Cemitérios e práticas funerárias (7)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: DIRÃO DA RUA – PARTE I :: :: A preparação para morte e as práticas religiosas a ela associadas, antes e depois, assumiram caraterísticas próprias ao longo dos séculos. As comunidades adaptaram os seus comportamentos ao espaço geográfico e às condicionantes de cada época. Pretendo divulgar informações que encontrei nos Arquivos, bem como alguns costumes que, se não escrevermos, correm o risco de desaparecerem da memória dos povos desta região.

Capela de Santa Bárbara (foto de 2013) – vê-se parcialmente o cemitério

Foi uma grande surpresa encontrar registos de sepulturas na capela de Santa Bárbara, do Dirão da Rua, em meados do século XVIII!

I- Enterramentos na capela de Santa Bárbara
O vigário João Santos, em meados do século XVIII, lavrou diversos assentos de óbito em que utilizou a expressão seguinte:
– “Está sepultado na capella do Dirão da Rua”.Exemplos:
1- Em 18-10-1753 – Faleceu Maria Martins, mulher de Manoel Dias … sepultada na capela de Santa Bárbara, em Dirão da Rua.(1)

2- Manoel da Mota com testamento:
“Aos vinte dias de Janeiro de mil setecentos e cincoenta e quatro faleceo de vida presente com todos os sacramentos Manoel da Mota da Quinta do Dirão da Rua; e fez a disposição abaixo, e está sepultado na capella do Dirão da Rua, na capella de Santa Bárbara, de que fiz este termo dia, mez e anno ut supra.
Disposição de Manoel da Mota: Em nome da Santíssima Trindade Padre Filho e Spirito Santo; Eu Manoel da Mota morador nesta quinta do Dirão da Rua freguesia de Sortelha estando de cama com infermidade que Deus fez … mas em meu juízo perfeito de todo que sempre tive faço esta última Disposição:
Primeiramente encomendo a minha alma à Santíssima Trindade, que é cristão, e que todos os santos sejam meus advogados diante do meu Senhor e Rey Christo e que me perdoe os meus pecados. Determino que o meu corpo seja sepultado nesta capella de Santa Bárbara. Deixo pela minha alma seis missas, pela alma da minha mulher huma missa, alma de S. Martinho huma missa, à Sagrada Morte e Paixão huma missa, ao Santíssimo Sacramento outra missa e mais huma missa pelas penitencias mal cumpridas.
Dou trinta reis de dinheiro à Fábrica de Sortelha; mais huma coarta de centeio a S. Francisco Xavier; e hum meio de centeio à Irmandade das Almas da Urgueira. E por esta forma disse que tinha deixado esta disposição e rogou a mim senhor José Martins que esta fizesse e com testemunhas assignasse e com as mais que presentes estavão ao fazer della. Manoel Lourenço Correa, Manoel Gonçalves, João Gonçaves Barrança e seu filho João. Ditou-me mais que deixava cinco missas pela sua alma e huma pela de Santo Ildefonso.
Dirão da Rua 18 de Janeiro de 1754. De Manoel Lourenço Correa huma cruz, de João Gonçalves huma cruz, de João solteiro huma cruz.
Disse mais diria o seu Boticário do Sabugal.
Eu padre José Martins
O Vigário João dos Santos”(2)

3- Em 21-08-1755 – Domingos Fernandes foi sepultado na mesma capela.(3)

A sepultura na capela de Santa Bárbara foi uma vontade expressa em vida e o vigário autorizou. Não podemos dissociar deste fato o testamento/disposição. Os bens doados e missas encomendadas deviam ser muito importantes para a paróquia.

Perante a informação divulgada sou levado a acreditar que o conjunto de lajes existentes no interior, dispostas em fila desde a porta principal até ao altar, deverão ser túmulos!

Foi com alguma surpresa que li estes documentos, no Arquivo Distrital da Guarda, pois estava convencido de que a capela seria do século XIX. Afinal, terá sido construída no século XVIII, mas deve ter sofrido beneficiações posteriores.

II- O Cemitério
Em 1911, em dois registos de óbitos, de pessoas do Dirão da Rua, foram utilizadas a expressões diferentes:

• Em 12 de outubro de 1910 – Luiz, do Dirão da Rua, “sepultado no cemitério público, em Sortelha”;(4)

• Em 20 de outubro de 1911 – Óbito n.º 602 – “Maria Lucinda, indigente, filha de Manuel de Figueiredo e Maria Pereira, do Dirão da Rua, “sepultada no cemitério público que existe na mesma quinta”.(5)

Nada melhor que um(a) desventurado(a) para inaugurar o dito espaço!

A data parece corresponder à época da construção. Numa pedra, que facilmente passa despercebida, existe a data: 1911. Acredito que seja a referente à sua construção.
:: ::
«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
____________
Nótula:
Embora fosse quinta do Durão da Rua, das atuais anexas da freguesia (até final do século XIX/princípio do XX todas eram quintas), poderá ter sido a primeira a ter capela e depois o cemitério.

1. Arquivo Distrital da Guarda (ADGRD) – Rolo 854/260
2. Idem
3. Idem. O assento de óbito contém um Testamento parecido ao de Manuel da Mota, supracitado.
4. Arquivo Distrital da Guarda, “ Livro de Registo Civil de Sabugal – 1910”, folha 172v. O dito cemitério seria em Sortelha, então o único da freguesia.
5. Idem, Livro do Registo Civil de Sabugal – Óbitos de 1911, Assento n.º 602, de 20 de outubro.

Deixar uma resposta