Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (15)

Franklim Costa Braga - Colaborador - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 15).

Viagem de lua-de-mel na região da Cantábria - Capeia Arraiana

Viagem de lua-de-mel na região da Cantábria

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 70

1970

Carnaval em Sesimbra

No ano lectivo de 1969/70 fui professor de Português e Francês na Escola Comercial Patrício Prazeres, em Lisboa. No concurso, uma menina inexperiente do Ministério lembrou-se de me pedir o diploma de bacharel, já que ainda não tinha defendido a tese de licenciatura. Tive de pagar uns 300$00 por ele, muito dinheiro para a época. Quando o fui entregar, a menina disse-me que o diploma não era preciso. Imaginem quão furioso fiquei.

Permaneci alguns anos na Patrício Prazeres, mesmo em acumulação durante o estágio e na tropa, e onde ganhei taças de campeonatos de atletismo, o que motivou invejas dos professores de Educação Física. Antes de mim nada fizeram. Como eu fiz alguma coisa, ficaram roídos de inveja e trataram de me afastar do atletismo. Desconfio que fui usado pelo chefe da secretaria, Sr. Costa Pinto, e pelo Dr. Renato, para desviarem dinheiros das actividades da Mocidade, dizendo que tinham sido gastos com o meu trabalho e aluguer de camionetas para levar os alunos às provas. Lembro-me de, um dia, o chefe da secretaria me ter apresentado um papel em branco para eu assinar. Eu, inexperiente, assinei em branco. Só anos mais tarde ouvi falar de possível desvio de fundos. Seja como for, por lá deixei duas ou três taças ganhas nos campeonatos de atletismo da Mocidade Portuguesa entre escolas. E fui alvo de elogios de alguns treinadores de atletismo, que criticaram professores de Educação Física que haviam perdido comigo, simples praticante de atletismo, mas que motivava os alunos a acompanhar-me nos treinos.

Às tardes praticava atletismo no CDUL, Centro Desportivo Universitário de Lisboa.

Cartão da Federação Portuguesa de Atletismo. Clube: CDUL - Capeia Arraiana

Cartão da Federação Portuguesa de Atletismo. Clube: CDUL

Conheci a Lurdes, minha futura mulher durante 20 anos, por intermédio duma sua amiga e vizinha, minha colega na escola. No Carnaval de 1970 esta colega convidou-me a ir com ela e a amiga a Sesimbra ao baile no Hotel Espadarte, onde fomos no meu mini. Acabei por me enamorar da amiga, o que provocou cenas de ciúmes por parte da minha colega, que deixou de falar à amiga e vizinha. Era a mim que ela pretendia.

Ida a Vieira de Leiria

No Verão de 1970 estava a preparar a minha tese de licenciatura, a que dei o título de «Quadrazais-Etnografia e Linguagem». Por isso, passei o Verão em Quadrazais, continuando os meus inquéritos linguísticos, para o que tive de comprar um gravador Grundig TK-23 ao Oliveira, vindo de férias de Colónia a Quadrazais, que me custou 3.000$00 e que ainda conservo juntamente com as várias fitas gravadas. Apenas fui uns dias com o amigo Severino até Vieira de Leiria, conforme relato das viagens cá dentro, no episódio n.º 2.

