Desencontros de Cinema

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Lá ia eu na carroça puxada pela minha mula, Ambrósia, a caminho do Fundão buscar farinha para fazer o pão. Porém, quando chego à Moagem, sou surpreendido por algo que não imaginava. Ao entrar no escritório uma linda senhora pega na minha mão e transporta-me para uma sala repleta de gente. Disse-me baixinho para ficar quieto e calado, acabando por me esquecer da pobre da mula e do motivo de tão nobre viagem. Começo a observar com algum receio quem seria aquela gente. E para meu espanto vejo netos de amigos meus já crescidos, e alguns anafados, com cabelos brancos ou compridos, falando para multidões sobre algo impensável. Aqueles livros estavam escondidos na biblioteca lá de casa ao pé das Poesias Eróticas e Burlescas do Bocage, ou dos livros com as famosas mulheres de Balzac.

Desencontros de Cinema no Fundão - Capeia Arraiana

Desencontros de Cinema no Fundão

Uma manhã inesquecível. Um trabalho notável. Um esforço impagável. A cultura é a melhor terapia para entrarmos no nosso ser. Põe-nos a pensar e dá-nos coragem para opinar, repito, opinar.
O tema era sobre mais um daqueles autores que conheceu a fama nas portas da morte: Charles Bukoswski. Creio que lá em casa os seus livros escondidos no alçapão da biblioteca só se justificam por ser um judeu, à semelhança dos meus antepassados. Mas o facto é que é impossível ficar indiferente aos seus textos, seja em prosa ou escrita, ou prosa poética, se assim posso dizer.

Vou ouvindo atentamente as palavras do auditório. Também lá estava o filho do alfaiate, bem mais velho de quando o conheci. Todo apinocado falava como uma orquestra bem afinada, onde o calão das rimas do Bukoswski nem pareciam notas fora de contexto.

Mas o meu espanto é que alguém teve a coragem de traduzir para a nossa madre língua a javardice intempestiva de um ser tão enigmático como Charles Bukoswki. E coincidência, ou não, escolheu a idade de Jesus Cristo para os poemas que agora, nós lusitanos, podemos ler sem a cábula do Google Tradutor: «33 poemas de Bukoswski.»

Hugo, mais conhecido por HMS Pereira. Tal como o navio «Pereira» de Sua Majestade (Her Majesty Ship) transporta-nos numa viagem pelo mar tranquilo e sereno onde por vezes a brisa nos refresca com palavras inesperadas. Mesmo não sabendo o rumo, o Hugo, comanda e navega sempre à mesma velocidade, mas não nos deixando dormir.

HMS Pereira

HMS Pereira

Às vezes apetece-me fechar os olhos, mas as palavras do Hugo são como o mar que espraia na areia da costa, transportando-nos para o imaginário de Bukoswki. O engraçado da sessão, ou talvez o mérito do autor, foi conseguir transformar um tornado numa brisa que tanto satisfez o público.

Durante a tertúlia, que tanta falta faz nos nossos dias, fixo bem o olhar neste «comandante» da escrita. Imagino-o a dar ordens à tripulação em tom monocórdico, ou então a desabafar para o telemóvel, num convento, ou sala de aula, sobre as «maleitas» da vida. Sem dúvida que a sua expressão de sorriso «Mona Lisa» daria um bom autor de selfies. Quem sabe!

Um dos poemas que mais me fascinou foi a «cerveja». Não que seja apreciador, como beirão continuo a gostar mais do vinho tinto das nossas encostas, mas porque me transportou à juventude, com a irreverencia da idade e as noites de tertúlia na cervejaria Reno, onde ainda todos nós estávamos neste mundo dos mortais. E tal como Bukowski, as mulheres, bem ausentes nesses tempos, criavam-nos um imaginário muito semelhante. Certo é que os rins funcionavam toda a noite, pensando cada um de nós como seria se em vez da cervejada tivéssemos pegado no telefone (ainda de disco) e falado com a amada imaginária que por acaso nos cruzávamos nos corredores do liceu, ou com muita sorte, na missa de domingo.

Bukowski toca-nos com o seu dedo na ferida. E, rindo ou nem tanto, fala muito sério. A sua escrita, pode ser considerada um atentado aos bons costumes da nação e da moral. Mas se nos dermos ao trabalho de refletir, aprofundar e até mergulhar na sua mensagem, vemos que como coisas banais, que não queremos ver, nos podem a ajudar a ter uma vida bem melhor. Basta rasgar o preconceito!

Parabéns à organização destes encontros. Basta apenas ter a coragem de continuar!

Fundão, 28 de abril de 2019

:: ::
«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to Desencontros de Cinema

  1. António Alves Fernandes diz:

    Caro Alçada, apreciei como sempre a tua crónica. Falas da Cervejaria Reno, situada na emblemática Praça do Bocage em Setúbal, onde entre outros petiscos se saboreavam as melhores ostra do Rio Sado, que agora vão para França. Eram acompanhadas pelas “loiras”, garrafas de cerveja.
    Fechou para abrir uma agência bancária, mas com a “chamada crise bancária”, faz-me rir às gargalhadas, também fechou, e o edifício onde a malta se divertia com gastronomias e não só, está fechado, está entabuado. É o destino de alguns lugares históricos.

Deixar uma resposta