Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (17)

Franklim Costa Braga - Colaborador - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 17).

Mapa do Reino Unido de Franklim - Capeia Arraiana

Mapa do Reino Unido de Franklim

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 70

1975

Terminei o Curso de Finanças em 3 de Dezembro de 1974, não sem que tivesse alguns problemas burocráticos. Como militar, fiz alguns exames fora de época. Assim, consegui fazer o curso de 5 anos em 4. Depois de ter acabado, fui chamado à secretaria, onde me disseram que não podia ter feito determinado exame sem ter feito outro primeiro. O problema era deles, que não me informaram disso e me deixaram inscrever no exame. Não sabiam como resolver o assunto. Tive de fazer um requerimento ao Sr. Ministro da Educação. Este deferiu o meu pedido dizendo que, se estava feito, feito estava. E foi-me passado o diploma. As matemáticas foram as disciplinas onde tive mais dificuldades, já que entrei no curso apenas com o 5.º ano do Liceu em Matemática. Como já era licenciado em Filologia Românica, não precisei de fazer o 7.º ano. Provei que, com trabalho e força de vontade tudo conseguia. Saí com média de 14 valores (ver certidão).

Diploma de Finanças do Franklim - Capeia Arraiana

Diploma de Finanças do Franklim

Saí da tropa em 10 de Janeiro de 1975. Fui apresentar-me no Liceu da Amadora, onde havia sido colocado em novo concurso enquanto estive na tropa. Fiquei mal impressionado quando entrei na sala dos professores e ouvi de colegas bem mais velhos que tinham sido os alunos da noite a ditar as notas que queriam no fim do primeiro período. Isto é, ninguém teve negativa. Jurei a mim mesmo que não permitiria tal coisa comigo.

Na primeira aula deparei com uma sala com a porta escavacada, cadeiras sem espaldar e as mesas postas em roda.

Mal entrei, fiz a chamada e mandei colocar os alunos nos seus lugares, com as mesas arrumadas em fila normal. Foi um choque para os alunos, que estavam habituados à bandalheira. E entraram na linha. No fim do segundo período dei apenas umas três ou quatro notas positivas.

Como professor da disciplina de Português, era o primeiro a dar a nota, não sendo, portanto, influenciado pelas notas dos outros colegas. Eu digo colegas, mas com uma certo desprezo, porque de professores alguns não tinham nada. Lembro-me do professor de História, um tal advogado, que viria a ser conhecido como alto dirigente de um partido extremista. Quando chegava a vez de ele dar a nota, procurava na caderneta, remexia papéis e, não encontrando o nome desse aluno, atirava: 14 valores. Fez isso com todos os alunos.

Os meus alunos vieram de férias mansinhos.

Isto contrastava com o que acontecia com uma colega de grupo, de apelido Falcão. Mal entrava na sala, levantavam-se todos e, em sentido, gritavam: «Atenção! O Falcão ataca!»

Claro que a senhora não aguentou e meteu baixa por largo tempo.

Os militares tinham direito a prestar provas de exame fora da época normal. Nesse ano, o Ministro da Educação, major Víctor Alves, permitiu que também pudessem prestar provas outros alunos nocturnos não militares. Fui escolhido para ver as provas de Português. Pois,pasmem, encontrei duas redacções exactamente iguais, coisa impensável e nunca vista. Nem se deram ao trabalho de mudar alguma palavra ou frase.

Ninguém teve nota para ir à prova oral. Isso pensava eu. Eis senão quando, passados dias o Sr. Santos, natural da zona de Penamacor, chefe da secretaria, pediu-me que fosse à secretaria e comunicou-me que o Sr. Ministro da Educação havia permitido que, nesse ano, poderiam ir à prova oral com 6 valores na prova escrita. Fiquei de boca aberta e pensando para comigo: por que estive eu com tanto esmero e trabalho a ver as provas escritas?!

Vá, lá! Conseguiram fazer-me o jeito de chumbar os dois que haviam copiado a redacção!

Mesmo assim, foi-lhes permitido fazer nova prova uns tempos depois, coisa que era contra todas as leis: Quem copiasse não poderia voltar a fazer provas nesse ano.

No fim do ano lá recuperaram alguns para poderem passar, mas chumbaram mais de metade em todas as minhas turmas. Passei a ser a fera.

