Encontro dos ex-militares de Engenharia 447

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Sob o lema “que a tamanhas empresas se oferece”, os ex-militares do Batalhão de Engenharia (Beng. 447), sediado em Brá, na Guiné-Bissau, realizaram o seu 36º Encontro Nacional, num restaurante da freguesia de Tornada, junto à cidade de Caldas da Rainha.

Ex-militares de Engenharia na Guiné-Bissau realizaram mais um encontro

Desta forma, umas centenas de pessoas reuniram-se, conviveram, recordaram os bons e maus momentos de uma estadia, obrigatória naqueles tempos, na antiga província ultramarina para uns, mas que, pese embora a reforma administrativa de 1951 onde formalmente foi extinto o Império Colonial Português, ainda foi considerada uma colónia para outros dos participantes.

Trinta e seis encontros revelam bem a vitalidade dos seus organizadores e a militância e adesão destes ex-militares da Arma da Engenharia, estacionada no território da Guiné-Bissau.

Num ambiente rural onde se insere o Paul da Tornada, na Rede Nacional de Áreas Protegidas, e não muito longe da zona urbana e citadina, vinham chegando em catadupa os primeiros ex-militares do Beng.447, enquanto no passeio circundante, e em silêncio, desfilavam em grupo, ou apenas por si, centenas de peregrinos a caminho de Fátima para mais uma celebração do 13 de maio.

Não restam dúvidas, para quem observa estes primeiros momentos, quanto às relações humanas saudáveis, sinceras, francas e abertas. Os abraços multiplicam-se em cumplicidades de histórias de solidariedades, de trabalho, algumas rocambolescas, delirantes, anacrónicas, de maldições, de desesperos, de guerras, de amores e desamores, ainda bem vivas na memória destes ex-militares. Aliás é nas situações que passamos e vivemos que revelamos verdadeiramente o nosso carácter.

Quantas vezes os peregrinos de outrora iam pedir à Virgem de Fátima pelos seus entes queridos envolvidos numa guerra com pouco sentido, para que regressassem sãos e salvos. Hoje, bem sabemos como é diferente. As suas intenções baseiam-se nas preocupações de índole pessoal e coletiva. Problemas de falta de saúde, melhor harmonia familiar e tantas outras relacionadas com uma sociedade a auto destruir-se. No âmbito coletivo, muitos que pedem maior transparência política e apoio social, trabalho reconhecido, menos corrupção e compadrio, mais e melhor justiça, melhor educação e saúde…

Chegada a hora do almoço e à entrada para o amplo salão, lá estavam os nomes de cento e trinta e seis militares que já partiram para a eterna comissão, e que nos anos antecedentes marcaram a sua presença. Pela sua memória foi guardado um minuto de silêncio lembrando o esforço que fizeram pelas cores nacionais.

Uma vivência de guerra nunca pode ser algo aprazível. Era preciso aguentar a contrariedade estoicamente e sem lamúrias. Era preciso enganar o tempo, desarmá-lo, com a mesma atenção e paciência como se desarma uma mina ou armadilha. A nossa sobrevivência estava em jogo e um pequeno erro podia levar-nos a alma. As gentes da Engenharia Militar enganavam o tempo, construindo, fazendo obras, e assim iam promovendo o desenvolvimento destes territórios, muitas vezes esquecidos pela Metrópole.

Viveu-se um palco de emoções, de muitas tristezas, lamentavelmente superiores às alegrias, num trabalho árduo, alertas permanentes, grande ansiedade, mas conseguiu-se esta vivência de solidariedade e irmandade, que ainda hoje permanece.

Na listagem dos que já partiram, não pude deixar de me lembrar de mais um nome, Miguel António Aveiro de Sousa Santos. O seu progenitor foi meu camarada de armas na Guiné pertencendo igualmente ao Beng 447. O Miguel, meu companheiro de infortúnio em Condeixa, e que há dias partiu para o eterno descanso. A emoção invadiu-me com palavras fortes:” Porra Miguel, estavas na lista dos convocados com o teu nome e endereço completo, já tinhas avisado a organização que estavas presente, e não havia necessidade de partires tão cedo”. A tristeza invade-me o coração. Já não escreves, não posso ler mais os teus poemas, não dás mais aulas aos alunos. Deixaste-nos a todos mais órfãos.
Entretanto regresso “ao combate” e vou recolhendo várias opiniões de alguns protagonistas das inúmeras comissões militares que o Beng 447 implementou e que estavam presentes neste encontro.