Casamento

Em 14.11.1970 casei no Mosteiro dos Jerónimos, sendo meus padrinhos uma colega de grupo, a Doutora Maria do Carmo, de Olhão, professora na Patrício Prazeres, que havia sido professora da Lurdes, e o marido. Tive de adiar por oito dias o casamento porque no Bilhete de Identidade o meu nome era Franclim da Costa Braga e na certidão de nascimento que me exigiram constava Franclim Costa Braga. Eu sempre assinei Franklim, assinatura essa que sempre constou do B. I. A questão de c ou k deriva do facto de k não fazer parte do alfabeto português até há alguns anos. Pois, bem, o chefe da 10.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, onde trabalhava uma filha do Sr. Víctor do Sabugal, entendeu que tinha de tirar novo B. I. e nada o demoveu dessa decisão, por mais que lhe demonstrasse que era a mesma pessoa com «da» ou sem «da». E tive de adiar o casamento. Pedi novo B.I., explicando as razões, e o novo B.I. veio novamente com «da Costa Braga». Ao apresentá-lo na Conservatória, o chefe aceitou o casamento a contragosto, com a condição de tirar novo B. I., o que fiz. E à terceira foi de vez, vindo Franclim Costa Braga. Os trabalhos que a Conservatória do Sabugal me arranjou! O meu pai e meu irmão têm «da» no nome e eu não.

Bilhete de Identidade de Franklim - Capeia Arraiana

Bilhete de Identidade de Franklim


Bilhete de Identidade de Franklim - Capeia Arraiana

Bilhete de Identidade de Franklim


Cartão de Cidadão de Franklim - Capeia Arraiana

Cartão de Cidadão de Franklim

Por causa do meu nome tive muitos aborrecimentos na vida. Para entrar na Faculdade, cada documento vinha de sua maneira, ora Franklin, ora Franclim, ora Franklin, ora Franclin, e estas quatro formas ora acompanhadas de «da», ora sem «da». Ainda hoje tenho documentos, como o da ADSE, em que o meu nome aparece como eu assino – Franklim –, noutros vem Franclim. E muita gente me pergunta como se escreve o meu nome quando têm de o escrever. Alguns houve que escreveram Franquelim, nome de falcão, mas que é o verdadeiro nome de certas pessoas.
Já não bastava a minha mãe me ter registado como tendo nascido em 24 de Setembro, quando no assento de baptismo consta 21 de Setembro, data que considero mais lógica, se considerarmos que houve atraso no registo e, para não pagar multa, minha mãe disse que nasci a 24. Pois minha mãe afiançava que eu tinha nascido a 26 de Setembro, o que não tem lógica. Com estas três datas de nascimento, muitas vezes fui alvo de riso jocoso por parte de familiares quando pretendiam dar-me os parabéns, acrescentando.

– É hoje, amanhã ou depois?

Três presentes é que nunca recebi.

Apresentei a tese de licenciatura em Janeiro de 1971. Nem sequer pude fazer viagem de lua-de-mel. Esta só teve lugar no Verão seguinte.

Pois bem, casado com mulher que de aventureira nada tinha, e muito menos amiga de boleia, uma desonra para ela, a boleia acabou, mas a aventura das viagens continuou.

1971

Verão de 1971 – Viagem em lua-de-mel, já tardia, aos Cantábricos no Mini vermelho: AE-34-51, de 20 a 29 de Agosto de 1971.

Não marcámos previamente qualquer pensão ou hotel.

Saímos por Vilar Formoso em 20.8.71 e entrámos por Valença em 28.8.71.

De Vilar Formoso seguimos para Salamanca, à distância de 120 quilómetros, cidade que visitámos. Continuámos por Zamora para Léon, à distância de 206 quilómetros, cidade que também visitámos. Creio que dormimos aqui.

Em 21 de Agosto seguimos rumo a Santander, capital da Cantábria, a 275 quilómetros. Dormimos numa pensão num 1.º andar. Os píncaros da Península metem respeito e tem de se ter boa mão ao volante perante tanta curva lá no alto.

Fotos da viagem de lua-de-mel - Capeia Arraiana

Foto da viagem de lua-de-mel no Mini vermelho

Em 22.8.71 continuámos por Torrelavega para Gijón a 180 quilómetros.

Em 23.8 seguimos para Oviedo, à distância de 32 quilómetros, cidade que visitámos em pormenor.

Em 24.8 fomos para Lugo à distância de 235 quilómetros. Lembro-me de ter visitado várias lojas que estavam com rebajas.

