Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (20)

Franklim Costa Braga - 1980 - Colaborador - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 20).

Mapa da ìndia

Mapa da ìndia

III – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 80

Verão de 1983 – Recomeçaram as grandes viagens

Viagem – Índia, Nepal e Tailândia, de 3 a 18 de Setembro de 1983
(organizada pela Agência Abreu)

1.ª PARTE

Esta foi a primeira de três viagens à Índia. Desta vez fui acompanhado mas, nas duas seguintes, fui sozinho. Desde os tempos da Faculdade que tive o sonho de visitar a Índia, influenciado pelo livro A Índia dos Marajás, que me havia oferecido o amigo Luís Filipe Tomás.

>> 3.9.1983 >> Saída de táxi para o aeroporto de Lisboa. Marcava 198$00 e levou 450$00. Fomos levados, com a desculpa das malas. A guia era a Fátima Ferreira (antiga hospedeira da Tap), que tivemos dificuldade em encontrar no aeroporto. Éramos 35 pessoas no grupo. Só conhecíamos os vizinhos do 2.º andar direito do nosso prédio. Grandes bichas para o chek-in. Saída do avião com atraso de uma hora para Frankfurt, onde chovia.

O avião da Lufthansa para Nova Delhi era enorme, com 3 classes. Viajámos ao lado dum sikh que bebeu Whisky e comeu carne de porco ao almoço. Para os sikhs não são proibidos a carne de porco e o álcool? O vinho era pago (3 marcos).

>> 4 a 6.9.1983 >> Chegámos a Nova Delhi com atraso de uma hora (05:50 horas). A diferença horária com Portugal é de quatro horas e meia. No aeroporto demoraram a deixar-nos sair, com passagem por vários polícias. Cheiro horrível e terrível calor húmido. Mas no autocarro que nos levou estava fresquinho, com os vidros mesmo embaciados. Chegámos ao hotel Taj Palace às 06:30 horas. Ficámos no quarto 562. Os primeiros contactos com a miséria surgiram nessa manhã: viam-se hindus a apanhar bostas de vaca logo de manhã, melros, gralhas, vacas, mulheres a abrir valas, varredores de cócoras, bairros de lata e autocarros sujos e cheios. À tarde assistimos a um espectáculo de danças, com guisos nos pés, toque de tambores em movimento, cântaros à cabeça e danças rapidíssimas deles com elas. Jantámos num restaurante típico: dois pedaços de carneiro (ou porco), dois de galinha, arroz, batatas, queijo e cenoura, molhos, picante e cerveja (8 rupias por pessoa, no total de 27 rupias pelo casal com a cerveja). Em Jaipur uma cerveja custava 30 rupias mais 10% de taxa = 33 rupias. À noite, numa grande avenida, viam-se centenas de homens carregando um colchão para apanhar lugar no passeio para aí dormirem.

A moeda da Índia é a rupia. 10 rupias = 1 dólar.

Kutab Minar - Capeia Arraiana

Kutab Minar

>> 5.9.1983 >> Estava um forte calor húmido, que fazia transpirar muito. Um rapaz do grupo, gordo, nem quis ir ao passeio. Ficou no hotel a gozar do ar condicionado. Para que gastou ele tanto dinheiro? Tivemos um guia em espanhol na visita ao monumento-manifestação contra os ingleses. Nele reconhece-se o Bapu, a mulher e um bispo. Visita ao palácio do Presidente, palácio de trabalho do 1.º ministro, Ministério das Finanças, Templo budista, Memorial a Gandi, Forte Vermelho, símbolo do passado mongol, do séc. XVII, estilo persa, trono da justiça; Mesquita Jama Masjid, do séc. XVII, com lugar para 25.000 pessoas, a maior da Índia e a 2.ª maior do mundo; Kutab Minar, feito de material de templos hindus destruídos, torre com cinco pisos (tinha mais dois que caíram no séc. XIV) e o célebre reservatório Jantar Mantar. Na Índia havia 4,5% sikhs; 7% cristãos; 65% hindus; 20% muçulmanos e 1% budistas.