Manuel Simões Esteves – 1º Cabo – Construção Civil – Aldeia de Joanes – Fundão
“Tive sempre muito orgulho de pertencer à Engenharia. As guerras não se vencem só na frente de combate. Tem de existir uma boa retaguarda. A nossa retaguarda era fornecer energia, água às companhias, fazer obras, estradas, pontes, casernas, aquartelamentos e materiais indispensáveis para a sobrevivência dos militares.

Estive no sector das Obras de Bissau, mas diversas vezes desloquei-me ao interior da Guiné. Uma das situações mais trágicas foi o meu regresso de coluna de Guileje. Vi morrer um sargento de minas e armadilhas e um soldado ficar sem os braços. Vi tragédias que espero nunca mais voltar a ver”.

José Joaquim Mira Ganso – 1º Cabo Carpinteiro – Alcáçovas – Évora
“Na oficina de carpintaria fiquei sem três dedos e por esse motivo passei para o serviço na Messe de Sargentos e mais tarde para a dos Oficiais.
Este acidente marcou-me e já lá fui três vezes visitar o ex-Batalhão de Engenharia, que está dividido em dois sectores, num funciona o Ministério das Obras Públicas e no outro um Lar para os Deficientes das Forças Armadas Guineenses.

Vi um povo com muita saudade dos portugueses e fui muito bem recebido. Ainda encontrei assalariados na Carpintaria onde trabalhei”.

João António Leitão Simões Santos – Alferes Miliciano – Eng.º Agrónomo
“Estive a chefiar o D.A.E (Departamento Avançado de Engenharia) em Babamdinca. Mais tarde acompanhei as Obras da Zona de Bafatá e acabei a comissão de serviço a acompanhar a agropecuária do Beng.447. Fiquei célebre pelo acolhimento de quinze mil patos (não desses que estão a pensar) domesticados vindos em avião militar da Metrópole. Este estranho episódio foi celebrizado no livro do último Comandante – Coronel Maia e Costa – com o título “A Engenharia Militar na Guiné”, apresentado na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, lançamento para o qual fui convidado.

A minha presença nestes encontros é certa para reviver estas e outras histórias”.

António Manuel Lambelho – Telhado – Fundão, 1º Cabo Mecânico
“Trabalhei sempre nas oficinas auto e com a saída do furriel fiquei como responsável. Nunca tive a possibilidade de vir à Metrópole passar férias. Sempre que posso venho aos nossos encontros”.

José Francisco Martins Barata – Alferes Miliciano Engenheiro – Salgueiro do Campo – Castelo Branco.
“Fui responsável pela secção dos motores fixos. Fornecia os geradores para os Batalhões e Companhias do mato, para disporem de energia e fazia-se sempre a respectiva manutenção. Venho sempre que me é permitido e encontro sempre novidades”.

Luís António Veríssimo Martins – Soldado Carpinteiro – Aldeia de Joanes – Fundão.
“Estive sempre no mato. Percorri diversos quartéis. Vivi muitos momentos com o coração nas mãos. Trabalhei sempre em prol dos militares. Nunca vim de férias. Cheguei a Lisboa de avião às três da manhã. O meu pai esperava-me de táxi para as sete desse dia já estar na oficina de carpintaria, tanoaria, a fazer pipas e escadas.

Sempre que possível venho aos encontros com alguns camaradas da zona do Fundão”.

Com esta frase no pensamento – “a tropa não olha às dificuldades, vence-as” -, terminou mais um Encontro dos Ex-Oficiais, Sargentos e Praças do Batalhão de Engenharia 447, do ano 2019.

O próximo ficou marcado para o dia 9 de Maio de 2020, a realizar em local que a organização em data oportuna indicará.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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