forcado Emanuel Loto e seu grupo de forcados, equipados a preceito, não ter tido a oportunidade de fazer a sua estreia na terra natal, pelo facto do touro ter traído as expectativas e não apresentar a bravura necessária que permitisse aquela pega. Talvez numa outra feira, com um touro suplente, em curro, haja essa oportunidade de superar esta falha.

Não faltou nos dias do certame, um serviço de restaurantes; ao que sei “Zé Daniel” e “TrutalCôa”, que serviram a gastronomia da nossa região, as trutas, o borrego e a vitela estavam divinais. A modalidade e conceito de funcionamento do restaurante por senhas foi excelente e funcionou muito bem.

Tudo isto sempre com as barraquinhas a promover e vender os produtos locais! Onde não faltou até um breve “cheirinho” da inovação e a arte do Zé Ferreiro (João José Oliveira) com alguma sátira, com a piada junto das suas esculturas “ O futuro da economia portuguesa – Assente numa agricultura constituída por vacas chiques e magras e agricultores tristes e “grossos””…

Não se pode deixar de mencionar a centena de cavaleiros que participaram nas provas de saltos e todo o concurso hípico, que proporcionou mais visibilidade e glamour, com os cavalos e seus cavaleiros a passearem-se por toda a área da feira. Assim como a presença constante das charretes do Martins, toda a tarde a rodar e a proporcionar divertidos passeios pela feira.

Bem como os expositores de tanto e belo cavalo que faziam a delícia de miúdos e graúdos, dos entendidos e menos entendidos em equinicultura! A mostra de poldros lusitanos, enfim.. não consigo apontar falhas e é minha convicção que, todo o evento permitiu a quem se dignou deslocar-se naqueles dias à nossa terra raiana, deu por muito bem empregue todo o tempo que ali permaneceu e por tudo o que teve oportunidade de assistir e desfrutar.

O passeio equestre com boa adesão de cavaleiros. Os bailados equinos e exibições equestres musicadas, numa Gala Noturna, pejada de “Emoções Ibéricas” que encheu a praça e por volta da meia-noite ninguém arredava dali e aplaudiu de pé o grandioso espetáculo que ali foi exibido. E não se pode esquecer o mais importante que ficou para o fim, a CAPEIA ARRAIANA, seu encerro, boi da prova e tudo o que faz parte daquela tradição raiana. Com uma bem aproveitada transmissão online e em directo para a nossa diáspora.

Em tempos difíceis, de grupos extremistas e movimentos anti-touradas, nos quais imperam minorias de pensamento ou um tipo de pensamento menor, mais apagado e nada iluminado, porque perdem com a sua rigidez a luz da capacidade de tolerância, face a adoção de um estilo de vida um tanto ao quanto fascizado, na medida em que procuram condicionar ou impor aos outros, os gostos por esta ou aquela cultura ou querem mudar e até acabar com tradições centenárias, por se acharem mais evoluídos e cultos ou diferenciados, por terem mudado todos os seus hábitos e estilos de vida, perdendo muitas daquelas que são as suas raízes, sua natureza ou génese.

Não posso de deixar de lhes recomendar que abram um pouco mais a mente, sejam um pouco mais flexíveis, tolerantes e atrevam-se a vir assistir a este festival para testarem e verificarem como honramos a bravura, a elegância, o respeito e o desafio com que brindamos e festejamos a relação do homem, com estes nobres animais, O TOURO BRAVO e O CAVALO, que fazem parte das nossas origens raianas e alimentam memórias de toda a vida que nos tornaram únicos no mundo, porque nos diferenciam de toda e qualquer identidade cultural.

O mundo tornou-se global e as sociedades ficaram globalizadas, mas nós só queremos e temos gosto em preservar os nossos “genes” identitários culturais, que herdámos dos nossos antepassados e nos diferenciam de todo o resto. Não nos torna especiais, mas faz de qualquer raiano, diferente e apenas isso.

