Cemitérios e práticas funerárias (8)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: DIRÃO DA RUA – PARTE II :: :: A preparação para morte e as práticas religiosas a ela associadas, antes e depois, assumiram caraterísticas próprias ao longo dos séculos. As comunidades adaptaram os seus comportamentos ao espaço geográfico e às condicionantes de cada época. Pretendo divulgar informações que encontrei nos Arquivos, bem como alguns costumes que, se não escrevermos, correm o risco de desaparecerem da memória dos povos desta região.

Casa tradicional do Dirão da Rua

Transporte dos mortos para Sortelha e acompanhamentos

Caminhante, não há caminho. Faz-se o caminho ao andar.” – António Machado.

Antes de haver cemitério no Dirão da Rua, segundo a tradição oral, histórias que os mais velhos contavam/contam, nesse tempo não havia caixões, como atualmente, o morto era embrulhado num lençol e colocado num esquife ou padiola. Este encontrava-se na capela de Santa Bárbara, junto à pia da água benta, ou seja, logo à entrada do lado direito. O transporte do defunto, de Dirão da Rua para Sortelha, era tradicionalmente feito pelos rapazes da povoação. Não era tarefa fácil! O caminho era longo e difícil! Seriam cerca de duas horas de caminhada, serpenteando a serra por caminhos pedregosos, como se pode ver, ainda, pelos troços de calçada que sobrevivem à destruição das máquinas e à imprudência dos homens. Por outro lado, as adversidades climáticas: O calor excessivo do verão e o frio intenso de inverno. Antes da partida confortava-se o estômago com o que a família enlutada disponibilizava (pão, queijo, enchidos tradicionais e água e vinho). Nos dias de muito calor levava-se, nos alforges, um cântaro com água da fonte da terra, então muito apreciada, mas agora dizem que não presta! Durante a longa viagem as carpideiras faziam o seu trabalho de lamentações pela memória daquele que acompanhavam. O momento não era propício para atribuição de defeitos, só as virtudes se recordavam. Entre os habitantes e acompanhantes eram os dias de maior concórdia, esqueciam-se as desavenças. Havia necessidade de descansar; momentos aproveitados para a realização de orações pela alma do que partiu e familiares já falecidos. O ritual, impunha que se rezasse em locais previamente definidos: Junto à casa do falecido; no Alto, à saída da povoação; no sítio da Fonte Sangue; na Cabeça Calva; nas Tapadas de Fora; ao chegar à estrada de Sortelha, junto ao cruzamento da Ribeira da Nave; por último, em Santa Catarina ou junto à casa da viscondessa. Sempre que possível, escolhia-se um local mais ou menos plano para dar um pouco de conforto aos jumentos e às pessoas. Após colocarem mil vezes o pé direito à frente do esquerdo e este à frente do direito, lá chegavam à Igreja de Nossa Senhora das Neves, onde prosseguiam as orações. Terminada a missa de corpo presente, realizava-se o cortejo para a despedida no cemitério. O último ato desta jornada era atirar com o morto para a cova.

Os homens eram brutos! Nem se preocupavam com a integridade física do defunto! Morto não tem dor!

Antigo caminho que ligava Dirão da Rua a Sortelha. As recravas existentes nas rochas são resultados da passagem dos rodados de carros de bois ao longo de muitos séculos

Após a construção do cemitério, em 1911, permaneceu a tradição da celebração dos acompanhamentos, realizando-se nos quatro domingos seguintes ao funeral.

A instauração de Democracia em 1974, a melhoria das condições de vida e a democratização do automóvel, vieram alterar estes hábitos. Hoje não se faz o percurso pela serra, mas procura-se respeitar os costumes. Durante quatro semanas realizam-se os acompanhamentos e reza-se pelo defunto, mesmo que seja só na missa. O hábito de dar de comer e beber entrou em decadência!
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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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Nótulas:
• Seria bom que, após a edição desta informação, se preocupassem em reconstituir o dito esquife ou padiola!

• Preservar e dar a conhecer os caminhos antigos devia ser uma das prioridades da autarquia de Sortelha.

• Para elaborar este texto, além da minha experiência (também participei nesses acompanhamentos), tive a preocupação de ouvir os mais velhos. Essa gente, com saber de experiência feito, é fundamental para a inventariação do nosso património material e imaterial. Não esperem que partam!

• Estou convencido de que dei apenas um pequeno contributo para preservar a memória da região.

One Response to Cemitérios e práticas funerárias (8)

  1. R.AGONIA PEREIRA diz:

    Bom trabalho. Parabéns

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