Uma passagem por Lisboa

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Outro dia, mais concretamente 6 de junho, tive a oportunidade de ir à Associação José Afonso, em Lisboa, ouvir o concerto «À Mesa com a Cultura» cantado pela Marta Ramos e tocado a viola por João Rodrigues. Para além da presença ilustre de alguns militares de abril, estava eu com a tertúlia do meu amigo Mário Fernandes que tem um gosto pela cultura como poucos têm. Para além da arte de Zeca, a Marta cantou outos temas destacando-se a «La llorona», a chorona em português, dedicada à memória da sua avó raiana. Pena é que não se concretizem mais espetáculos assim. Pelo menos, neste caso, fica o registo.

Duo «O Acaso». Marta Ramos acompanhada por João Rodrigues

Marta Ramos acompanhada por João Rodrigues na AJA Lisboa

Tendo estado de passagem por Lisboa, consegui ainda chegar a tempo de ouvir a Marta e o João, conhecidos pelo duo «O Acaso». Conheci-a no Fundão, nos Encontros de Cinema, onde tive a oportunidade de a ouvir cantar e encantar.

Para mim, que vivi intensamente o período revolucionário, foi emocionante voltar a ouvir a música e as palavras interventivas de Zeca e de Adriano Correia de Oliveira. Mas foram tocados outros trechos de mornas e fado, onde pessoalmente, achei que a Marta se revela mais original. O seu tom grave é invulgar tornando as oitavas do fado com um gosto único e diferente.

Outro ponto alto foi a interpretação do tema do folclore mexicano «La llorona», tendo dedicado a sua avó, que conta a história de uma mulher abandonada pelo marido, um nobre que se apaixonou por uma pobre e humilde «Maria», mas que a sua família de pergaminhos obrigou-o a abandonar a mulher que tanto amava, tendo esta ficado sozinha para criar os seus dois filhos e gritando de amargura ao ponto de os ter lançado ao rio. Marta sem dúvida soube transmitir esta carga emocional de um tema muito conhecido na América Latina com direito a aplausos de pé.

De Zeca cantaram-se «Vejam bem», «O que faz falta», «Trás outro amigo também, «Fui ver a minha amada» ou a «Canção de Embalar».

O José Afonso era um homem simples e indiscutivelmente um marco na nossa cultura que atravessa qualquer espetro de opinião ou de paixão. Do que pude investigar da sua vida, destaco que seu pai era natural do Fundão, completou a instrução primária em Belmonte, tendo durante os estudos liceais e universitários integrado o Orfeão Académico e a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, iniciando a sua atividade musical.

Teve uma vida muito conturbada, passando também por Mangualde, Alcobaça, Lagos, Faro, Angola, Moçambique e Setúbal, onde acabou por ser sepultado, com 57 anos, vítima de uma esclerose. Nessa cidade foi expulso, em 1967, do ensino oficial.

Em maio de 1964, atua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção «Grândola, Vila Morena». Sensivelmente a partir desse ano dá início à sua carreira de oposição ao regime.

Dos inúmeros prémios e homenagens que teve, saliento o de melhor compositor e interprete de música ligeira, pela Casa da Imprensa, nos anos de 1969, 1970 e 1971.

Daí que é interessante e enriquecedor ver jovens, como a Marta e o João, cantar e tocar músicas e poemas de Zeca Afonso.

Pessoalmente é a única homenagem que lhe podem fazer. Porque o pior que pode acontecer a um artista é a sua obra ficar na gaveta, esquecida nos arrumos do tempo. E aqui dou o exemplo da «La llorona». Uma musica que nunca será esquecida e já cantada em muitos países da América Latina.

Lisboa (AJA), 6 de junho de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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