Fotos da viagem de lua-de-mel - Capeia Arraiana

Foto da viagem de lua-de-mel no Mini vermelho

Em 25.8 fomos para La Corunha, à distância de 100 quilómetros, cidade que visitámos.

Em 26.8 fomos para Santiago de Compostela, a 70 quilómetros. Visitámos a Basílica e a cidade. Continuámos para Pontevedra, à distância de 62 quilómetros.

Fotos da viagem de lua-de-mel - Capeia Arraiana

Foto da viagem de lua-de-mel no Mini vermelho

27.8.71 – Seguimos para Vigo. Ali perto fica a praia de S. Mil (creio que é assim que se escreve), onde tomámos uma banhoca. Continuámos para Tuy. Numa destas cidades visitámos o monumento ao gaiteiro e comprei uma pequena gaita de foles.

28.8.71 – Entrámos em terras de Portugal por Valença do Minho.

Tirei várias fotos mas, como não as identifiquei por trás, agora tenho dificuldade em identificá-las. Publico apenas duas.

Foto da viagem de lua-de-mel - Capeia Arraiana

Foto da viagem de lua-de-mel no Mini vermelho

Em Outubro de 1971 ingressei no Estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes. Quando concorri ainda continuavam em Lisboa como únicos liceus normais, isto é, aptos a dar estágios, o Liceu de Pedro Nunes para professores e o Liceu Maria Amália para professoras. Havia outro em Coimbra e outro no Porto. Pois bem, às tantas resolveram abrir estágios noutras escolas, como o Liceu D. Pedro V, O Liceu Camões e outros. Pedi para ser integrado no Liceu D. Pedro V por ser mais próximo de minha casa. Foi rejeitado o meu pedido com o argumento de que eu era licenciado, já que havia defendido tese de licenciatura, e os licenciados tinham de fazer o estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes. Os bacharéis, que não haviam feito a tese de licenciatura, frequentariam o estágio nas restantes escolas, sendo admitidos com a nota de 10 valores.

No Liceu de Pedro Nunes o estágio começou logo a 7 de Outubro. Nas outras escolas, para as quais não haviam sido nomeados professores para o efeito, o estágio começou muito mais tarde, alguns só no Carnaval. Pois os bacharéis tanto reclamaram que, já quase no fim do estágio, lhes atribuíram a nota do curso e passaram a ser considerados licenciados mesmo sem tese.

Resultado, eu que fiz tese de licenciatura, com o enorme trabalho que tive, com despesas enormes: compra do gravador, com valor semelhante para pagar a passagem do texto à máquina pelo Sr. Graça, despesas de impressão no Centro Universitário de Lisboa, despesas com dezenas de fotografias a colocar em todos os exemplares, em que fui ajudado por um amigo que estivera hospedado na mesma casa que eu, à Calçada do Marquês de Abrantes, despesas com capas e encadernações para entregar oito exemplares na Faculdade, etc., etc., fui brindado com ter de frequentar o estágio numa escola mais difícil, com início bastante mais cedo e com nota inferior à dos que não fizeram tese, nada gastaram e acabaram por concorrer às escolas no início do ano lectivo seguinte à minha frente. Tive de mudar de casa da Reboleira para Lisboa, tendo alugado uma casa perto da Av. Duque de Loulé, para não me enervar com o trânsito de manhã para chegar à escola. Passei a utilizar os transportes públicos.

Valeu a pena o esforço?! Infelizmente, neste país sempre foram premiados os que nada ou pouco fazem.

Cartão do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras - Capeia Arraiana

Cartão do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras

Não bastando o estágio e ser professor à noite, ainda me inscrevi no Instituto de Ciências Económicas e Financeiras, no Quelhas, em Lisboa, onde viria a terminar a licenciatura em Finanças, que me havia de servir para concorrer a Revisor Oficial de Contas, profissão que ainda exerço (ver foto do cartão).

(Fim da Etapa 15.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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