Cemitérios e práticas funerárias (6)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: CALDEIRINHAS :: :: A preparação para morte e as práticas religiosas a ela associadas, antes e depois, assumiram caraterísticas próprias ao longo dos séculos. As comunidades adaptaram os seus comportamentos ao espaço geográfico e às condicionantes de cada época. Pretendo divulgar informações que encontrei nos Arquivos, bem como alguns costumes que, se não escrevermos, correm o risco de desaparecerem da memória dos povos desta região.

Capela das Caldeirinhas

Viver e morrer nas décadas de 1960 e 1970.

Nascer era bom, mas morrer um suplício!

Um sofrimento impiedoso para este povo!

Nas Caldeirinhas, nesses anos causava dor e susto! Os mortos eram transportados para Sortelha, para aí serem enterrados. Acomodado o defunto no caixão funerário, este era colocado sobre duas varas, suficientemente resistentes para aguentarem o respetivo peso, devidamente seguro/atado para ser levado aos ombros por quatro homens, como se de uma encomenda se tratasse. A distância, entre Caldeirinhas e Sortelha, é de cerca de três mil metros de subidas íngremes, caminhos feitos nas rochas, com muitas pedras e areia. Era um trabalho que muitos homens, principalmente os mais jovens, tinham de sofrer para que tão piedoso e custoso ato fosse levado a efeito e a pessoa morta ficasse em paz, no seu lugar eterno.

Aconteceu algumas vezes o morto ser transportado em carros de bois. Neste caso, a viagem fazia-se pela quinta dos Vieiros, Azenha e finalmente Sortelha, perfazendo mais de 7 quilómetros. A população acompanhava a pé ou de burro. De vez em quando paravam, para descansarem os animais e as pessoas, mas também para se dedicarem mais algumas orações.

Caldeirinhas, no Google Maps – acedido em 07-05-2019

Nos quatro domingos seguintes realizavam-se os acompanhamentos. O povo e amigos prestavam-lhe homenagem. Acompanhavam a família nas orações, desde a sua casa até à Igreja Matriz, em Sortelha. Após a missa regressavam, rezavam o terço e faziam novamente as suas rezas. Normalmente a família disponibilizava pão e queijo, ou o que houvesse, bem como um copo de vinho ou água, para os acompanhantes.

O cemitério e a capela só foram construídos cerca de 1980.
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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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PS:
A construção deste texto teve a colaboração do Sr. Alfredo Correia e família.

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