Nostalgia ou um pouco mais?

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Com algum amargor se diz que a sucessão de presentes que se vem desenrolando se divorciou da memória deixando para trás experiências de outros tempos.

Será apenas nostalgia?

Ponderando a pertinência de rememorar alturas passadas, que habitaram dimensões alargadas nas últimas décadas, constata-se a relevância de recordar ritmos, de lhes colher saberes antigos e de os tentar transplantar para cada novo presente na esperança de os conseguir preservar.

Não poderemos, de facto, ser apenas reféns de um tempo sem tradição, intolerante, detentor de talento para destruir equilíbrios, desumanizado e de competitividade desregrada, a iludir vidas modernas com padrões de qualidade duvidosa.

Enquanto isso as ideologias vão-se tornando cada vez mais opacas e validam, paulatinamente, a incapacidade de avivar ou consciencializar um tempo sem tempo.

As ideias vão baixando de cotação porque surgem desajeitadas quanto à criação e são insuficientes quanto à capacidade de fazer fluir a busca de objetivos meritórios.

Já houve, sim, tempos de convicções. Tempos intensamente marcados e orientados por práticas que hoje se afastam dos novos ideais.

O tempo de hoje deixou de estar preparado para receber, sob forma de legados, insignes princípios de outrora e, até, certo tipo de ambientes que se deixavam singrar de romantismo e de fascinação.

Não desejaria, pois, sentir-me contra a corrente quando, de propósito, recordo um tempo que me recuso a dar por findo, gasto em lugares que gostaria de reencontrar no ritmo dos novos tempos. Tal recobra abarcaria a exuberância de ritos quotidianos passados, ornados pela especificidade de rostos e personagens. Dar-se-ia, assim, o reinvento daqueles momentos, capazes de proporcionar olhares para dentro e para o mundo, habilitados a fazer reaver pontos de vista e a lançá-los em espaços de imaginação.

Desejaria, enfim, convencer-me de que esse tempo se tornou apenas mal conhecido ou, quando muito, algo esquecido mas nunca abolido.

Tudo isto habita subtilmente o meu espírito sem que me escureça, para sempre, os sonhos apesar de algumas sombras.

A minha principal questão é partir deste enquadramento para a tentativa de compreender a controvérsia dos tempos esperando que não se descarte o mais instigante do passado e que ele possa ser levado a cada presente acrescentando-lhe estímulos úteis sempre e quando se busquem caminhos a percorrer ou problemas a enfrentar.

Será isto apenas nostalgia? Ou será um pouco mais?
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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