Fui premiado com a nomeação para orientar o estágio do 2.º grupo (disciplina de Português nesse mesmo Liceu no ano lectivo de 1975/1976, por ofício n.º 4426 do Ministério de Educação e Investigação Científica-Serviços de Estágio Pedagógico, de 21.10.75). Rejeitei.

Felizmente, saí depressa daquela bandalheira, pois concorri em Outubro seguinte ao Liceu Camões, onde fiquei durante vinte e oito anos e meio, até Maio de 2005.

Verão de 1975

Viagem de 11 dias ao Reino Unido, de 25 de Agosto a 4 de Setembro de 1975 (Verão quente com o general Vasco Gonçalves como 1.º Ministro).

Em 1974/75 era necessário registar no passaporte a compra de divisas. Em 13 de Agosto de 1975 o BPA vendeu-me 935 D.M. com o contravalor de 9.957$80 e 1.580 FR.franceses, com o contravalor de 9.954$50. Não sei por que não comprei libras. Não haveria?

Fui nesta viagem com minha mulher, meu irmão e cunhada. Não conhecíamos ninguém do resto do grupo que se inscrevera na viagem programada pela Agência Abreu.

Saímos do aeroporto de Lisboa em 25 de Agosto de 1975, rumo a Londres (Heathrow). Almoço a bordo. Chegada a Londres pelas 17:00 horas. Ficámos alojados no Hotel Carlyle, de categoria turística superior, com 150 quartos.

Resto da tarde livre. Visitámos ainda um castro romano.

Render da guarda em frente ao palácio da rainha

Render da guarda em frente ao palácio da rainha

26.8.75 – Pequeno almoço e visita à cidade com guia local brasileira: Oxford Street, Marble Arch, Hyde Park, Monumento ao Príncipe Alberto, panorâmica do Palácio do Parlamento, margem sul do rio Tamisa, Abadia de Westminster, Withehall, Praça de Trafalgar, arco do Almirantado, Palácio de Buckingham com assistência ao render da guarda, Hyde Park Corner, Piccadilly. Tarde livre. Andámos de Metro de aspecto velho em relação ao de Paris.

Londres - Capeia Arraiana

Londres

27.8 – Viajámos de Londres para Hertford-Cambridge-Lincoln e York. Partida em autopullman para o circuito da Escócia com guia da Abreu, por Barnet, Hattfield, Hertford e Cambridge. Panorâmica de Cambridge, com visita a um dos seus colégios. Lembro-me de termos conversado com um senhor na rua frente ao colégio e, perante a sua amabilidade, esquecemos a ideia do inglês altivo e pouco dado a conversas. Continuação por Stamford. Almoço no caminho, em restaurante junto à auto-estrada, servido por meninas em biquini. Continuação para Lincoln com visita da catedral. Continuação por Selby e York. Aqui ficámos no hotel Vicking, no quarto 807. Visitámos a sua bonita catedral.

King's College de Cambridge

King’s College de Cambridge

28.8 – Continuámos pela Grande Estrada do Norte através de Durham e Newcastle – Upon-Tyne, Morphet, Wooler. A fronteira da Escócia foi entre Cornhill e Coldstream. Almoço no caminho. Continuação pelas terras Baixas da Escócia, por Lauder e Dalkeith até Edimburgo. Em Edimburgo ficámos instalados no Hotel George.

Ainda deu tempo para visitar Edimburgo: monumento a Scott, famosa Princesa Street, que foi a capital da moda, o castelo, o Parque e a Universidade. Tempo livre e jantar no hotel. No fim do jantar, a filha mais velha do Sr. Fonseca tocou piano. Ainda assistimos a um espectáculo de Tatoo no Castelo.

Castelo de Edimburgo

Castelo de Edimburgo

29.8 – Saímos de Edimburg para Carlisle-Patterdale-Windermere-Buxton. Saímos pelas Colinas de Pentland por Biggard, Crawford, Moffat e Lokerbie para Gretna Green (a cidade dos noivos fugitivos), Carlisle, Ullswater, Patterdale, Windermere (o coração dos lagos). Almoço pelo caminho. Depois seguimos para Kendal, Knustford e Buxton. Em Buxton ficámos no hotel Palace.

30.8 – Saímos de Buxton para Coventry-Warwick-Stratford-Oxford-Londres.

