Hoje falamos do futuro

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Aproveitando as vésperas das Eleições Europeias, entendi falar um pouco do futuro. Não vou reiterar as visitas às feiras, os beijinhos às senhoras ou as inaugurações das fábricas de enchidos. Embora seja importante esta súbita aproximação dos políticos à população, vou, no entanto, falar um pouco sobre o futuro do planeta, onde obviamente, a Europa ainda tem um importante papel. Assisti faz umas semanas uma interessante conversa com um antigo ministro dos negócios estrangeiros dinamarquês, Mogens Lykketoft, que sempre foi uma pessoa preocupada com a sustentabilidade. Não pensem que tenho o seu telemóvel. A conversa foi pública e através de uma «webinar», ou seja, uma reunião através da internet.

Metas globais para o desenvolvimento sustentado - Capeia Arraiana

Metas globais para o desenvolvimento sustentado

As nações unidas, desde 1987, têm vindo progressivamente a implementar programas no contexto ambiental, sendo na altura a figura central o primeiro ministro da Noruega, o Sr. Gro Harlem Brundtland, que deu o «pontapé de saída» para nos preocuparmos com o futuro, o futuro de todos nós.

Ficando conhecido pelo Relatório Brundtland, denominado originalmente por «Our Common Future», são realçados dois vetores essenciais. O primeiro é que não devemos, de todo, comprometer os recursos das futuras gerações, nomeadamente dos nosso filhos e netos, condicionando os seus padrões de vida. O outro prende-se com o conceito de sustentabilidade. A sustentabilidade para além de económica deve incluir também os aspetos sociais e ambientais. Isto porque, na verdade, os recursos são limitados.

Felizmente esta notável ação tem vindo a crescer na comunidade internacional, e em 2015, 193 governos assumiram o compromisso da Agenda de 2030, para o Desenvolvimento Sustentável, onde basicamente foram definidas as linhas mestras de como gerir os limitados recursos, para uma população expectável de 9 ou 10 biliões de pessoas.

Surgem então os 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável, conhecidos pelos 17 SDGs, sendo considerados uma visão de como pretendemos partilhar os recursos da Terra no contexto de tanta gente, tendo ficado escrito, que toda a gente terá o direito fundamental de ter acesso ao desenvolvimento. Obviamente que este «desenvolvimento» seguramente baseia-se mais no equilíbrio e não tanto no atual desequilíbrio que vemos entre ricos e pobres, obviamente estando-me a referir no sentido lato.

Dentro desta panóplia de 17 objetivos cada um tendencialmente considera um ou outro mais importante. Pessoalmente acho que a luta contra a pobreza extrema o central, mas há quem defenda, como o palestrante dinamarquês, que sejam as alterações climáticas. O certo é que estes 17 SDG’s estão interligados e sem dúvida que reconheço que o trabalho foi meritório, pese embora existirem críticas daqui ou dali, porque Graças a Deus, ainda vivemos numa sociedade livre.

O facto é que não se pode esquecer que os recursos são limitados e convém, reconhecendo desde já a dificuldade, em ir distribuindo globalmente estes recursos de uma maneira mais igualitária. O inacreditável é que 193 governos, ricos e pobres, assinaram este compromisso, designando por Agenda Global e prevalecendo conceitos como sustentabilidade social, económica e ambiental.

Muitos já pensam no Trump, ou na China, ou na Coreia do Norte ou nas Ilhas Caimão. No entanto este compromisso é aberto à sociedade civil, e nos países democráticos, como é o caso americano, muitas comunidades e estados, vão pressionando o governo federal por standards que pressionem as tecnologias e produtos que se enquadrem nesta Agenda. Existem inclusivamente grandes empresas que estão globalmente a colaborar neste rumo, contribuindo para o cumprimento destes objetivos, mesmo que parcialmente.

Mogens Lykketoft, antigo ministro dos negócios estrangeiros dinamarquês - Capeia Arraiana

Mogens Lykketoft, antigo ministro dos negócios estrangeiros dinamarquês

Sabe-se de alguma resistência dos governos, mas, segundo este dinamarquês, os sinais têm sido positivos. Deu inclusivamente alguns exemplos de comunidades locais, um pouco por todo o mundo, que ainda foram mais longe no cumprimento dos objetivos. E através das políticas locais os governos regionais, ou centrais, acabam por ter de ir cedendo porque sem dúvida vive-se uma sociedade global onde a informação tem um peso significativo.

Obviamente que fiquei agradavelmente surpreendido com este «webinar». Na realidade nunca tinha pensado num futuro sem fadas, padrinhos e casamentos felizes. Mas interiorizando o nosso Interior Beirão, até talvez não sejam assim tão negras as perspetivas. Tem de haver espaço para dar abrigo a tanta gente, é preciso desenvolver praticas agrícolas que alimentem todas estas bocas e pensar um pouco numa estratégia que se enquadre nestes objetivos.

Sinceramente não me parece difícil. Haja vontade. Das comunidades locais, obviamente!

Covilhã (UBI), 17 de maio de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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