O buracão do Dirão – Parte II

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

A povoação do Dirão da Rua é atravessada por uma galeria subterrânea, vulgarmente conhecida por mina, que antigamente abastecia de água uma presa existente junto ao Largo de são Cornélio. A passagem de um veículo ligeiro da Câmara Municipal de Sabugal, em 16 de março de 2018, provocou uma derrocada que surpreendeu a todos.

Circular externa do Dirão da Rua (que não existe!)

A INDIFERENÇA
Passaram mais de quinze quinzes meses e os nossos representantes políticos locais permanecem indiferentes ao que possa acontecer! A Câmara Municipal de Sabugal entulhou o buracão pouco depois do acidente. Em meados de novembro de 2018 o local foi calcetado novamente. Este fato mostra as intenções do poder político local: Não realizar nenhuma intervenção estrutural. A cerca de 20 metros de distância, na sequência de uma rutura no abastecimento de água, o recalcetamento demorou cerca de seis anos!

Os poucos eleitores que aqui vivem são irrelevantes!

As probabilidades de um acidente são diminutas!

O Dirão da Rua está rodeado de torres eólicas! Quando da construção do Parque Eólico houve necessidade de construir uma estrada exterior à povoação para passagem dos camiões. Esta encontra-se fechada enquanto os automóveis das empresas passam diariamente no meio da povoação, perturbando o sossego dos poucos que ainda aí vivem e potenciando novas derrocadas! O não aproveitamento dessa infraestrutura devia ser motivo de vergonha para o poder local!

Temos todas as consequências nefastas, nomeadamente o ruído, mas o poder local parece não se preocupar com a melhoria da qualidade de vida da população. Só saem beneficiados os proprietários dos terrenos que recebem rendas avultadas pela instalação das torres!

Derrocada de 16 de março de 2018

2. Conclusões:

2.1. Existem indícios de que a zona onde abriu o buraco é bastante instável, (conforme referido no ponto 1.7). Num espaço de cerca de 12 metros houve três desabamentos nos últimos sessenta anos! Apesar do sucedido, esse local não tem qualquer restrição ao trânsito e não houve, até ao momento, um estudo sobre a solidez ou não da parte superior! Os veículos passam no espaço entre dois desabamentos, havendo a possibilidade de o fazerem em cima da que ocorreu no início da década de 1960! Os utilizadores desta rua passam indiferentes devido à regularidade com que o fazem. Sou de opinião que devia ser colocada uma estrutura metálica sobre a mina, como forma de prevenção, até que houvesse certezas. Isto implica descer e averiguar!

Qualquer pessoa, com o mínimo de bom senso, concluirá que não é possível garantir segurança sem uma análise pormenorizada do terreno (veja-se ponto 1.7, da parte I).

Cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém!

2.2. A obstrução do percurso permite a acumulação de água parada; o excesso de humidade no subsolo reflete-se na parte superior, potenciando eventuais derrocadas.

2.3. Perante as evidências expostas como explicar a não utilização da circular externa? A infraestrutura está feita e é só chegar a acordo com os proprietários terrenos!

2.4. Um novo acidente tanto pode acontecer amanhã ou daqui a cem anos! Não é possível prever! Sem uma inventariação do percurso e pontos sensíveis não é possível avaliar a solidez ou fragilidade. No caso de provocar uma fratura na rede de abastecimento de água, esta pode tornar-se de difícil identificação, pois a água pode perde-se na galeria subterrânea, o que já aconteceu uma vez…

2.5. Existe a possibilidade de uma nova queda poder afetar a estrutura de casas! Portanto, não podemos assobiar para o lado como se não fosse connosco!

2.6. Os prejuízos, provocados por um eventual desabamento, podem ter um custo muito superior à indemnização a pagar aos proprietários dos terrenos por onde passa a estrada que está feita fora da povoação. Podendo ainda ser analisada outra solução!

2.7. Parece-me inevitável a abertura da mina para realização de obras. Uma intervenção pode realizar-se no local onde se verificou o último desabamento ou no largo de S. Cornélio, no antigo acesso e sem transtornos na circulação.

2.8. Após a identificação do percurso, torna-se necessário definir regras sobre as árvores permitidas nas proximidades, de modo a que as raízes não provoquem novos desabamentos.

2.9. Existem dúvidas sobre diferentes funcionalidades ao longo do tempo! Assim, as obras devem ser acompanhadas pelos serviços de arqueologia.

2.10. A época ideal para agir corresponde aos meses de verão.

2.11. Deverá ser construído um acesso para futura monotorização.

2.12. Após a realização de obras a água deverá ser disponibilizada par rega aos interessados.

2.12. A identificação/inventariação do percurso permitirá ao poder local tomar decisões mais assertivas quanto à realização de obras públicas e licenciamento das de particulares.

NOTAS FINAIS:
Se não tivesse acontecido o episódio acima referido, estas memórias corriam o risco de extinguir-se! Por vezes as catástrofes são aliadas da verdade e da memória dos povos!

As principais fontes de informação, que permitiram a elaboração deste artigo, foram jovens com mais de oitenta anos. Procurei ser fiel aos testemunhos orais recolhidos.

A informação agora divulgada pode ser uma verdade inconveniente para os nossos representantes locais, porque:

a) As medidas tomadas, durante os últimos quinze meses, são claramente insuficientes!

b) Em 2018 publiquei artigos sobre este assunto no jornal “Cinco Quinas”. Esperei sentado que os executantes da política de proximidade…

c) Perante as evidências expostas, qual o motivo de não exercerem o direito de resposta?

Não existe verdade sem contraditório!

d) Política de proximidade que não responde, em tempo útil, às reclamações dos cidadãos é fantasia!

O pior cego é o que se recusa ver!
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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

PS.
Este artigo é, no essencial do seu conteúdo, idêntico aos artigos publicados no jornal “Cinco Quinas” , em 2018, com o título “Dirão da Rua: Cratera na Rua Principal”.

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