Tom Hamilton

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Não é todos os dias que se conversa com dois vultos da cultura portuguesa, principalmente musical. Numa tarde primaveril, antes de partir para a “reforma agrária”, foi numa esplanada de uma avenida fundanense que o nosso diálogo se deu com naturalidade. Sempre gostei de ouvir pessoas e de aprender algo que não conhecia.

Tom Hamilton

De um lado, o Jerónimo Mateus – músico e compositor – com diversas letras e músicas inesquecíveis: “Tasca da Estação”, “Auto-Route de Burgos”, “Estrada 343”…

Do outro lado, Tom Hamilton, nascido em Inglaterra, filho de uma mãe irlandesa e de um pai escocês. É sobre este professor, músico, compositor e investigador que hoje escrevo.

Os meus anfitriões são duas personagens muito idênticas, direi dois irmãos gémeos, com chapéus de abas largas, estilo cowboy, um de origem americana, outro de origem australiana, casacos de cabedal, bolsas de cabedal a tiracolo…

As paixões de Tom Hamilton são a música, a história, a natureza… Gosta de “caçar” pedras e de pescar trutas.

Um dia, há vinte e nove anos, veio para Portugal para fundar uma escola de inglês. Pensou no Porto, mas depois de analisar o mapa de Portugal optou por Belmonte, que lhe oferecia melhores condições para a pesca das trutas.
Graças à simpatia e hospitalidade dos portugueses, depressa se integrou na sociedade e na aprendizagem da língua. No concelho do Fundão vivem, aliás, mais de cem cidadãos ingleses.

Além de professor, começou a cantar a solo e a tocar em muitos recintos e bares no distrito de Castelo Branco, até o nosso Bob Dylan o convidar para integrar o seu conjunto musical. E já lá vão vinte e três anos.

Não frequentou qualquer academia musical, é um autodidata que toca diversos instrumentos, principalmente guitarra e piano.

Como compositor, inspirou-se no cancioneiro musical da Beira Baixa, insuflando a tradição com toques de modernidade à sua maneira. Concretizou também um projecto de recolha dos sons dos sinos de diversas localidades dos concelhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova.

Tem em mãos um projeto sobre a missão do cavalo raiano, com o apoio do Município do Sabugal, e pretende alargar a recolha de sons dos sinos às freguesias deste concelho. Os toques dos sinos determinavam todos os movimentos sociais e religiosos das comunidades, é algo milenar.

Já realizou alguns trabalhos de investigação musical, principalmente sobre os celtas, os cartagineses e os fenícios. Diz-me que “acima do Tejo até à Galiza a musicalidade destas gentes é de origem celta” e que o seu ADN é celta. Defende a tese de que este povo saiu da Ibéria e veio para as Ilhas Britânicas. Defende também a tese de que são os fenícios que trouxeram para Portugal, principalmente para o interior, as minas de cobre e estanho, o olival e a vinha.

Recorda que ninguém fala de um povo, “OS VETONES”, que ocupou o actual espaço da Beira Baixa e que se estendeu para a Extremadura Espanhola. Um povo de origem celta e guerreiro. Viriato, que se deslocou do norte da Estrela, para fazer com eles uma aliança contra os Romanos, não o conseguiu.

Com a ocupação romana, na organização do território a que chamaram Lusitânia, deixou de existir o povo dos Vetones. No entanto, a estas gentes deve-se muito da cultura da Beira Baixa.

No campo da natureza, Tom Hamilton é um investigador e defensor da Argemela, montanha que faz a ligação da Gardunha à Serra da Estrela. Ali encontrou pedras raras, a pedra turquesa, muito parecida com uma do Nepal. Esta pedra, diz-me, tem potencialidades fertilizantes para as terras agrícolas subjacentes. Há uma equipa de investigadores a estudar a origem e as caraterísticas destas pedras.

Também ali é necessário defender as colónias de morcegos, cujos habitats são as entranhas das minas abandonadas, e que comem os insectos maléficos para a agricultura.

Recentemente o seu documentário televisivo, intitulado “A MONTANHA NEGRA”, teve eco num programa da SIC e foi exibido na Moagem do Fundão.

Quanto à pesca das trutas, já não dispõe de tempo e “há para aí umas “trutas” que já não caem em anzóis”.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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