Um povo sem a sua identidade, sem a sua história, sem tradição, sem património, é um povo sem cultura e sem alma.

Assim, quanto mais preservarmos e mais lutarmos para manter e promover o que é nosso e único, mais cultos somos, maior legado e mais património deixamos aos nossos descendentes. Seremos tanto maiores e melhores, quanto maior for a nossa história e o que fizermos com ela, para nos diferenciar dos demais, com orgulho e de alma cheia.

Os nossos touros que são bravos e não selvagens, com os quais brincamos num jogo de lide do touro com muita adrenalina e sem mácula, tanto para quem assiste nas calampeiras ou bancadas, como para quem lida dentro da praça, tudo devido ao constante desafio ao perigo!

É um teste aos limites! Uma prova de coragem e bravura dos que lá saltam e lidam os touros no meio da praça, com festas e faenas sem ferir e magoar o bicho. E por falar em adrenalina, diga-se: Quem é que não sentiu já as pernas a tremer e o coração a bater mais rápido, quando o touro se aproxima das tabuas, dos reboques ou tapumes das diferentes praças que há na raia? Quem é que ainda não sentiu a tensão, pressão no peito e preocupação antes da pega e da espera do boi com o forcão, dentro e fora da praça? E os que estão nas bancadas ou calampeiras, quem é que nunca sentiu o corpo a tremer quando o touro apanha algum familiar ou amigo mais ousado e em que todo o publico em coro espontâneo começa aos gritos pelo perigo que o afoito corre?

Mas para os mais radicais e extremistas anti-touradas, quero contar-lhes que estes nossos touros, só existem porque há esta cultura e tradição – Tourada e Capeia – se elas acabarem, os touros bravos serão extintos! Ninguém cuidará, nem quererá continuar com esta produção animal, porque os custos e os luxos que envolvem a sua criação, não são economicamente viáveis ou sequer comportáveis.

Os nossos touros bravos são criados em campos abertos e têm uma vida de luxo, com o melhor dos tratamentos, os melhores fenos, os melhores pastos, as melhores rações, vivem na melhor das harmonias, ao ar livre em campos e prados a perder de vista, com boas sombras dos carvalhos centenários, para que a raça e a bravura se apure e desenvolva com o tempo apropriado, num ambiente natural e recatado do contacto com humanos.

Levam uma vida muito tranquila, que não faz deles animais selvagens, mas aguça-lhes a bravura, que faz deles animais nobres, imponentes, fortes e garbosos, que quando chegam às praças fazem o publico, em coro, lançar bruáás e a alguns tremer as pernas ou agitar corações.

É o porte e bravura destes touros que vão provocar o teste à coragem e medir forças, com os que decidem ir a luta, na lide corpo a corpo, num bailado ou dança coletiva de trinta homens unidos em triângulo, em passos e movimentos sincronizados, com avanços e recuos, rodares e rabeares para esquerda e para a direita, levantar ou baixar mais, aquele triângulo de madeira maciça, naquele que é o momento mais alto da Capeia – o da pega com o forcão.

Nesta lide e desafio mútuo, de coragens e bravuras, entre os touros e os homens, só vai a jogo quem quer! Assim como os homens podem decidir pegar ou não pegar ao forcão! O touro, também tem toda a liberdade para embater no forcão ou recusar-se a tal. Mas na sua maioria, todos os touros entram facilmente no jogo e desafio de tentar furar ou tentar passar, pela galha esquerda ou pela galha direita, por baixo ou por cima, forçando cada um dos adversários, touro de um lado e os homens do forcão do outro, cada um a aguçar a sua perícia e engenho para sair vencedor na sua bravura e coragem que se testa e mede na praça.

Com os nossos touros corremos e brincamos lado a lado, a pé, a cavalo, ou mais afastados em carrinhas, motas e tratores, mas sempre em espaço aberto e em competição saudável com os touros, numa corrida pelos campos que se prolonga até à praça para fazer o encerro dos touros para a lide na capeia da tarde.

