Maio serenamente afável

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Temos, por ora, um maio de verde tingido que o tempo ainda não fez maduro. A janela desafia-me a espreitar a manhã quando já ultrapassa as sete e meia. O sol tanto enche a concavidade do vale quanto beija os píncaros da Serra.

Maio manteve-se quieto e ameno

A temperatura amena insinua-me caminhos que buscam o infinito e, por isso, difíceis de descrever.

Opto, então, por retrair o olhar perdendo-me em argumentos que vagueiam mais por perto, por dentro da cidade que ainda boceja na manhã primaveril.
Os meus olhos começam por vasculhar a rua sem achar frio nem calor. Descobrem, antes, sob a janela junto ao passeio, o Siba, um negro cão de guarda que, pressentindo-me, costuma latir um cumprimento.

Este meu amigo já viveu sucessões de auroras antes de se fazer velho. Recentemente, deixou de guardar casas e ruas para fitar as pessoas com os seus olhos ternos.

Esta manhã parece-me triste. Regressa, lentamente, à porta da sua casota e senta-se para observar o final do mês. Não consegue colher, dele, notável alegria e deixa transparecer, no seu olhar demorado, uma grande ansiedade. Parece perguntar ao tempo a razão de todas as velhices.

Como se de um humano se tratasse, adivinho-lhe a irrevogável saudade dos seus anos de juventude e dos sóis dos seus melhores dias.

Claro que lhe entendo a angústia. Percebo-lhe também a magia do faro e pergunto a mim próprio se o seu olfato conseguirá, alguma vez, fazer previsões de futuro.

Da janela, murmuro-lhe em jeito de segredo, que, apesar de maio, nem todas as vidas são melhores que a vida de cão.

Aviso feito, respiro fundo, espio o nada e passo a ruminar a sentença desferida.

Retorno, depois, à primavera que continua a esbanjar exuberâncias em rasgos de azul, lá onde o céu roça a torre do castelo, na parte mais alta da cidade.

E assim finda o mês pouco amadurado. Maio manteve-se quieto, ameno e silencioso enquanto, serena e afavelmente, foi vigiando o desenrolar dos seus próprios dias.
:: ::
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Deixar uma resposta