Limpar a Praça

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

As paixões não são más só por si. Bem pelo contrário. O problema é quando elas ficam tão exacerbadas que se pervertem ou se transformam em loucuras.

Bruno Lage no Marquês: ninguém vai para casa sem deixar a Praça limpa

Gostar de futebol não tem mal. A questão é quando as emoções ultrapassam limites e se espelham em clubismos doentios facilitando violências e envergonhando gostos genuínos. Avolumam-se as encrencas quando o futebol se disfarça de desporto para admitir tráficos obscuros e promover soturnas corrupções.

No corrente ano, finda a temporada futebolística, terminado o Campeonato, definida a Taça de Portugal, consumada a Liga das Nações com a Seleção Nacional a sagrar-se vencedora e a reacender e cooptar gostos unânimes encerram-se os festejos e refrescam-se euforias. Entrar-se-á, agora, em curto pousio , quiçá, num rápido período propício a reflexões.

Contudo, o imprevisto já havia sucedido por entre o esplendor da festa. Um preeminente elemento da estrutura, o treinador do Benfica, Bruno Lage, veio declarar publicamente que o futebol não é tudo e que, na vida, a saúde, a educação e a economia são áreas primordiais.

O que Bruno asseverou é tão simplesmente verdadeiro quanto absolutamente evidente. Só que, em contexto futebolístico, é, também, assaz surpreendente.
Com efeito, Bruno surge corajoso e de mente aberta exibindo nova atitude, advogando novos procedimentos, pondo em causa o mundo do futebol. E arrisca, ainda arrisca bastante. Em plena intervenção, do palco dos festejos, atreveu-se a pedir aos adeptos que não saíssem da praça sem a deixar limpa.

Não é crivel que, em algum momento, Bruno pudesse ter acreditado na satisfação do seu pedido. Na verdade, apenas seria de esperar que ninguém limpasse coisa nenhuma. Registe-se, no entanto, o arrojo da ideia. Atente-se, apesar de tudo, na peculiaridade da rogatória.

Enfim, Bruno conseguiu, desta forma, tornar-se refém de si próprio. Doravante, jamais serão esquecidas as suas palavras e haverá sempre quem lhe exija incoerência zero.

Todavia ele terá querido lançar um bom início. Claro que seria óptimo poder ver o futebol tal qual ele o insinua e, por consequência, uma “Limpeza de Praça” talvez fosse a melhor solução.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

6 Responses to Limpar a Praça

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Um Homem assim no mundo do futebol, o mais provável é ser «abatido»…

    Um abraço do Nabais

  2. antonio gata diz:

    Excelente, como sempre. E, claro que a limpeza que o Bruno Lage sugeriu é, exatamente, a que tu advogas embora nem os que estavam na praça se fizeram acompanhar das ferramentas necessárias para a limpeza (pás e vassouras) nem a tua sugestão que necessita de outras ferramentas mais sofisticadas vai deixar de cair em saco roto.

    Abraço

  3. Fernando capelo diz:

    ” Sejamos razoáveis acreditando no impossível.”
    Um grande abraço também para ti, amigo Gata.

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