Cemitérios e práticas funerárias (9)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: DISPOSIÇÕES E CONTRIBUIÇÕES :: :: A preparação para morte e as práticas religiosas a ela associadas, antes e depois, assumiram caraterísticas próprias ao longo dos séculos. As comunidades adaptaram os seus comportamentos ao espaço geográfico e às condicionantes de cada época. Pretendo divulgar informações que encontrei nos Arquivos, bem como alguns costumes que, se não escrevermos, correm o risco de desaparecerem da memória dos povos desta região.

Capela de S. Tiago – Sortelha

Era uma vez uma sociedade controlada pela Igreja!

Nos séculos XVII e XVIII, as disposições, testamentos ou codicilos faziam parte dos assentos de óbitos e, durante vários séculos, foram certamente a principal fonte de rendimentos da igreja.

Em Sortelha, entre 1620 e 1623, mais pareciam um Livro de Contabilidade.
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Alguns exemplos:
1.(2)

Livro dos assentos de óbitos

Todos tinham que pagar. Nem crianças e pobres escapavam! Se o defunto não tinha posses, então, o bem de alma passava para a responsabilidade dos familiares ou herdeiros, como se pode ver pelo caso seguinte:

Este documento é esclarecedor sobre a pressão exercida pelos párocos sobre os fiéis.

A igreja cobrava para enterrar os pobres e menores.

Alguns pobres foram enterrados na Igreja Matriz de Nossa Senhora das Neves, de Sortelha, mas quando se optou pela Misericórdia a justificação era a “muita pobreza”. Daqui se conclui que esse local, durante vários séculos, constituiu a última morada para os desventurados. Não encontrei nenhum testamento onde alguém elegesse esse local para ser enterrado!

Exemplos de registos:
1.Igreja Matriz:

Ab intestado significa sem testamento.

2. Misericórdia:

Assim, os mais abastados (nobreza e clero) viam esse espaço com um certo estigma. Numa sociedade estratificada e hierarquizada, os mais ricos não quiseram misturar-se com os desafortunados. Estas circunstâncias ajudam-nos a compreender os motivos das ruínas da Igreja da Misericórdia na atualidade! A extrema miséria por que passaram as populações, em alguns períodos, como no século XIX, não permitiu a sua manutenção! Os pés descalços não puderam e quem podia não quis!

A opção pela escolha de um local privilegiado, na Igreja Matriz, teve um preço!

Pagavam pela redação do testamento ao padre. Depois, os ofícios e elevado número de missas!

Em Penalobo, em 1766, o testamento de Luiza Gonçalves, que “faleceo com todos os sacramentos que lhe eram prometidos”, deixou em testamento um total de 64 missas.(6)

O Cura João Gomes fez diversos testamentos com várias dezenas de missas.

O povo analfabeto vivia condicionado pelos homens da saia preta! Estes quando começavam uma Disposição sabiam como terminar. Adquiriram uma elevada competência na arte de persuasão! Em alguns períodos, tendo o mesmo pároco como autor do texto, o discurso repete-se para pessoas do mesmo nível económico.

Esta sociedade era totalmente controlada pela Igreja!

Sobre o destino destes dinheiros sabemos nada! Certamente que contribuiu para o enriquecimento do clero! Era um cargo de muito prestígio, por isso abundavam!

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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1- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos Paroquiais de Sortelha, Livro de Registos Mistos, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0097.tif / PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0098.tif /PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0099.tif e PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0100.tif.
2- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0097.tif.
3- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0103.tif.
4- Idem: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0102.tif:
5- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0104.tif.
6- Idem, Registos Paroquiais de Penalobo, Livros dos Registos de Óbitos, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG21-003-O1_m0054.tif –

2 Responses to Cemitérios e práticas funerárias (9)

  1. António Borges diz:

    Como esta é uma temática a que me tenho dedicado ultimamente e nunca encontrei o termo absintado, pergunto: será absintado ou ab intestado (sem testamento) ?

  2. António Augusto Gonçalves diz:

    Está corrigido!
    Grato pela observação.

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