Quem tece a ideia de privatizar os Correios?

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Nem imaginam as aventuras que tenho tido em querer enviar correspondência em zonas perdidas do nosso Portugal. Felizmente há autarquias que ainda usam a imaginação, mas não conseguem resolver tudo. O facto é que o serviço postal está em vias de extinção. Compreende-se que o correio digital ajuda, mas nem tudo pode ser enviado por correio digital, a começar, por exemplo, por documentos confidenciais. A crónica desta semana anda como os correios. Atrasou-se! Só que não está para acabar. Antes pelo contrário!

Marco do Correio de Portugal

Marco dos CTT-Correios de Portugal

Um destes dias cheguei a uma aldeia perdida na planície alentejana. Tinha de enviar documentos contabilísticos assinados e o mail não era solução. O correio já estava fechado há tanto tempo que poucos se lembravam do sítio. Mas havia uma solução: a papelaria!

Tinha envelopes de correio verde (não sei qual o motivo da cor) e um marco na rua. Por sorte era o último envelope. Até este material é difícil chegar onde deve a tempo e horas. Consegui com alegria colocar a documentação e meter no marco do correio. Porem a senhora avisou-me, chegam a passar semanas e ninguém cá vem levantar as cartas. Porém, mais mês, menos mês, seguramente a correspondência chegará ao seu destino.

Mas tinha outro problema. Precisava de enviar dois dossiers A4. Para além da senhora não ter mais envelopes o marco era do tamanho da caixa do correio lá de casa e, como devem imaginar, estava ansioso que o carteiro passasse para levar as carradas de correspondência que atulhavam o recipiente.

Fui então à «Net» ver como poderia resolver o problema. Para além de Cabo Ruivo e os Restauradores, sensivelmente a 300 quilómetros de onde estava, não havia mais postos de correio abertos. Provavelmente até poderiam existir papelarias, ou supermercados, ou até farmácias de serviço, mas o facto é que o Google nada indicava que também prestavam serviço postal.

Um outro dia tento ir a uma sede de freguesia que ainda tem posto de correios a funcionar. Só que no meio de tanta viagem e correria cheguei à hora do almoço. E entre as 12:30 e as 15:00, nada feito. Eram quase 13:00 horas. Também percorri algumas lojas que me pudessem ajudar, mas aí ainda ninguém se lembrou de ter um marco (preferencialmente grande) e de venderem correio verde, ou até azul (acho que não desapareceu mas caiu em desuso), bem como umas caixas tipo ou envelopes de grandes formatos.

Continuo a passear estes dois dossiers como fossem objetos de recordação ou estimação, tendo mesmo receio que me afeiçoe tanto a eles que na hora da despedida ainda me vem uma lágrima.

Deixando de lado a brincadeira o assunto é sério. O serviço postal privado, que já era lucrativo no tempo em que era uma empresa publica, deve ser gerido, no mínimo com uma ótica de eficiência e não apenas de resultados trimestrais. Mesmo sendo privado presta um serviço aos cidadãos e todos e todas sabemos que o correio digital cada vez é mais fácil de ser violado, copiado e até guardado sabe Deus por quem.

Daí que, do ponto de vista de estratégia de negócio, não entendo como os gestores privados não explorem nichos de mercado que possam resolver os problemas dos cidadãos. E é essa a missão de um gestor de uma empresa que presta um serviço público, mesmo que tenha capital privado.

É sabido que a ideia desta privatização veio da Troika, com vista a abrir o lucro aos interesses internacionais. Também não sei que poderes tem o Estado de regular este serviço, que penso não existir.

Resta-nos a imaginação, ir comprado os envelopes em promoções, e as autarquias convencerem os ditos correios a instalarem em alguns locais marcos, preferencialmente, onde caibam pequenas encomendas.

Uma coisa é certa. É mais certo uma carta chegar ao destino certo que um Email!

Moura, 12 de julho de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Quem tece a ideia de privatizar os Correios?

  1. Alex diz:

    Pois.. Fica a saber que uma carta registada em correio azul levou quase três semanas a percorrer a distância Lisboa / Paris… Terá vindo a pé? É aqui não se trata de uma pequena aldeia perdida, mas mas sim de duas capitais…

  2. Carla Andrade diz:

    A descentralização um dia… hade chegar a Portugal!

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