A curiosidade do criado de Tasso

O criado de Torcato Tasso cismava em saber o que o seu amo fazia enquanto fechado no quarto por longas horas esquecidas. Fabricaria moeda falsa? Elaborava planos para uma conspiração? Seriam ignominiosas feitiçarias?

O poeta italiano Torcato Tasso (1544-1595)

O criado dava voltas e voltas à cabeça no sentido de encontrar uma maneira de esclarecer a curiosidade, enquanto o seu patrão permanecia de porta cerrada.

Quando Tasso saía para um passeio pelas ruas e jardins de Roma, fechava sempre a porta e levava infalivelmente consigo a chave.

Já o criado magicava em fazer com cera o molde da fechadura, de maneira a mandar fabricar uma chave falsa, para assim abrir a porta na ausência do amo, quando um dia saiu Tasso à pressa para tratar de um negócio, esquecendo-se de fechar a porta do quarto. O servo, que há muito tempo esperava por um descuido daqueles, tratou de aproveitar, e entrou no aposento.

Deparou-se com uma imensa papelada sobre a mesa de trabalho do amo, que examinou, saindo pouco tempo depois, preocupado em não ser surpreendido com o regresso de Tasso.

E o criado, dirigiu-se aos amigos com quem confidenciara a curiosidade sobre o que o amo fazia fechado, dizendo-lhes:

– Descobri que não é bruxo nem conspirador, nem moedeiro falso. É maluco.

– Maluco!? – disse um dos seus amigos.

– Sim: tem lá um horror de cadernos escritos com a sua pena e não há em todos eles uma só linha que esteja completa!

Eram versos. Os versos da Jerusalém Libertada, o célebre poema épico de Torcato Tasso publicado pela primeira vez em 1581, no qual descreveu os combates entre cristãos e muçulmanos no curso da Primeira Cruzada.
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«Histórias de Almanaque», por Paulo Leitão Batista

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