Tarde de compras. Nas lojas ofereciam coca fresca. Apanhámos um táxi para regressar (uma caranguejola de moto = 4 rupias por pessoa).Como exemplo de preços, 1 rolo fotográfico custava 50 rupias. Tomámos banho na piscina. Parecia água aquecida. Jantar indiano à bruta.

Mesquita de Delhi - Capeia Arraiana

Mesquita de Delhi

>> 6.9.1983 >> Levantar às 05.00 horas da manhã. Partida para Jaipur, saindo do Estado de Delhi e entrando no de Ariana, Com guia local Udi e Gupta (um professor de Filosofia). Antes de entrar no Estado de Rajasthan, houve um engarrafamento monstro de camiões (com os deuses na frente ao alto e outros enfeites). Dois deles, carregados de bananas, tinham-se virado. Ninguém mexia uma palha. Havia umas tantas mulheres a carregar pedras nuns cestos à cabeça para deitar na berma da estrada, que serviria de pista para sair. Por aquele andar nunca mais sairíamos dali.

Forte Vermelho de Delhi - Capeia Arraiana

Forte Vermelho de Delhi

O Manuel António Torneiro, que era vereador na Câmara de Elvas, eterno pretendente a presidente, resolveu chefiar a operação, pedindo a um que recuasse, a outro que avançasse, a outro que encostasse à berma e assim o nosso autocarro conseguiu seguir o seu caminho.

Curiosidades: Há controlo de mercadorias e taxas entre cada Estado. Paisagem: milho e outras verduras, charcos, rios lamacentos (época das chuvas). Tudo plano. Perto de Amber começam pequenas montanhas.

Palácio dos Ventos em Jaipur

Palácio dos Ventos em Jaipur

Em Amber visitámos as muralhas a cavalo em elefantes. Os condutores até em cima dos elefantes fazem negócio. Comprei-lhes dois pica-elefantes por 35 rupias cada um. O condutor do meu elefante começou por pedir 80. Na Índia tudo tem de ser regateado. Fomos no elefante n.º 14 com os vizinhos Baptistas. Visitámos o palácio do marajá, com muitos mármores encrustados de pedras semi-preciosas e vidros. Estava desabitado. Um templo tinha uma porta de prata e figuras coloridas, que não podíamos fotografar. Uma grande sala tinha um abano enorme para refrescar o marajá quando dormia a sesta. Eram precisos dois ou mais criados para poderem puxar o abano. A área do palácio ocupava um décimo da cidade. Parte do Palácio era utilizado como museu para fugir aos impostos. Em baixo do monte havia um lago artificial com palácios.

Palácio e Forte de Amber

Palácio e Forte de Amber

Chegada a Jaipur – cidade pink –, fundada em 1727. Aqui ficámos no Hotel Clarks Amer. Almoçámos e fomos às compras. As ruas eram ladeadas por bancas de vendedores, muitas delas com doçaria. Havia moscas e abelhas por cima dos doces às dezenas, sem que os donos as enxotassem. Ali ninguém mexe uma palha. É a santa paz do indiano na posição de ioga. Vimos o Palácio dos Ventos, oco, todo rosa como quase todas as casas, com macacos por todo o lado.

>> 7.9.1983 >> Visita do Observatório astronómico em Jaipur (pur=cidade).Estrutura de casta e horóscopo são essenciais para o casamento. Daí o desenvolvimento da astronomia. Idioma=hindi e persa.

Partimos para Agra, passando por Fathepur Sikri, cidade deserta, cheia de Fortes e Mesquitas. O imperador Akbar, mogol, decidiu trasladar a capital para aqui por promessa de ter tido um sucessor. Só ficou ali durante 11 anos porque a falta de água obrigou-o a sair. Tinha várias mulheres, sendo a favorita uma portuguesa.

Curiosidades: A arquitectura mogol (ou mongol) teve as seguintes fases: 1.ª fase, pedra vermelha arenisca; 2.ª fase, mármore branco; 3.ª frase, mármore branco incrustado de pedras semipreciosas (como no Taj Mahal). Disseram-nos que os milhares das primitivas pedras preciosas do Taj Mahal haviam sido pilhadas pelos ingleses, que as substituíram por pedras falsas. De notar que a Índia foi ocupada pelos mogóis (mongóis) durante muito tempo. Chegámos a Agra já noite, onde ficámos no Hotel Clarks Shiraz, no quarto 316.

