Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (16)

Franklim Costa Braga - Colaborador - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 16).

Escola Prática de Infantaria de Mafra - Capeia Arraiana

Escola Prática de Infantaria de Mafra (Foto: D.R.)

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 70

1972 a 1974

Incorporação no serviço militar em Julho de 1972

Em Julho de 1972 ingressei no serviço militar, depois de tantos adiamentos, quase pensando que já não me chamavam. Eis senão quando chegou a ordem de me apresentar em 1971. Já me tinha inscrito no estágio profissional, pelo que tive de pedir mais um ano de adiamento, que me foi concedido. Mas em Julho de 1972, quase a fazer 29 anos, tive de ir para Mafra frequentar o Curso de Oficiais Milicianos (COM). (ver foto do COM).

Passados dias tive de pedir autorização para poder ir a Lisboa fazer o Exame de Estado – último ano em que se realizou e fui prejudicado em relação aos que não tinham tese de licenciatura. Passei três meses em Mafra, debaixo de forte calor. Dormi uns tempos na camarata e comia no refeitório mas, quando minha mulher resolveu ir juntar-se a mim em Mafra, aluguei um quarto e ia almoçar ou, pelo menos, jantar com ela ao Restaurante Frederico, ali em frente do convento, conhecido pelo seu bife. Para fazer o pequeno almoço, um familiar dela emprestou-nos um fogãozinho de campismo a botijas de gás. Uma manhã o gás começou a sair e, não sabendo como o parar, abri a janela e lá foi o fogão e botija parar à rua.

Como praticava atletismo, não me foi difícil aguentar as caminhadas e corridas. Quando terminava a instrução e íamos para o quartel almoçar, era sempre o primeiro a chegar ao quartel, dando tempo para tomar banho. Porque era dos mais velhos do pelotão, se retirarmos os médicos que iam pela segunda ou terceira vez à tropa, já com os seus quarenta e mais anos, e porque era bom nos exercícios físicos, fui seleccionado para fazer testes de comando e ingressar no curso de capitães. Os testes de comando correram-me bem. Seguiram-se os testes de oratória. Os temas sobre os quais tínhamos de dissertar eram quentes: a Igreja e o Estado, a guerra colonial, etc. Houve quem começasse a dizer mal de tudo, pensando, assim, livrar-se do curso. Nunca fiz batota e falei como me ditava a consciência. Fui, pois, seleccionado. Quando o major do CEP me disse que tinha sido aprovado, respondi-lhe: «O problema é que eu tenho mais de 10 diopterias no conjunto dos 2 olhos.» Ele viu que eu falava verdade e retorquiu:
– Que pena! Perdeu-se um capitão! E agora, que quer?

Respondi-lhe que, sendo casado e professor, caso tivesse de ir para o Ultramar, gostaria de uma especialidade que me desse a oportunidade de ficar numa cidade onde pudesse acumular a dar aulas.
Vamos ver – retorquiu.

Já nos últimos dias do COM, formámos para ouvir a especialidade destinada a cada um. Chegada a minha vez, ouvi: S.P.M. (Serviço Postal Militar).

Desataram os colegas: «Eh! Pombo correio!»

Forte do Bom Sucesso junto à Torre de Belém - Capeia Arraiana

Forte do Bom Sucesso junto à Torre de Belém (Foto: D.R.)

E lá fui eu parar ao SPM, que funcionava ao lado da Torre de Belém, no Forte do Bom Sucesso. A minha recepção foi feita por um tenente miliciano, que me perguntou de imediato: «Quem foi a tua cunha?»

Respondi-lhe: – Ninguém!

Riu-se. É que, para aquela especialidade só ia gente bem apadrinhada: um Champalimaud, um Melo que tinha uma garrafa de whisky em cada boite de Lisboa, o conde de Murça, filhos de generais ou ministros e outros que tais, e também o gordo guarda-redes de andebol do Sporting, o Carlos Silva. Eu era excepção. A minha cunha tinha sido a minha honestidade reconhecida e premiada pelo major do CEP (Centro de Estudos Psicotécnicos).

