Crónicas de interregno – a corrupção

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Não ir ao Sabugal, para além de me deixar triste, deixa-me também sem poder falar do que ali se passa… Não querendo, no entanto, e enquanto o Paulo e o Zé Carlos, assim o entenderem também, parar com estas minhas pequenas crónicas, vou hoje falar sobre o tema da corrupção, tão na ordem do dia.

Índice de Percepção de Corrupção no Mundo em 2018

Índice de Percepção de Corrupção no Mundo em 2018

Antes do mais, devo dizer quer não conheço nenhum corrupto e que se algum dia tiver provas de que alguém que eu conheço é corrupto, a minha primeira atitude será entregar essas provas na Judiciária.

Mas sei, por experiência própria, como é fácil ir à Judiciária ou ao Ministério Público e fazer denúncias, mesmo que sem fundamento, sobre outra pessoa, e como tal ato prejudica o visado.

Ponhamos as coisas de uma forma simples. Todos os da minha geração sabem que o senhor mais importante que havia e há em Portugal é o «sr. Cunha». Quantos dos que me estão a ler não sabem ou não se serviram deste senhor?

E quantos dos que já se socorreram deste senhor, nem que seja para apressar uma simples consulta médica, têm consciência do ato ilícito que estão a cometer?

Claro que quando falamos de corrupção, esquecemo-nos sempre disto.

Mas também é claro que quando o tal «sr. Cunha» não corresponde ao nosso pedido, logo estaremos disponíveis para dizer que o tal é um corrupto…

A questão coloca-se a um nível diferente quando falamos de corrupção a nível político e/ou económico, que envolve decisões e muitos milhões.

Mas mesmo nestes casos, continuo a dizer que não conheço, nem tenho provas e que, até a justiça o demonstrar e punir, aqueles que são apontados na praça pública têm o direito a ser considerados inocentes.

E é aqui que o nosso sistema judicial tem prestado um péssimo trabalho para a defesa do regime democrático e da sociedade portuguesa.

Hoje, as pessoas são crucificadas publicamente e essa crucificação tem, quase sempre, origem na atuação dos diferentes órgãos da investigação e da justiça.

Pedia-se à Judiciária, ao Ministério Público e aos juízes de instrução mais respeito pelas pessoas sob investigação.

Não contribui em nada para a obtenção de provas o espetáculo a que se assiste cada vez que se desenrola uma ação policial.

Nada se avança quando os jornais e as televisões são como que convocadas para o espetáculo da detenção de um suspeito, seja lá quem for.

E nada se avança quando se passa para a comunicação social o teor dos interrogatórios feitos no dito «segredo de justiça».

Seja quem for, o cidadão português tem direito à presunção da inocência até prova em contrário.

Às vezes até parece que o sistema judicial, temeroso de não ter provas suficientes, quer a condenação prévia dos suspeitos na opinião pública.

E isto é, e será sempre, um atropelo ao direito de cidadania, logo à qualidade do sistema democrático.

Os que foram e os que vierem a ser condenados em tribunal são, comprovadamente, culpados de corrupção.

Todos os outros continuam a ser inocentes até ao julgamento.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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