Forte de Agra

Forte de Agra

>> 8.9.1983 >> Visita de Agra banhada pelo rio Janurna. Visitámos o Forte Vermelho, do lado de cá do rio oposto ao Taj Mahal, em pedra vermelha arenisca, do séc. XVI, mandado construir por Akbar para poder ver em frente o túmulo da amada no Taj Mahal. Este palácio veio a servir de cárcere ao próprio imperador Akbar, cujo túmulo aí se encontra. A sala de recepção, em mármore, tem inscrições persas. Num jardinzito em frente vi esquilos com riscas verdes.

Taj Mahal

Taj Mahal

Visitámos o Taj Mahal do séc. XVII, com material trazido de 300 quilómetros de distância, mandado construir por Shan Jahan em memória de sua esposa favorita, Mumatz Mahal. Vinte mil pessoas trabalharam na sua construção. Incrustação de mármore sobre arenisco foi feita aqui pela 1.ª vez. O túmulo do arquitecto do Taj Mahal tem flores de papoila (ópio) porque ele fumava nos últimos tempos. Cada papoila é feita de 32 pedrinhas.

Na rua havia imensos miúdos e graúdos a trabalhar pedras para fazer colares com aparelhos toscos. Compraram-se 22 colares por 20 dólares, a meias com o Torneiro, e pulseira de marfim por 40 dólares. Regressámos ao hotel, onde comemos um farnel num banco do jardim. Veio uma grande trovoada.

Partida para Delhi pelas 13:30 horas. Estava tudo alagado. Paragem para umas bebidas junto de uns baloiços. Chegada a Delhi pelas 07:00 horas. Ficámos novamente no Taj Palace Hotel em Delhi. Visitámos o túmulo do Mahatma Gandi.

Banho rápido na piscina. Jantar no restaurante Esfadar do hotel-bife de búfalo grosso por 15 rupias. Assistimos a um casamento no hotel. O noivo chegou a cavalo e com músicos. A noiva estava no hotel à sua espera. Fomos vê-la à sala do restaurante.

Indo de Delhi para Amber, atravessámos uma região semidesértica. Almoçámos no caminho. O almoço preparado no hotel antes de sairmos era muito fraco e deu origem a protestos, sobretudo dum funcionário das Finanças. Eu não quis esse almoço. Comprei frutas e fiquei bem, a ponto de terem dito que eu é que tinha razão em não ter marcado almoço. Era a experiência de viagens a funcionar!

A Índia é fascinante mesmo com toda a sua miséria. A paz que as pessoas transmitem, sem pressa de chegarem seja onde for, a inexistência de violência, o estilo e filosofia de vida, os montões de gente que rezam nos templos em silêncio, as músicas de uma espécie de acordeão aí tocadas, as flores e grinaldas que oferecem aos deuses e aos turistas em colares colocados ao pescoço para darem as boas vindas, com um cheiro penetrante, o maravilhoso do exótico-encantadores de serpentes, elefantes como montadas, os faquires, o caos do trânsito, sem que haja acidentes, as vacas na rua, etc.

Por influência muçulmana, as classes dirigentes, como os marajás, podem ter várias mulheres.

Os muçulmanos eram 20% da população e os hindus 65%. Houve um ministro da Senhora Gandi que oferecia uma bicicleta aos homens que só tivessem dois filhos para controlar a natalidade. Segundo o guia Gupta ninguém ganhou uma bicicleta, mesmo sendo um objecto muito apreciado pela sua utilidade e pouco acessível a boa parte da população. Segundo ele, era difícil controlar a natalidade porque os hindus receavam que os muçulmanos se tornassem maioritários se eles não tivessem mais filhos. Os muçulmanos receavam perder quota percentual se diminuíssem o número de filhos.

Nota: Não tenho fotos da Índia. A minha ex deve tê-las levado com ela.

(Fim da Etapa 20.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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