Os delfins de Salazar

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Corria o ano de 1968. O jornal paroquial «Amigo do Sabugal» publicava uma notícia sobre a doença do Sr. Dr. Oliveira Salazar. E agora? Quem para substituir Salazar? Ele não tinha, nem deixou nenhum delfim, portanto tudo ficou debaixo da responsabilidade de Américo Thomaz, então Presidente da República.

Palácio da Justiça do Sabugal foi inaugurado por Antunes Varela

Palácio da Justiça do Sabugal foi inaugurado em 1966 por Antunes Varela

29 de Setembro de 1968. A doença do Sr. Dr. Oliveira Salazar no «Amigo do Sabugal» (jornal paroquial)

«O estado de saúde do ilustre Presidente do Concelho causou emoção nas terras do Sabugal. Pelas suas melhoras o Município mandou celebrar a Santa Missa, na igreja paroquial, na tarde de 20 de Setembro. Presente todo o elemento oficial e muitos fiéis. Por motivo da mesma doença não se celebrou a festa em honra de Santo Isidro que devia celebrar-se na Colónia Agrícola em 22 de Setembro.»

Não sendo um regime democrático e não havendo partidos políticos, não se podia ir para eleições gerais. Uma votação na Assembleia Nacional? Impossível, porque era um regime anti-parlamentar. Da União Nacional não se podia esperar nada, era o partido único sem iniciativa e autonomia políticas. Seria então o Presidente da República a nomear o novo Presidente do Concelho. Começaram grandes movimentações políticas dentro do próprio Regime. Américo Thomaz tinha um sucessor da sua preferência, Pedro Theotónio Pereira, um homem que foi muito próximo colaborador de Salazar, mas acontece que tinha doença de Parkinson, sendo assim, ficou fora da corrida. A elite do Regime começou a inclinar-se para Marcelo Caetano, mas este ainda teve como adversários, Antunes Varela, Franco Nogueira e Adriano Moreira. Irei escrever sobre Antunes Varela que inaugurou o Palácio da Justiça do Sabugal no ano de 1966. Ainda recordo que a Guarda de Honra lhe foi prestada pelos Bombeiros Voluntários do Sabugal e pela Mocidade Portuguesa à qual o autor destas linhas pertencia e esteve presente.

Antunes Varela, de nome completo João de Matos Antunes Varela, foi quem mais tempo desempenhou o cargo de Ministro da Justiça, saiu porque notou que o imobilismo de Salazar e o conservadorismo de muitos que o rodeavam não levariam o País a lado nenhum. Mas segundo consta, Antunes Varela foi demitido por causa da atitude que tomou como Ministro da Justiça em relação ao escândalo Ballet Rose. A atitude foi de independente e quis julgar os autores desse escândalo, Salazar não permitiu, mandou silenciar tudo e todos, ou seja, Antunes Varela foi desautorizado por Salazar, e quem deu um «empurrão» para que isso acontecesse foi o então director da PIDE, convenceu a – Velha Raposa – que se desautorizasse Varela, este ficaria «queimado» para sempre dentro do Regime, e como era considerado uma espécie de liberal para os ultras, tudo vinha a calhar, ou seja, não seria escolhido para delfim, e nunca chegaria a Presidente do Concelho.

Depois disto, Salazar nunca mais o recebeu. O próprio Marcelo Caetano não gostava dele. E assim, Antunes Varela, passou à História.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

4 Responses to Os delfins de Salazar

  1. sofia leite branco diz:

    O Estado Novo e a ditadura ainda não desapareceram do concelho do Sagugal…. Não se publicam os comentários… Sofia

  2. sofia leite branco diz:

    Amigo Lages nao seja um Salazar mais… publique os comentários livres…

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