1971-74 – Os Anos da Tropa (31)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Esta série de crónicas sobre a minha tropa (38 meses e 11 dias) termina hoje, com um simples relato dos pontos altos de cada um dos seus vários ciclos. Não gosto de dramatizar. Já passou tudo. Recordar para memória futura – e nada mais. Espero que tenham gostado de me ler.

Curva da Morte, a poucos quilómetros do quartel do Bata Sano - Capeia Arraiana

Curva da Morte a poucos quilómetros do quartel do Bata Sano

Tinha 23 anos. A hipótese de termos de ir para a guerra lixava-nos a vida.

Um dia, entre a Faculdade de Direito e as aulitas que dava no Externato Álvares Cabal, chegou a «mobilização»: no dia seguinte estava já em Mafra:
– Nosso Cadete Mendes, para cá! – Nosso Cadete Mendes, para lá!…

Antes da tropa, em todo o lado, o meu nome era apenas duas palavras – e assim voltou a ser depois daqueles malditos 38 meses: Zé Carlos. Mas na tropa o meu nome não era esse, não, senhores: era Mendes. Mendes. Que estranho.

Em Mafra foi logo a «puxar», a doer… Todo o dia na Tapada a subir «montes» e a descer «vales», a subir troncos de árvores e a treinar nos aparelhos militares de ginástica forçada.

Depois de Mafra, Santarém: no dia seguinte, apresentação em Santarém. Escola Prática de Cavalaria. Uma escola do diabo, meus amigos! Foram 12 horas em Santarém – e bastou!

Lamego. Operações Especiais / Rangers - Capeia Arraiana

Lamego – Operações Especiais – Rangers

Depois: Lamego. Operações Especiais / Rangers. Uma loucura de instrução. Onze operações muito duras, a última das quais se chamava mesmo «Dureza 11».

Em 3 linhas, fica tudo dito:
– Granada para acordar – «Sai granada!!»;

«– Têm dois minutos para tomar banho e vestir a farda n.º 3 e formar na parada. Dois minutos. Tá a andar!» – isto, aos berros, claro.

A pior de todas as Operações Especiais: a Dureza 11. São alguns «dias dramáticos. É uma prova de resistência e de dureza; de resistência à fome, à sede, ao sono e ao frio; de dureza pelos exercícios que nela decorrem. É um tempo sem lógica para nós, onde tudo nos espera e tudo pode acontecer (…)».

Seguiu-se um IAO de oito meses à espera de avião, no RI 1 (Amadora).

Aterragem em Luanda.

Corveta da Marinha para Cabinda.

Floresta Virgem do Maiombe - Cabinda - Angola

Floresta Virgem do Maiombe – Cabinda – Angola

Chegada ao Maiombe, a Floresta Virgem.

Uns dias antes, três militares tinham sido chacinados na Curva da Morte, a poucos quilómetros do quartel do Bata Sano, onde vou passar os próximos 25 meses… Primeiras imagens péssimas, primeiras emoções sem limite. Primeiros dias em «operação». Primeiras entradas na mata.

Quartel do Chimbete – Capeia Arraiana

Deslocações às terras da morte: Chimbete (de má memória) e Sangamongo (mais perto ainda da fronteira do Congo Brazzaville).

24 meses no meio da Floresta Virgem do Maiombe já seriam marca suficiente. Com arma na mão, mais ainda. No meio de uma guerra colonial – pior ainda.

Com a guerra, os humanos estragam este paraíso dos elefantes - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Com a guerra, os humanos estragam este paraíso dos elefantes

Mas nem tudo é guerra por aquelas terras. Impossível esquecer coisas como:
– os elefantes,
– os gorilas,
– a surucucu,
– a gibóia.

Imagens loucas para o resto da vida. Cenários inesquecíveis por mais que eu viva…

Revolução dos Cravos - 25 de Abril de 1974

Revolução dos Cravos – 25 de Abril de 1974

Depois, o 25 de Abril, que festejámos a 26.

Ataque inesperado ao Bata Sano, por causa de ordem errada de Luanda.

Fim da comissão. Ida para Luanda. Avião para Lisboa. Aterragem em Lisboa no dia 2 de Outubro de 74.

Uma semana depois: nova vida. Festejar Abril todos os dias e ajudar a construir os Municípios de Oeiras e da Amadora. Uma honra – também inesquecível até hoje e para sempre.

Nota:
Sem vaidade digo que a crónica que escrevi há sete anos aqui no «Capeia» deve ter sido das que mais leituras e comentários tiveram… Chamei-lhe assim: «Do Casteleiro a Buco Zau (1971-74)». Pode lê-la ou relê-la… (Aqui.)

(Fim.)

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