Devia dormir em Cavalaria 7, na Calçada da Ajuda. Poucas vezes lá dormi. Ia dar aulas à noite na Escola Comercial Patrício Prazeres e seguia para casa, em Odivelas, para onde me havia mudado. Íamos comer a Lanceiros 1, em frente a Cavalaria 7, onde estavam colocados o Major Tomé e outro revolucionário. Já alferes, podíamos ir, de vez em quando, à messe de oficiais em Pedrouços.

No dia 25 de Abril de 1974, vinha eu no meu Mini a passar na Alameda das Linhas de Torres e vi caras conhecidas da televisão num ajuntamento em frente da estação. Não fazia ideia do que se tratava. Quando cheguei ao SPM, dei com o portão fechado. Estacionei o carro e bati ao portão. Um soldado abriu-me a porta e perguntei-lhe por que estava fechada.
– Então, não sabe?
– O quê? – perguntei.
– Revolução! – adiantou ele – Está cá o nosso tenente-coronel!
– Abre lá rápido a porta!

Franklim - Escola Prática de Infantaria - Capeia Arraiana

Franklim – Cartão da Escola Prática de Infantaria

Eu ia à civil e tinha a farda num cacifo. Fui a correr fardar-me e só depois me inteirei do sucedido.

Passados uns dias passaram por lá uns fuzileiros a perguntar de que lado estávamos, a modo de riso.

Que poderíamos nós fazer sem pessoal minimamente treinado para usar uma arma, a quem nós, os oficiais, receávamos entregar uma G3 a soldados ciganos e meio-aleijados, sem saber ler nem escrever, que apenas carregavam sacos do correio nos Unimogs para os transportar ao aeroporto ou os descarregavam, vindos de barcos e do aeroporto. Os Unimogs andavam sempre avariados. Constava-se que os condutores os avariavam propositadamente para folgarem. O problema era que não podia sair nenhum avião ou barco para o Ultramar sem levar o correio militar. Alguém teria de pagar com um processo pela falha. Por isso, os prontos teriam de ir a Cavalaria 7 reparar os Unimogs. Uma das funções do encarregado dos AOs e das Encomendas era ver os jornais onde vinham os horários das saídas de aviões e barcos.

O alferes Morgado, quando ficava de oficial-dia, dava-se ao luxo de atirar tiros de pistola às gaivotas.

De tropa ali pouco se sabia. O SPM, que recebia e enviava o correio para as diversas Províncias Ultramarinas, cada qual com o seu código: 1, era reservado para a sede do SPM; 2, para São Tomé; 4, para Angola; 5, para Moçambique; 6, para Cabo Verde; 7, para Macau; e 8, para Timor, se não me falha a memória. Era chefiado pelo tenente-coronel Tapadas, graduado, pois tinha sido alto funcionário dos CTT. Os sargentos e alguns furriéis eram também antigos funcionários dos CTT, que iam sendo promovidos. Vários eram os tenentes, capitães, entre eles o capitão Ananias, bom homem, e alguns majores. Quem tomava conta do forte e por lá continuou numa casita à entrada, sem interferir em nada, era um cabo do exército, já de certa idade.

Quem chefiava as secções eram os aspirantes vindos do COM, depois promovidos a alferes, ajudados por furriéis da tropa ou vindos dos CTT.

Chefiei os AOs. Era ver os furriéis em alvoroço cada vez que aparecia uma PlayBoy ou outra revista picante entre a correspondência. Pode-se avaliar a cultura do nosso povo nos mínimos pormenores. Num aerograma… – ainda se lembram deles?! – Aí vai a foto de um. Num aerograma, dizia eu, havia meninas que metiam uma trança para o namorado. Os comentários não tardavam. Havia também quem metesse mil escudos em notas de 20$00. Só nos davam trabalho, já que tínhamos de levantar autos.

Um Aerograma - Capeia Arraiana

Um Aerograma

A dada altura, creio que já alferes, passei a chefiar a secção de encomendas. O furriel abria os sacos e as encomendas escorregavam sobre o lajedo. Na altura da Páscoa rolavam amêndoas soltas. Às vezes partia-se uma garrafa de Porto que vinha apenas acondicionada num papel de embrulho. Era mais um auto que me esperava.

