A encruzilhada do Senhor Reitor

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Com a idade, muitos dos nossos amigos e conhecidos conseguem atingir os topos das carreiras. Porém em garotos um respeitado médico, ou engenheiro ou até presidente parecia-nos inatingíveis. O facto é que tenho professores amigos e um deles, vejam só, até é reitor. Numa bela tarde desta primavera prematura perguntou-me o que achava de mandar colocar uma cruz num edifício outrora religioso, mas que com o tempo terá desaparecido. Olhando para a cobertura, mesmo sendo um edifício de serviços, sem dúvida que a falta da cruz é notória e, de facto, considerando tratar-se de património histórico até nem me pareceu descabido colocar uma cruz que compunha e valoriza o edifício em causa. Porem a polémica estalou e o pobre do reitor de uma cruz meteu-se numa encruzilhada.

Encruzilhada - Capeia Arraiana

Encruzilhada

Deve existir uma separação obvia da função de um dado edifício da sua arquitetura. Mas arquitetura é história e há edifícios pela sua natureza são classificados, devendo o proprietário manter a sua linha e preservar a sua originalidade.

Se por acaso comprasse o palácio ducal dos Bragança, e os vendedores entendessem levar o brasão, eu imediatamente reponha uma cópia porque o palácio ducal dos Bragança sem o respetivo brasão até podia ser mais um hipermercado asiático. Quer isto dizer que o brasão marca e identifica o edifício para o qual foi construído.

Mas imaginemos que sou reitor de uma escola, no Alentejo onde existiu muita presença árabe, e compra-se um edifício que se vem a descobrir mais tarde que teria sido uma mesquita. Como reitor tudo faria para reconstruir fielmente o edifício exteriormente e obviamente que poria o crescente o mais enquadrado possível no contexto da mesquita. Nunca copiaria as arquiteturas dos anos 80 e 70 onde se vêm cópias de chalés suíços ornamentados com leões ou águias conforme as preferências clubísticas.

Aparentemente o tema até seria pacifico. Mesmo para os puristas laicos, um edifício que em tempos foi um local de culto, até pode ter exteriormente alguma simbologia que o identifica.

Mas a questão lamentavelmente teve outros contornos. Aproveitando esta inofensiva atitude do professor, como lobos matreiros, saltam-lhe os opositores com críticas ferozes e até deselegantes, tendo em conta que, tanto quanto sei, nem decorre de momento nenhum período eleitoral para corpos dirigentes.

Ainda bem que vivemos em democracia e ainda bem que os corpos dirigentes devem ser sujeitos a sufrágios, mas, regra geral, há um período eleitoral para os futuros dirigentes poderem provar aos seus eleitores as mais valias, não me parecendo de todo criticar a aquisição de uma cruz, mesmo sendo um custo, uma vez que acaba por tornar-se num investimento pela valorização patrimonial.
Mas imaginemos que a campanha para umas eventuais eleições, num dado colégio, se centraria na cruz, com os seus defensores e do outro lado os partidários de um mocho, símbolo da sabedoria. Até podia acontecer, mas, pessoalmente, mesmo pondo a religião de lado, um convento com alguns séculos deve ter uma cruz e não um mocho. Tal como a casa beirã não deve ter a chaminé algarvia.

Se por algum motivo quisesse concorrer a reitor, deveria ter objetivos na melhoria da qualidade do ensino num panorama de sustentabilidade. E a qualidade do ensino faz-se com professores motivados, parcerias com empresas, ou até com confissões religiosas, e aproveitando todos os projetos comunitários para dignificar a escola. Recordo o Prof. Tribolet, no Instituto Superior Técnico, que adquiriu em plena crise nos anos 80 um dos computadores mais caros do mundo e projetou o curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores para um dos melhores, onde no último semestre os alunos iam trabalhar para as empresas, revolucionando por completo o ensino superior da época. E o Prof. Tribolet, por muitos defeitos que tivesse (tal como eu), lutou exaustivamente para que os seus alunos fossem reconhecidos internacionalmente numa altura em que ainda se achava que a informática era coisa de garotos.

Seguramente teve muitas encruzilhadas, porque concorrência não lhe faltava, mas acredito que se o instituto que fundou mais tarde, o INESC (Instituto Nacional de Engenharia e Sistemas de Computadores) fosse no palácio do Duque de Marialva, seria preservado exteriormente como o original, e também não seria por isso que os seus concorrentes lhe iriam criar oposição porque nestes «campeonatos» o mérito e a excelência são as «armas» para a disputa do poder.
Mas voltando à cruz, e à encruzilhada, como diz sabiamente o povo: cruzes canhoto!

Lisboa (IST), 8 de junho de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

4 Responses to A encruzilhada do Senhor Reitor

  1. António Alves Fernandes diz:

    Maravilhoso e democrático texto. Deus queira e escrevo como confesso cristão, que quem o deve ler o teu texto é um Senhor Manuel Lemos, médico e professor na UBI – Covilhã. <Com certeza que tiraria algumas conclusões.

  2. António Cunha diz:

    Nos anos 80 conhci o Prof. Tribolet era então Presidente do INESC (Instituto Nacional de Engenharia e Sistemas de Computadores). Assisti a várias palestra que ele fez para os trabalhadores dos TLP – Telefones de Lisboa e Porto.

  3. António José Alcada diz:

    Obrigado Amigo António Cunha pela partilha. Julgo que concorda que foi um bom professor

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