Em Pamplona um encerro, pelas ruas da cidade, demora cerca de 2 a 3 minutos e percorrem apenas 875 metros. Os nossos encerros demoram horas e percorremos quilómetros por campos e natureza de beleza ímpar e sem igual.
Ai de nós se um dia tivermos a sorte de um “Hemingway” passar pela Raia e escrever sobre a nossa Capeia!

Ou ai de nós se os aficionados de Pamplona nos descobrem ou souberem que aqui há encerros com outro encanto, liberdade e duração, estamos tramados!
Nem a propósito e por mencionar isto, porque não criar uma “Embaixada Raiana”, com bons cartazes, belas imagens, bons e divertidos vídeos, para ir, numa campanha, promover a Capeia em terras de Nuestros Hermanos, e apresentar nos dias das festas de San Fermin, em Pamplona, a nossa arte de toureio, única no mundo. Um bom stand, com um bom e grande ecrã e um bom cartaz, numa das ruas ou praças de Pamplona, era capaz de fazer furor!

Caso para dizer, “Se Hemingway (Pamplona) não vem à Raia! Vai a Raia até Hemingway (Pamplona)”.

Terras onde a afición é igualmente forte e onde existe a maior procura deste tipo de espetáculo. Os bilhetes para as touradas são por assinatura, estão esgotadas há anos e as quais têm uma extensa lista de espera. Parece-me ser o melhor local do mundo para promover aquilo que tantos de nós apreciamos!
E se alguns milhares de raianos gostam e apreciam a Capeia, outros milhões poderão conhecer a nossa arte tauromáquica e estou convicto que vale bem o investimento numa boa campanha promocional com qualidade. Efetuada por uma agência de publicidade e marketing, para ser apresentada com nível e classe, junto de um publico alvo que aparentemente tem todo o potencial para ser facilmente cativado e atraído para vir conhecer a Capeia Arraiana.

Fica a dica para o município! A ideia pode ser megalómana! Mas não cobro nada por ela e face ao desamparo que a todo o momento se converte em desespero, face ao que está condenado o nosso interior e a nossa Raia, quiçá!!! Talvez se inverta o adágio, e de Espanha passe a vir Bom Vento e Melhor Casamento. Pois o divórcio com o litoral e a capital é litigioso e está para durar.

Mas na linha de pensamento e criatividade que está subjacente ao evento sobre a feira do touro e do cavalo, importa defender que com os nossos touros fazemos um espetáculo publico, em que qualquer ser humano tem o direito e liberdade de assistir ou de se recusar a espreitar. Chama-se a isto “Livre Arbítrio” meus caros! Não escondemos a arte e cultura raiana. É um espetáculo publico e que acontece em espaços abertos e de livre acesso, que não tem a violência nem a agressividade ou tortura sobre os animais, que lhe querem associar.

A todos as mentes iluminadas e mais sensíveis, que se apregoam como defensoras dos animais, importa dizer-vos que a maior violência e agressão que existe na vida e nas sociedades, raramente é perpetrada em publico, mas sim no segredo e no oculto, no privado, no interior de espaços fechados, onde poderá haver violência, agressão, tortura e mau trato, sem que ninguém possa assistir.

Assim sugeria, se é que têm mesmo interesse na defesa dos animais, que levem as vossas manifestações e intolerâncias, para longe dos espaços onde o espetáculo é publico e livre, para junto de pocilgas, vacarias, aviários, coelheiras ou matadouros, onde todos sabemos que a forma como são tratados e criados estes animais, podem até ser indignas, agressivas e violentas. Mas permitam-me que vos lembre, este é um mal necessário, meus caros!

Ao contrário dos nossos touros bravos que vivem num habitat com muito espaço, com tempo para crescerem em dignidade, estes outros milhares de animais, não tem esse mesmo direito, têm que viver e crescer rápido, porque há muita pressa e necessidade de os matar!

