Facetas da vida

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Nasceu em Alcáçovas (Évora), no Alentejo interior, território que foi o celeiro de Portugal. Agora é de coutadas, dos homens com muito papel, algum dado pela banca sem critérios de avaliação, e também onde os nossos “invasores castelhanos” investem em olival intensivo, ajudando a acabar com uma espécie de aves raras, das verdadeiras. As outras “aves raras” estão bem protegidas de qualquer predador, se é que o há para essa classe.

O castigo era pancada sem dó nem piedade

É filho único de um médio agricultor, que pertenceu à classe média, também esta em vias de extinção: sabido é que cada vez há mais pobres e que os ricos se veem mais poderosos, sem que nada lhes aconteça.

Na cena familiar dessa época não se considerava um ser pobre, mas sim remediado, porque isto de viver da agricultura familiar é um caminho para alegremente se empobrecer.

Cresceu e na adolescência teve os seus períodos de rebeldia: juventude e santidade nunca fizeram uma boa parelha. O adolescente, cansado de levar pancada, por diversas vezes fugiu de casa. Chegou a andar dias sem ninguém saber do seu paradeiro. Quando o descobriram perto de Évora, o pai de castigo entregou-o à GNR, para que passasse um dia na prisão. “Nunca mais esqueci aquelas horas naquele espaço de fantasmas…”

Um dia em que o pai lhe queria bater novamente, disse-lhe: “se me bate é a última vez que o faz”. A partir dessa altura o progenitor nunca mais lhe bateu.

Os pais não aceitavam os momentos, e eram muitos, de insubmissão e o método “mais pedagógico” para a emenda era a violência, a pancada sem dó nem piedade. A mãe, que também ajudava “à festa”, em vez de apaziguar a ira do marido, ainda denunciava mais as malfeitorias do filho. O castigo era sempre pago a dobrar.

Na escola primária foi dos melhores alunos e no liceu de Évora obteve boas notas. Naqueles tempos, de uma forma genérica, o ensino era administrado com competência, rigor e disciplina.

Seguiu o curso superior de Engenharia na Academia Militar, terminando com a formatura de Obras Públicas.

Depressa foi mobilizado para a Índia, onde esteve ao serviço da Engenharia Militar. Regressou a Portugal poucos dias antes da Invasão daqueles territórios pelas Forças Armadas Indianas.

Todas as unidades de outros Ramos das Forças Armadas Portuguesas foram desprezadas, abandonadas, algumas castigadas por Salazar. A Unidade de Engenharia foi louvada.

As mobilizações não pararam e seguiu para Angola e Guiné. Aqui, com o posto de Major, por inerência do cargo de Segundo Comandante, e Presidente do Conselho Administrativo do Batalhão de Engenharia, conheceu um Governador e Comandante Chefe das Forças Armadas: o Homem do Óculo. Homem e militar prestigiado, competente, sabedor, impunha a todos os Comandantes a sua autoridade, às vezes em excesso.

O Segundo Comandante de Engenharia, no desempenho da sua missão, teve de tomar as mesmas medidas do outrora jovem rebelde. Não aceitava prazos impossíveis de cumprir e não baixava a coluna vertebral.

Acabada a última comissão militar, em 1972, regressou à vida civil e foi dirigir empresas de obras e de construções, porque estava farto e cansado de uma guerra a que ninguém punha fim, principalmente da parte do poder político.

Após o 25 de Abril, foram-lhe propostos diversos cargos que rejeitou completamente, não lhe davam a tranquilidade de espírito que tinha na sociedade civil.

Este Homem militar teve o pai acamado durante quinze anos, com imensas dificuldades sociais e económicas. Este filho, tantas vezes maltratado pelo pai, deu-lhe todo o apoio familiar, nunca o abandonando.

Durante este longo tempo, muitas foram as páginas escritas de amor por este filho a um pai que nem sempre soube perdoar as rebeldias naturais do seu filho, talvez fruto da vida dura de um agricultor.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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