O Professor Poeta

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Miguel Sousa Santos, professor do ensino secundário e autor de diversos poemas destacando-se o livro «Azenha Derrubada». Conheci-o na Casa de Repouso das Irmãs Hospitaleiras em Condeixa, pela mão do António Alves Fernandes. Longe imaginava que iria padecer da mesma maleita, meses mais tarde. O que nos unia era a cultura fazendo-me lembrar um álbum dos anos 70 do grupo britânico Gentle Giant denominado «Three Friends». Depois de uma longa travessia que cada um destes «Three Friends» fizeram, conseguindo a merecida recuperação, o Miguel acaba por desistir, tendo-nos deixado, sem mágoa, mas com uma grande dor, tornando-nos mais pobres e perplexos, porque a sua palavra escrita era um hino à esperança e à Fé dos humanos.

Azenha Derrubada de Miguel Sousa Santos - Capeia Arraiana

Azenha Derrubada de Miguel Sousa Santos

«The Three Friends», álbum histórico dos Gentle Giant dos anos 70, que retrata as diferenças sociais da velha Inglaterra. Estes três amigos também vieram de sítios diferentes e igualmente sentiram as amarguras da doença. Uniram-se pela cultura onde descobrindo a escrita encontravam alguém que os ouvisse, compreendesse e estimasse.

O António Alves Fernandes tudo fez para que o Miguel Sousa Santos sentisse a luz da vida, traçando um nó que os mantivesse unidos para vencer as dificuldades que passaram. E conseguiram, tendo o Miguel conseguido o mérito de um dos seus poemas integrar o livro dedicado a Eugénio de Andrade. O Miguel partiu. Deixou-nos um recado no passado dia 8 de abril, que passou totalmente despercebido: «Tenho dois Jardins.» O poema mais uma vez reveste-se de uma emoção que só o Miguel sabia fazer. A sua alma já balançava entre a alegria e a tristeza onde nos avisava que a liberdade teimava em desaparecer.

Tal como a balança que busca pelo equilíbrio, surge uma «parede» no meio daquela natureza, simbolizando a frieza e a indiferença que «nunca viu cravos vermelhos e brancos e que nunca foi livre».

A parede do isolamento contrasta com a liberdade dos cravos simbolizando, no meu entender, que a sua emoção começava a caminhar para o «desequilíbrio». Aliás conclui que as flores também secam revoltando-o com desespero, mas que o sonho o transporta para um «terreiro» repleto de flores vermelhas. Na realidade, diz o Miguel em jeito de conclusão, as sementes nunca secam.

Teimando num acreditar que o seu sonho é repleto de justiça e liberdade, despede-se com esperança num «amanhã» melhor. Na realidade penitencio-me porque quando li este texto, senti o temor do pior sem ter tido a coragem de me levantar da cadeira e ir a correr a salvar quem mais precisava.

Miguel Sousa Santos - O Professor Poeta - Capeia Arraiana

Miguel Sousa Santos – O Professor Poeta

O grande enigma da vida não é só o tempo e o que nos espera num futuro desconhecido. Também é a decisão que permite alterar o curso da nossa «história» ou dos nossos amigos e familiares. Por exemplo a opção de um curso na adolescência condiciona a sua vida futura. Ou o ignorar conselhos dos mais sábios igualmente. Ou quando nos chega uma palavra de consolo nos ajuda a tomar a decisão que nos encaminha para longe do precipício.

Escrevo esta crónica no final desta Quaresma, que termina na Ressurreição de Jesus Cristo, festa de júbilo no mundo cristão.

Acredito, mesmo com esta amargura da incompreensão e da tristeza de uma partida inesperada, que o Miguel também irá «Ressuscitar» e que seguramente um dia, estes três amigos, se voltem a reunir para partilhar o bem que levamos desta vida.

Não se sei se haverão canetas ou papel, mas seguramente existe um forte sentimento que nos entrelaçará no perpetuar dos tempos.

Um abraço Professor Poeta, que os vivos te prestem a homenagem que mereces!

Condeixa, 19 de abril de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

One Response to O Professor Poeta

  1. António Alves Fernandes diz:

    Bem hajas caro Alçada por esta homenagem a um HOMEM, que tinha os valores da fraternidade, da solidariedade e da poesia.

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