Um dia, ao ser aberta uma encomenda, ouviu-se um ruído – trr, trr, trr. Não fosse alguma bomba, falei com o capitão Ananias, que achou por bem requisitar pessoal de minas e armadilhas da PSP. Mandei colocar a embalagem no meio da parada e afastámo-nos todos. Era uma festa de comentários por parte dos furriéis. Veio a PSP, começou com cautelas e acabou por abrir a caixa. Para espanto de todos, tratava-se de um gravador enviado por alguém ligado ou que se ligou com os safanões dos sacos.

Mas o SPM também servia para fazer favores a amigos. Havia quem fosse lá entregar sapatos e ramos de flores para que enviássemos para outros colegas do SPM lá fora. Mas também havia quem ganhasse dinheiro enviando cortes de fazenda para comerciantes ou outras mercadorias. Falava-se que alguém fazia comércio de diamantes, a começar pelos chefes.

De vez em quando vinham uns camarões de Cabo Verde enviados por colegas dos sargentos. O Geraldes era quem tratava desses negócios.

Havia quem gostasse de ir para o Ultramar e até trocasse com outro que o não desejava. Outros, como eu, com a vida organizada em Lisboa, estava sempre à espera que chegassem os novos para entrarem na lista. Acabei por não ir para o Ultramar. Mas não me livrei de ir dar um Curso Técnico Postal a Tavira durante um mês. Outro local onde se davam estes cursos era Leiria. Só dava uma hora de aula sobre a legislação do SPM a furriéis e soldados. Passava o resto do dia na praia da Ilha de Tavira, para onde ia por barco apanhado no cais do rio Gilão. Era uma belíssima praia, enorme, onde se apanhavam lingueirões com a técnica de uma vareta de guarda-chuva e outros mariscos.

Comia na messe dos oficiais e dormia no quartel. À noite jogávamos o King na sala de oficiais, com o capelão, o médico, Braga de nome, como eu, e alguns oficiais de carreira, como o tenente Casinhas, que chegava a perder o ordenado. O capelão e eu impusemos a regra de só se jogar a 50 centavos. Mas havia quem não gostasse desta regra e fizesse uma mesa a doer.

O médico Braga deu-me uma ou outra boleia para Lisboa e volta.

Até que minha mulher se lembrou de aparecer lá no meu Mini. Aluguei um quarto. Íamos comer à messe, com certo acanhamento porque, quando ela entrava, todos se levantavam.

Numa ou outra tardinha frequentava o café do Edgar, (Dígar como diziam na aldeia), filho da Ti Leopoldina de Quadrazais, que se instalara em Tavira havia anos.

Um dia passámos numa rua estreita vindos da messe e, em frente dum tasco – o Pirica – era um cheirinho muito agradável a peixe. Espreitámos e vimos numa salinha anexa, ainda que pouco asseada, que alguém comia cataplana de atum. Perguntámos ao dono o preço, etc., e ele informou-nos que era necessário encomendar de véspera. Encomendámos logo para o jantar do dia seguinte. Perguntei se a cataplana dava para dois, ao que o dono respondeu:
– Já a comeram quatro e não a acabaram!

Fiquei meio desconfiado. Mas as dúvidas acabaram quando abri a tampa da cataplana e, para além do cheiro, verifiquei que, de facto, a quantidade era enorme: uma camada de atum, outra de batata, outra de fatias de pão e novamente outra de atum e por aí adiante. Comemos até rebentar. Levámos uns quatro bifes de atum numa sanduíche para o quarto e ainda oferecemos um pouco a uns franceses também eles atraídos pelo bom cheiro.

16.8.74 – Deu tempo para num fim-de-semana, sexta-feira, ir a Ayamonte. Na alfândega de Vila Real de Santo António estava colocado o amigo Alves dos Forcalhos, que nos apresentou um colega, o Amílcar, cuja esposa era colega da minha na escola. Fomos de barco. Fizemos umas compritas, entre as quais uma cafeteira a vapor, e regressámos à base.

Creio que ainda voltámos noutro fim-de-semana, tendo ido até Huelva, onde dormimos num quarto, sem porta, apenas com um cortinado, tal era o calor.

Voltei para o SPM em Lisboa, onde estive até passar à peluda em 10 de Janeiro de 1975.

(Fim da Etapa 16.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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