O Homem que sabia demais!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Hoje voltamos a entrar num misto de realidade e ficção. Quando sabemos demais sobre um assunto o que fazemos? Guardamos o segredo ou partilhamos? Sem dúvida que mais uma vez o bom senso impera. Há sempre matérias sensíveis que não devemos divulgar. Sei que para um honesto lhe custa, mas por vezes há que pensar num mundo mais global e «engolir o sapo» porque, na realidade, não nos leva a lado nenhum. A não ser dormimos descansados, obviamente!

O Homem que sabia demais, filme de Alfred Hitchcock com James Stewart e Doris Day - Capeia Arraiana

«O homem que sabia demais», filme de Alfred Hitchcock com James Stewart e Doris Day

Não pensem que este título é original, nada disso. Alfred Hitchcock, em 1956, realizou um filme sobre este tema. Obviamente que neste caso foi um problema que acabou por se resolver. Curiosamente como tudo na vida. Só mesmo a morte, por enquanto, é que não tem solução.

Encontrando um amigo na rua, sentiu necessidade em desabafar. Os humanos, as organizações, as famílias sem dúvida que não são perfeitos aos nossos olhos. E neste contexto, este meu amigo entendeu desabafar. Sabia de «coisas» confidenciais, mas não aguentava a pressão. A consciência pesava-lhe e achava que deveria «abrir o jogo» a quem de direito.

Fiquei um pouco pensativo. A irregularidade nem sempre é ilegalidade. Mas o facto é que não sou investigador para discernir a diferença. Fui ouvindo atentamente e efetivamente preferi não comentar pedindo-lhe um tempo para pensar. O facto de um homem saber demais, pode ser prejudicial para a sua sobrevivência. E a gestão dessa informação deve ser cautelosa.

Ao contrário do filme de Hitchcock, podem surgir ecos de contra informação, que vão intimidando o alvo. Efetivamente às vezes é preferível não saber, mas nem sempre estamos no local e hora certa.

Alguns de nós devemo-nos lembrar dos «Bufos da Pide» que muitas vezes, sem fundamento, atiçavam inocentes para as cadeias. Ou mesmo até nos designados mistérios da Inquisição, onde sem meios de investigação e prova, foram queimados, e queimadas, pessoas inocentes.

O facto é que nem sempre vale a pena contarmos o que sabemos. É uma prova de bom senso, que preserva a nossa inocência e a de outros. O gigante da justiça é um campo de batalha onde teoricamente há imparcialidade perante factos e argumentos. Mas não deixa de ser um dirimir de forças onde o mais «forte» vence o mais «fraco».

Antes de o voltar a ver dei muitas voltas na cabeça. O tão desejado equilíbrio sem dúvida que era muito difícil de o alcançar: a nossa consciência perante factos que nos incomodavam. A decisão sem dúvida que era complexa e de risco elevado.

Nos países do Norte da Europa, que tenho referido várias vezes, existe uma rotatividade constante nos cargos e responsabilidades que evitam, ou minimizam, situações que levam a alguém saber de mais.

Tendo esta reflexão não foi difícil dar-lhe a minha opinião.

Sem dúvida que o preço a pagar não passava de uma aposta. E convém ter a noção de que quando se aposta, nem sempre se ganha. E o curioso, ou bizarro, é que mesmo apostando e abrindo as portas da transparência, quem vem a ganhar é, de facto, quem menos esperamos!

Como diz o povo e bem: «É a vida!»

Covilhã, 06 de maio de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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