O glorioso baralho de cartas

Em Inglaterra, nos tempos em que reinava Jorge III, numa igreja de Glasgow, o soldado Ricardo Middleton, foi surpreendido olhando para um baralho de cartas espalhado à sua frente, em vez de ler a Bíblia, como faziam os seus camaradas.

O soldado Ricardo Middleton glorificou o baralho de cartas

Um sargento intimou o soldado a recolher as cartas, no que foi desobedecido. No fim da missa, o mesmo sargento repreendeu duramente o soldado e participou do mesmo, descrevendo a sua conduta ao comandante da unidade a que pertenciam.

No dia seguinte o soldado foi levado à presença do comandante que o instou a explicar-se:

– O que te levou, soldado, a tão estranho e escandaloso procedimento? Se há razões que o justificaram diz quais foram, porque de contrário, espera-te uma punição exemplar.

O soldado, tirou da algibeira o baralho de cartas e, mostrando o ás ao comandante, disse:

– Senhor, quando vejo o ás lembro-me de que há um só Deus. Quando vejo o duque recordo-me do Pai e do Filho. Quando olho para o terno, vejo o Pai e o Filho acompanhado pelo Espírito Santo. Já a quadra faz-me pensar nos santos evangelistas, S. Marcos, S. Lucas, S. Mateus e S. João. A quina faz-me pensar nas cinco virgens sábias que ministravam o óleo à santa lâmpada. A sena diz-me que em seis dias Deus criou o mundo. Já a bisca lembra-me que descansou ao sétimo dia depois do haver criado. A carta do oito recorda-me que foram oito as pessoas virtuosas que se salvaram no dilúvio – Noé, sua mulher, os três filhos e suas esposas. O nove lembra-me que eram nove os leprosos purificados pelo nosso Salvador. Finalmente a carta de dez lembra os dez mandamentos da Lei de Deus.

Nisto, chegou o soldado Ricardo ao valete, e colocou-o de parte, continuando:

– A dama lembra-me a rainha de Sabá, que veio das extremidades da terra para admirar a sabedoria de Salomão. Finalmente a carta do rei lembra-me o Rei do Céu e também o nosso monarca Jorge III.

– Vejo que estudaste as cartas e preparaste a tua defesa, querendo impressionar-me. Tens algo mais a dizer?

– Sim, Senhor. Ainda quero dizer-vos que quando conto o número de pontos do baralho de cartas, acho 365, tantos quantos os dias do ano. Quando conto o número de cartas, encontro 52, e esse é o número de semanas que o ano contém. No baralho contam-se 12 figuras, que é o número de meses de cada ano. Por tudo isto, Senhor, para mim um baralho de cartas é uma Bíblia, um almanaque e um livro de orações.

– Muito bem, volveu o comandante, deste-me uma explicação satisfatória de todas as cartas, menos do valete. Nada tens a dizer sobre essa carta?

– Se V. Exª promete não se zangar comigo darei dessa carta uma explicação tão justa como o fiz das outras.

– Pois bem, fala que não me zangarei.

O soldado tirou o valete (knave, em inglês, que também significa velhaco) do baralho e disse.

– Os valetes são velhacos e, de todos eles, o mais tratante é o sargento que me trouxe à Vossa presença.

O austero comandante descompôs-se e não pode evitar uma descomunal gargalhada, no que foi imitado por toda a audiência.

É escusado acrescentar que o soldado glorificador do baralho de cartas foi absolvido.
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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»