Mais da alma que da vontade

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Engendrar uma crónica faz-me lembrar uma quase conversa a dois, entre quem escreve e quem lê. Aliás, quando redijo, ideio alguém perante mim, como que um vulto de rosto indefinido, que me escuta e que gosta ou desgosta.

Cada um fluirá a seu jeito

Parto, então, para a narração sem alvo predefinido. Evito qualquer estigma ou bajulice e sigo exarando honesta e livremente. Sem enredo prévio, tudo virá ao correr da pena. Pelo caminho vou modelando o implume mote e o título até pode nascer no fim. Confesso, que o tempo de forjar o texto é um somatório de momentos de absoluta liberdade e, se um dia assim não for, duvido que continue a dissertar.

Enquanto escrevo vou, mentalmente, aldeia dentro, cidade fora. Prossigo pela natureza, enfim, avanço pela vida. A narrativa resulta, reiterada ou simples, por vezes humorística, ocasionalmente marota. Conto de tudo, desafogadamente. Confio, ao leitor, gostos, alegrias e tristezas e, claro, também revelo opiniões.

A minha predileção pela natureza é autóctone. É ânsia de beleza. É fascínio por campos e formas. É atracão de cores e de odores. É precisão alternada de ar carregado e triste com ar claro e alegre. É aconchego e melancolia. É o espanto pela robustez rochosa. É regalo colhido do canto das águas ou do chilrear dos pássaros. É o som das chuvas e o murmúrio do vento. É a afeição pelas gentes, pelas vivências campesinas, pelo seu ambiente jovial ou pelo seu estouvamento. É a confusão de tudo isto e ainda pode ser muito mais. Pode conter proteção, tal como a igreja contém para o crente. Pode ser espaço de desafogo, tal como um desabafo «ai valha-me Deus». É sítio de confidências. Com a natureza, enceto conversas intimas ouvindo-a religiosamente, pedindo-lhe mil conselhos, cochichando-lhe mil segredos. E, no decorrer do meu contar vou inserindo alguma divulgação aditando-lhe, no âmago, (quiçá furtivamente) algumas preocupações e pequenas chamadas de atenção.

Mas, sim, há imensas outras formas de opinar e de interferir. Há colunas políticas e de intervenção social. Há feições de acutilância e estilos de subtileza. Há quem escolha a premência e quem anteponha «a chuva mole em pedra dura que tanto bate até que fura».

Em boa verdade, cada um fluirá a seu jeito e a medida do meu alvitro nem eu próprio a conheço. Depende muito mais da alma que da vontade.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Mais da alma que da vontade

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Já notei há muito tempo que não te despojaste dos valores interiores que eu vi e apreciei em ti enquanto fomos companheiros de estudo, isso nota-se nos teus artigos.

    Quero dizer-te que eu ao entrar na Natureza é como entrar numa espécie de Santuário, o tempo que passo dentro dela é um tempo espiritual, às vezes quase místico…E serve-me de refúgio em momentos difíceis.

    Um abraço do Nabais

  2. Fernando capelo diz:

    Uma boa noite para o meu velho amigo Nabais.
    Ainda que o homem queira emancipar-se da natureza nunca o conseguirá. Sempre dependerá dela. E nós, eu e tu, sempre nos encontraremos na sua defesa e na sua valorização.
    Deixo-te um grande abraço.
    Capelo.

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