Cottage de Ana Hatwey em Stratford upon Avon

Cottage de Ana Hatwey em Stratford upon Avon

Regressámos a Londres pelo centro da Inglaterra, atravessando Leek, Cheadle, Uttoxeter, Burlogy-upon-Trent, Atherstone, Coventry, Stratford-upon-Avon, a terra de Shakespeare e Anne Hathaway, com as suas casas de madeira, e Oxford. Almoço no caminho. Chegada a Londres. Regressámos ao Hotel Carlyle.

Jóias da Coroa guardadas na Torre de Londres

Jóias da Coroa guardadas na Torre de Londres

Jóias da Coroa guardadas na Torre de Londres

Jóias da Coroa guardadas na Torre de Londres

31.8 – Dia inteiro livre. Fomos ao Hyde Park, onde grupos de ingleses cantavam. Com meu irmão, entoámos algumas canções, como Perón Pompero, etc., que não agradaram aos ingleses presentes. Visitámos a Torre de Londres com as jóias da coroa e St. Paul’s Cathedral.

1.9 – Dia livre. De manhã fomos a Porto Bello Road (local onde se realiza uma como a nossa Feira da Ladra). De tarde visitámos a City, obelisco (o monumento) que comemora o grande incêndio de Londres em 1666, Praça Trafalgar.

2.9 – Visita do Soho de Londres e do Museu de Madame Tussaud. Este museu de figuras de cera foi fundado em 1770 em Paris e transferiu-se para Londres. A representação da batalha de Trafalgar em cera é fantástica e digna de ser vista.

3.9 – Dia livre. Demos umas voltas por Londres. Lembro-me de ter ido com meu irmão tomar uma cerveja a um pequeno bar. Tínhamos ouvido falar tanto da cerveja inglesa que pedimos uma caneca de beer. Era intragável. Contámos isso no hotel a um empregado brasileiro. Este ensinou-nos que cerveja com álcool era a stout. Bebemos uma no hotel e esta sim era uma boa cerveja.

4.9.75 – Partida em avião para Lisboa, com chegada cerca das 14:00 horas.

Outubro de 75

Fiquei colocado no Liceu Camões, onde permaneci até à aposentação em Maio de 2005, embora acumulando com a Escola Patrício Prazeres e depois como ROC. Soube por colegas que aí se tinha passado o ano lectivo de 1974/75 a analisar as poesias de Samora Machel na disciplina de Português por parte dos revolucionários.

Desde que fui para lá não houve mais disso. Apenas continuava a mania de os alunos pretenderem assistir às reuniões de notas, apoiados pela cambada revolucionária. Isso motivou que o Dr. Virgílio Ferreira deixasse de ir às reuniões. Às minhas reuniões nunca os alunos assistiram.

No entanto, vou contar dois episódios passados já em 76.

Eu era director duma turma do 5.º ano. Já quase no fim do ano lectivo acompanhei os alunos, juntamente com a professora de Geografia, numa viagem de estudo, seguindo a rota de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. Almoçámos algures no campo, debaixo dumas árvores. Os moços jogavam à bola e eu joguei com eles. Às tantas, o 29 (eu tinha dificuldade em fixar nomes e, por isso, tratava os alunos pelos seus números) lembrou-se de atirar com esta, dirigindo-se à professora de Geografia:
– Ó Sôtora, na sua aula é que é uma bandalheira!

A professora ficou corada e o 29 percebeu que tinha dito algo incorrecto.

Na aula seguinte pus os alunos à vontade para falarem, e perguntei ao 29 por que dissera aquilo na viagem. Respondeu-me, corroborado pelos outros da turma:
– Só na sua aula é que estamos quietinhos. No resto, ou em quase todo o resto, é uma bandalheira. Nas aulas de Matemática o professor lê pelo livro e nós até saímos pela janela.

Aconselhei-os a respeitarem a professora de Geografia, ainda nova e falei com o professor de Matemática, um tal Tengarrinha que ainda frequentava o Instituto Superior Técnico. Perguntei-lhe se era verdade o que os alunos me tinham dito e, com humildade, reconheceu essa versão dos alunos. Perguntei-lhe se queria que eu assistisse a alguma aula dele para pôr os alunos em respeito. Respondeu-me que, uma vez que já estávamos no fim do ano, não valia a pena. Aconselhei-o a que preparasse uns tantos exercícios em casa e os ensinasse na aula.

Que fazia este e outros pseudo-professores para não serem contestados? Davam notas altas aos alunos e estes calavam-se.

(Fim da Etapa 17.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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