Profissões de Sortelha no século XIX

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

Procurei realizar um inventário das profissões existentes no século XIX, algumas mencionadas nos documentos paroquiais e outras resultantes da experiência de vida e contacto com os mais velhos. Algumas mereceram especial destaque pela sua importância para a economia local, devido à sua singularidade, porque se extinguiram ou correm esse risco.

O tamanqueiro

Homens:
Para o serviço religioso não faltava o padre colado ou encomendado. Colado refere-se ao efetivo, que tem a seu cargo a paróquia, por vezes surge a expressão Padre-cura, pois supostamente curava as almas; o encomendado exercia o cargo de modo provisório, recebendo pelo trabalho realizado (podemos comparar com os atuais trabalhadores contratados ou precários). Com tanto trabalho tornou-se necessário um pároco coadjutor, juiz da igreja e assistentes. Não faltava quem auxiliasse os vigários!(1)

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Sortelha, Livro de Registos de Batismos, em: PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0001.TIF

O cargo de professor do ensino elementar, hoje diríamos de primeiro ciclo, foi exercido pelo vigário durante algum tempo! Em 1855, era professor o Reverendo José Luiz de Mattos.(2)

A nível da administração local: Escrivão, juiz, meirinho, políticos (presidente da Câmara, senadores e tesoureiro), pregoeiro (muito importante para a arrematação das obras, tendo por base as tradições da região estas deveriam acontecer após a missa), guardas rurais, carcereiro. Aqui não havia lugar para mulheres! Com o fim do concelho, em 1855, deixaram de ser necessárias!

Profissões relacionadas com a agricultura: Jornaleiro, pastor, proprietário (no século XIX e primeira metade do XX surge como sendo profissão, certamente que se referia a agricultores com pequenas propriedades) e criados (refere-se a pessoas dependentes de outras, podendo exercer profissões diversificadas, sem profissão definida).

Outras: carpinteiro, pedreiro, ferreiro, almocreve, sapateiro, forneiro (o dono do forno / padeiro ou pessoa responsável por esse local), alfaiate (indispensável para que os representantes locais se vestissem de forma diferenciada), costureiras (para bem vestir as senhoras da alta sociedade), estafetas/portadores (faziam o correio).

Tamanqueiros:
Abundavam os pastores e agricultores. Estes caminhavam bastante a guardar o gado e na realização dos trabalhos agrícolas. No verão, devido à escassez de pastos verdes para os animais, esgalhavam as árvores, as lenhas eram aproveitadas para o aquecimento nos dias frios; mas todos os paus que pudessem ter algum proveito para atividades agrícolas, algum artesanato, como bancos, cabos para as ferramentas e tamancos, eram devidamente selecionados, nada se desperdiçava. Usavam botas de campo, mas devido às longas caminhas gastava-se a sola e ficava o couro! Este fato aliado à miséria, existência de matéria-prima (paus) e ao tempo disponível nas longas noites de inverno, conduziu ao fabrico artesanal dos tamancos.

Tamancos tradicionais

Cerca de 1970 conheci, no Dirão da Rua, Joaquim Gonçalves, falecido em 1997, e Manuel José, com 96 anos, como mestres deste ofício. Também nas aldeias vizinhas houve quem fizesse esse trabalho. Era uma atividade que necessitava de muita paciência. Faziam tamancos para familiares e amigos, utilizavam amieiro, mas como este não abundava serviam-se de freixo e salgueiro, para as solas e reaproveitavam os couros sobrantes das botas de campo. O couro era pregado nos socos com brochas (pregos curtos com cabeça larga) e depois ensebados. A altura da sola de madeira evitava a passagem de humidade para os pés. Quando se caminhava em lajes ou sobre pedras, abundantes na região de Sortelha, faziam algum barulho.

Numa época em procuramos os elementos identitários, da nossa região, temos aqui algo que, devidamente apoiado e aproveitado, poderia contribuir para o desenvolvimento económico. Apareça alguém capaz de avançar com o projeto! Seria bom que o poder local promovesse a recuperação deste ofício em nome da preservação da nossa identidade cultural.

Os sapateiros seriam certamente, também, tamanqueiros. Em todo o concelho deverá existir alguém que saiba do ofício! Adaptados às circunstâncias atuais podiam ter algum sucesso comercial.

Mineiro: Na segunda metade do século XIX surgem diversos espanhóis, de diferentes regiões, como tendo esta profissão. Isto significa que houve um acentuado desenvolvimento desta atividade.

O coveiro: Na documentação não encontrei referência a esta profissão! È possível que não existisse uma pessoa a executar esse trabalho, podendo ser da responsabilidade da Fábrica da Igreja ou da comunidade! Considerando o espaço exíguo para os óbitos, pois eram enterrados dentro das igrejas, até à década de 1840, talvez fosse mais apropriado apelidar de vira ossos!

Mulheres:
Forneira (dona do forno/padeira ou administradora do forno comunitário), fiadeira, costureira (certamente que importantíssimas para vestirem a alta sociedade), trabalhadeira (mulheres disponíveis para realizar diversos trabalhos), donas de casa (incumbia-lhe não só a limpeza da casa como cozinhar), rodeira e ama (devemos considerar profissões, pois recebiam vencimento).

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Sortelha, Livro de Registos de Batismos, em: PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0083.TIF

Os documentos não mencionam obstetras, no entanto, é sabido que os partos se realizavam em casa. Era um trabalho exclusivo das mulheres, aí homens não participavam! Assim, devemos considerar a profissão de parteira! Neste domínio prevalecia o saber de experiência feito. Sempre que havia um parto, gerava-se grande azáfama. Ferviam-se todos os instrumentos que pudessem ser necessários e rezava-se para que tudo corresse bem!

Estes processos aconteceram até cerca de 1970.

Nascer nas maternidades é coisa com poucas décadas.

:: ::
«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

Notas:
1- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Sortela, Livro de Registos de Batismos, em: PT-ADGRD-PRQ-PSBG32-001-00001_m0083.TIF. Em 1855 era Cura Coadjutor Joaquim de Sequeira Leal.
2- Idem

2 Responses to Profissões de Sortelha no século XIX

  1. Josécarlos Mendes diz:

    Caro Gonçalves!
    Boa marca!
    Tal e qual no Casteleiro, dantes… Assino por baixo. Quem tiver interesse, pode dar uma vista de olhos aqui, por exemplo: http://capeiaarraiana.pt/2015/01/19/casteleiro-profissoes-na-aldeia-outrora/.
    Obrigado pelas achegas.
    Abraço aos amigos.

  2. António Gonçalves diz:

    Amigo JC Mendes!
    Fui ver o referido artigo.
    Durante várias décadas veio ao Dirão da Rua o Sr. Joaquim do Casteleiro a vender pão.
    Um abraço.

Deixar uma resposta