Cemitérios e práticas funerárias (5)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: SORTELHA :: :: A preparação para morte e as práticas religiosas a ela associadas, antes e depois, assumiram caraterísticas próprias ao longo dos séculos. As comunidades adaptaram os seus comportamentos ao espaço geográfico e às condicionantes de cada época. Pretendo divulgar informações que encontrei nos Arquivos, bem como alguns costumes que, se não escrevermos, correm o risco de desaparecerem da memória dos povos desta região.

Igreja de Nossa Senhora das Neves, Sortelha – é provável que o adro (lado sul) tenha servido de cemitério

Óbito do Reverendo Diogo Luís em 1608:

Tendo em conta os assentos de óbito, na primeira metade do século XVII, apenas devia existir uma igreja na freguesia, pois os registos referem: “sepultado dentro da igreja”, não especificando qual.

Testamento do Padre Manoel Martins:

Curioso o facto de ser sepultado em covagem da Fábrica e não em local privilegiado!
Assinale-se a importância de alguns bens, como uma camisa ou vestido, que hoje lançaríamos no caixote do lixo!

O Cemitério:
O primeiro registo que encontrei como sendo sepultado no cemitério de Sortelha é de 1850:
«Aos dezanove dias do mês de Novembro de mil oitocentos e cincoenta faleceo o exposto em que se trata o termo supra, foi sepultado no cemitério desta villa eu Mendo José de Carvalho Escrivão da Câmara o escrevi. Mendo José de Carvalho.»(3)

Poderíamos estar perante a primeira pessoa a ser sepultada no Cemitério de Sortelha! Porém, a realidade é que o mesmo não devia existir!

Nos registos de óbito da paróquia de Sortelha, da segunda metade do século XIX, aparece a expressão: “sepultado no cemitério público”. Daqui pode deduzir-se que, em toda a freguesia, existia apenas um cemitério! Na Quarta Feira, por exemplo, seria o adro da capela de Nossa Senhora do Desterro! Foi aí que funcionou durante muitas décadas. Recordo que parte da minha infância foi vivida nessa aldeia, tendo ouvido diversas vezes conversas situando a construção do atual em meados do século XX.

Os defuntos, de todas as anexas, eram transportados para o cemitério de Sortelha. Este só foi construído depois da extinção do concelho, em 1855. Assim, durante algum tempo, essa expressão devia significar «adro» da Igreja de Nossa Senhora das Neves.

Seguem-se alguns exemplos:
1.

2.

3.

4.

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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1. Nacional da Torre do Tombo: Paróquia de Sortelha, Livro de Registos Mistos, em:
PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M1_m0084.tif
2. Arquivo Nacional da Torre do Tombo: Paróquia de Sortelha, Livro de Registos Mistos, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M4_m0161.tif
3. Arquivo Distrital da Guarda; Caixa 001, Livro de Matrícula dos Expostos 1851-1855, folha 3v.
5. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Sortelha -Livros de Registos Mistos, em:
PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M4_m0159.tif
6. Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M4_m0163.tif
7. Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M4_m0162.tif
8. Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG33-004-M4_m0164.tif

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