É a lei da seleção natural!

É a cadeia alimentar que assim obriga!

É a natureza e a ordem natural da vida!

O mundo tem milhares de bocas! Se não as conseguirmos alimentar e manter saciadas das suas necessidades básicas, então meus caros, aí a violência, a agressão, a tortura e tudo o que é mais primitivo ou selvagem do ser humano, reaparecerá e a violência e mau trato deixaria de ser com os animais e passaria a ser de humanos contra humanos. Por tudo isto, o que se pede é, que sejamos humanos e respeitadores da ordem natural das coisas, para que o lado mais feroz e primitivo de nós não sobressaia e se mantenha sob um controlo saudável e num equilíbrio harmonioso.

Mas, nós raianos, os rotulados por vezes de primitivos ou selvagens, eu gostava mais que nos chamassem de “Bravos”, dar-nos-ia mais charme e ficávamos, “mano a mano” com as características dos nossos touros, com os quais temos esta relação de cumplicidade e espetáculo.

Sim nós, temos um estilo muito próprio de ser, sentir e de viver! Somos uma Etnia Raiana! Temos assim um tipo raro de sangue, com “Rh raiano”, que nos corre nas veias, que nos preenche o coração e alimenta a ALMA RAIANA.

Mas sim, nós os bravos raianos, entendemos e respeitamos quem gosta de futebol, formula 1, alpinismo, rally, caça de grande e pequeno porte, pesca, safari, desportos de combate como o boxe e outras artes marciais em que pessoas se agridem até ao soco final do KO (knockout). Assim como entendemos e respeitamos quem aprecia ballet, dança contemporânea, música clássica, rock, fado ou pimba, pintura, escultura, ou seja, lá a arte, gosto ou tradição que for.

Tudo isto, porque muitos de nós gostam de tudo isso, mas com uma diferença, também gostamos e respeitamos muito aquilo que é a nossa cultura, que é única no mundo, que é a Capeia Arraiana e tudo o que ela envolve:
TOUROS! CAVALOS! PESSOAS! ESPECTÁCULO! TRADIÇÃO E CULTURA QUE SÃO PATRIMÓNIO DE UM POVO!

E aquilo que exigimos é que haja o mesmo respeito pelo gosto, tradição e cultura raiana, que não se impõe a ninguém mas que se expõe de forma publica e de portas escancaradas, em que teremos o maior gosto de receber quem quiser vir até cá, em paz e tranquilidade, assistir e desfrutar da pura adrenalina e múltiplas outras sensações que a Capeia provoca.

Isto tudo para dizer-vos e passar a mensagem que a II Feira do Touro e do Cavalo no Soito, valorizou muito e bem a nossa tradição, história, património cultural único da raia, da beira, de Portugal e do mundo. Este grande evento promoveu e honrou de forma magnifica e muito digna a nossa terra e região, com toda a sua diversidade de espetáculos e exposições que pudemos desfrutar naqueles dias.

Quem não veio ou não assistiu… Não sabe o que perdeu e como tal deve estar atento às datas do próximo evento!

Muito Obrigado e Muitos Parabéns Excelentíssimo Senhor Presidente da Junta da Freguesia do Soito, Dr. Tiago Nabais, e que a Nossa Senhora da Granja, Santa Nossa do Soito, que também tanto prezas, te dê muita saúde, coragem e bravura para poderes continuar com essa garra, para enfrentares todos os obstáculos que possam surgir, por invejas saloias e competições rurais, locais ou concelhias, que podem dificultar mas não impedir a realização de mais e bons eventos, para assim poderes continuar a presentear e surpreender a Gente da Nossa Raia e todos os que nos visitam com muitas feiras deste nível e classe.
Para projetos ou eventos deste gabarito, não basta ter Olho… É preciso ter VISÃO!

Enorme BEM-HAJA! E que nunca falte o ânimo ao nosso Presidente da Junta do Soito!

:: ::
António Martins

Deixar uma resposta