Porquê o tempo de Quaresma?

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Neste tempo de reflexão, cada vez mais esquecido por todos, vivi uma travessia no deserto, tal como Jesus Cristo, só que nos tempos atuais. E as dificuldades que passei tornou-me mais crente e tolerante. E também vou entrar num ciclo novo da minha vida, onde cada segundo vale ouro. Acima de tudo saber perdoar, com responsabilidade, e dar o máximo que puder para ajudar quem mais precisa. Mas podem ficar descansados. O texto é uma mera reflexão onde acredito que, todos e todas, têm o seu lugar.

Igualdade e Fraternidade - Capeia Arraiana

Igualdade e Fraternidade

Mesmo para os não crentes, o período da Quaresma deveria ser aproveitado para pensar um pouco e corrigir alguns aspetos pessoais que possam, de certa maneira, dar um pouco a esta sociedade carente de valores.

A Quaresma é um período de 40 dias, compreendido entre a quarta feira de cinzas, logo a seguir ao Carnaval, e o domingo de Pascoa. No meu caso particular esta Quaresma foi igualmente para mim uma travessia no deserto, tal como foi para Jesus Cristo, só que tive de reaprender algumas relações sociais, comportamentais e familiares, sendo que a mais difícil foi saber a lidar novamente com a contrariedade.

O Arciprestado da Covilhã organizou uma magnifica Via Sacra, uma das cerimónias desta quadra do calendário católico e anglicano, onde tive oportunidade de me confrontar e auto avaliar nas minhas competências e do meu estado de espírito, tendo tido a ajuda dos próprios textos que foram lidos ao longo das 14 estações. Curiosamente senti que a humanização do cristianismo deve ser o caminho e, provavelmente, poderá ajudar os jovens a entender melhor a importância de Jesus Cristo na nossa sociedade europeia.

Esta peregrinação também acabou por fazer-me encarar o futuro de forma diferente e, acima de tudo, a relativizar os aspetos menos positivos da vida, como por exemplo não ter jeito nalguma competência ou de saber perdoar pessoas que não entendem as desigualdades sociais ou intelectuais da sociedade, e, tal como Jesus Cristo, resistir um calvário de desprezo e falta de ética, que tive de conviver com bastante dificuldade, sabendo «engolir o sapo» que também faz parte da boa convivência.

O facto de ter iniciado esta crónica de pessoas pouco, ou nada, religiosas não desresponsabiliza os crentes que frequentemente se esquecem dos sentimentos, das dificuldades, das diferenças de tanta gente que muitas vezes acabam um dia mais tarde por nos surpreender. E neste caso refiro, pela positiva!

A sociedade portuguesa tem uma tendência de «rotular» a pessoa A ou B, de incompetente ou de aparente dificuldade de integração, por meras análises de palpites ou de teorias pouco eficazes, fazendo lembrar os comentadores que professam a desgraça alheia. Pessoalmente vejo essa atitude uma violação constitucional por nos privar de direitos fundamentais, neste caso igualdade de oportunidades e a criação de uma segregação entre humanos que deve ser evitada, principalmente por cristãos.

Lembro-me do pouco futuro que davam a José Mourinho, meu colega do Liceu, ou de pessoas que hoje assumem cargos de Presidência em instituições, e até de pessoas que hoje assumem cargos de competência nacional e que, aos olhos de muita gente, poucas capacidades teriam de lá chegar por inexperiência ou falta de capacidade. A nossa liberdade de pensamento e de opinião deve ser respeitada, mas o faco é que quem consegue «vencer» leva o prémio por muito que nos doa.

Por isso, julgo que neste tempo de reflexão, tal como eu acabo por relativizar os meus defeitos, também proponho que os leitores o façam para aqueles que achem que não são perfeitos, porque acreditem, ninguém na realidade o é. E se sentimos que alguém nos ultrapassa «injustamente» a educação ensina-nos a felicitar e a relativizar o sentimento de raiva, ou inveja, que não nos leva a lado nenhum.

Por vezes os códigos de conduta, quando levados à virgula, levam-nos ao radicalismo e à obstinação, acabando por destruir as organizações. Para além do mau ambiente que geram, inviabilizam a tolerância, a promoção da igualdade e o afastamento da realidade da sociedade civil. E a Igreja, neste exemplo que deu na Via Sacra, fez exatamente o oposto, cativando os ouvidos dos crentes e levando a muitos a refletir e a tomar as decisões que há muito deviam ser tomadas.

Nestes últimos tempos tive oportunidade de conviver com crianças. Aos meus olhos todos têm qualidades e potencialidades, e bem orientados, seguramente serão bons cidadãos, sendo que uns serão «melhores», mas com o tempo até poderão ser ultrapassados por quem menos esperamos, como já referi anteriormente. Mas isso não inviabiliza que todos tenham um lugar, seja na sociedade, ou numa instituição, e devemos ajudar a concretizar os objetivos das suas vidas, mesmo que tenham que lutar por isso. Aliás sem luta e sem esforço nada se consegue!

Porquê o tempo da Quaresma? - Capeia Arraiana

Porquê o tempo da Quaresma?

O problema é que só eu tinha esta visão. E por isso, contrariamente às sociedades do Norte da Europa, como aprender com os erros e saber avaliar os jovens pelas suas competências e não pelos seus defeitos, nós, portugueses, estamos longe de entender como encarar o futuro.

Por isso, nesses países os cargos de chefia, direção ou administração têm muito mais rotatividade entre as pessoas abrindo as portas aos mais jovens e ao desenvolvimento, alterando muitas vezes os tais códigos de conduta. Aliás os seus códigos de conduta proíbem e socialmente condenam a «perpetuação» no poder. Cá, basta ver o exemplo do Salazar, que não é único!

E sem entrar em política, raro é o emprego onde o candidato (isto é, em fase de recrutamento) também tem de assumir um compromisso de honra de que não tem familiares na empresa para que se candidata. Digo isto porque tenho concorrido a imensos trabalhos em organismos internacionais, Reino Unido, Irlanda e Dinamarca, em que o questionário é taxativo. Cá como bem sabemos não é só na política. Poucas são as empresas e as instituições em que uma dada família chega a fazer «lobbie».

Obviamente para nós, mais velhos, entregar o «comando» aos mais novos será sempre um erro. Falta-lhes visão e experiência. Mas o facto é que só assim as sociedades evoluem. Porque têm uma visão diferente da nossa e também saberão ultrapassar os erros à sua maneira.

Tenho consciência que falo para poucos. Os profetas da desgraça infelizmente continuam a prevalecer.

Por isso, nesta Quaresma e se puderem, aproveitem para pensar nisto!

Eu pelo menos tenho Fé que sim!

Sexta Feira Santa, 19 de abril de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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