Casteleiro – Há 60 e tal anos…

José Carlos Mendes - Orelha - Colaborador - Capeia Arraiana - 180x135

Há 65 anos, como era o dia-a-dia de um miúdo de 8 anos na minha aldeia… Ali por meados dos anos 50 do século XX (digamos, em 1956/57), como era a nossa vida no Casteleiro? O que fazíamos? Como nos divertíamos? Como era a escola? Brincávamos a quê?

Na escola era quase assim...

Na escola era quase assim…

Há praticamente dez anos, publiquei estas notas pela primeira vez, no blogue da minha aldeia. Abria o coração desta forma emocionada que vai ler…

O que fazíamos nós aos seis ou sete anitos?

Antes de mais, íamos à escola. Entrava-se cedo e havia aulas de manhã e de tarde. Os professores e as professoras desse tempo, com tantos problemas de pedagogia mal resolvidos, tinham uma coisa muito interessante: davam-nos aulas de apoio da parte da tarde. As escolas eram separadas. As raparigas, na escola de cima (ao pé do Lar) e os rapazes naquela coisinha pequenina do Largo de São Francisco, onde mais tarde foi a Junta. Tinha havido no Casteleiro professores muito violentos, que deixaram má memória nas gerações anteriores: a D. Aurora, que batia nas cabeças e as fazia estourar contra as paredes, nos anos 40; a Rabaça, que batia até fartar, no início dos anos 50. A essa, uma das vítimas, com dificuldades de pronúncia, até lhe chamava «Lhabaça dum filha dé p…), se é que me entendem. Assim mesmo: Lhabaça…

Dois vezes um…

Quem não sabia quantos são 4 vezes 5 ou coisa do género, já sabia: meia dúzia de reguadas ou de varadas pela cabeça abaixo.

De resto, como era um ensino essencialmente baseado na memorização e daí o uso sistemático e obsessivo da repetição, armava-se nas escolas um coro sem-fim do género (bem gritado, quase a cantar):
– 2 vezes um, dois!
– 2 vezes dois, quatro!
– 2 vezes três, seis!

E assim por diante até ao
– 2 vezes 10, vinte!

Do mesmo passo, debitavam-se as linhas de caminho de ferro, com as estações todas alinhadinhas, as serras uma a uma pelo País abaixo (Penedo, Soajo, Gerês…) ou os nomes dos rios todos com os seus afluentes e tudo o mais: coisas que ainda hoje cá estão dentro e ficarão para sempre, claro, a ocupar espaço…

Bailaricos de juventude

Bailaricos de juventude

Baile, comédias e cinema

Nos sábados e domingos, era sagrado: ou havia baile em São Francisco ou nos Italianos. Os jovens e adultos dançavam imenso nesse tempo. Nós, os pequenitos, passávamos a tarde a correr que nem uns doidos por entre as pernas dos dançantes, a fugir uns dos outros sem parança. Eram momentos de grande excitação.

Uma vez por acaso, havia comédias ou cinema. As comédias eram trazidas pelo «Delfim e a sua Troupe», incluindo a mulher, Maria Estrela, que fazia trapézio com movimentos que nos pareciam impossíveis e arriscadíssimos. Um dia caiu mesmo. Mas não foi no Casteleiro. O cinema era projectado na parede branca da casa grande dos Senhores João Rosa e Quim Paiva, em São Francisco. E às vezes nos Italianos, também.

Brincadeiras de miúdos

Brincadeiras de miúdos

E as brincadeiras dos miúdos?

Raparigas
As raparigas da nossa idade tinham lá as suas bonecas com as quais se entretinham horas e horas e na rua brincavam às danças de roda. Também as víamos a jogar em quadrados desenhados no chão, saltando ao pé-coxinho alternadamente de quadrado em quadrado. Acho que lhe chamavam o jogo do «mata». E jogavam à corda e ao «Ti Limão».

Rapazes
Nós, os rapazes, jogávamos ao pião, corríamos a aldeia de alto a baixo com o arco, íamos para o olival atrás do Sr. Tó Pinto e do Sr. José Mourinha brincar aos canais com regos de água que não sei de onde vinham e com represas de onde «canalizávamos» a água através de gargalos de garrafas partidas. As garrafas dos pirolitos davam ainda os berlindes para jogarmos a tarde inteira se preciso fosse.

Ribeira
A ribeira era naturalmente uma atracção irresistível. Andava-se lá a tomar banho toda a tarde em grupos de três ou quatro.

Futebol
Mas o futebol ou lá o que aquilo era – isso, sim, era o máximo. Podíamos andar quatro ou cinco horas a jogar que ninguém se cansava. Qualquer largo de terra batida nos servia mas o «campo» propriamente dito era no largo em frente do Lar, ao pé da padaria desse tempo.

Tenham uma boa semana, caros leitores.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta