«Manifestus Probatum»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

O nome talvez nada diga sobre a crónica desta semana. Mas a minha independência, como homem, começou com a «mão» de um familiar que ainda hoje me deixa saudades. «Manifestus Probatum» foi a bula papal que declarou que o Condado Portucalense fica independente do Reino de Leão. E mesmo sendo um ateu convicto, este meu familiar acabou por fazer-me o que o Papa Alexandre III fez com os portucalenses. Esta crónica é uma homenagem a um homem – Olívio Sousa Bento – que sempre acreditou nas suas convicções até ao fim, doa a quem doesse e fosse quem fosse!.

O tio Olívio - Capeia Arraiana

O tio Olívio

Olívio Sousa Bento, Engenheiro Civil e um dos melhores alunos do seu tempo, um dos grandes projetistas de estruturas de empreendimentos como a sede da Caixa Geral de Depósitos ou a Torre do Tombo, ou a maioria das Centrais Térmicas da EDP ou das Refinarias, foi uma das pessoas que mais me influenciou em ser um diplomata.

Tinha uma visão peculiar de ver o futuro e a política e no meio de tanta gente nova que o rodeava, sem saber porquê, era quase sempre o escolhido para a conversa. Lembro-me bem da sua preocupação do governo dos 100 dias da Maria de Lourdes Pintassilgo e da necessidade de se abrirem os mercados às empresas, sendo um feroz crítico à nossa entrada na Comunidade Europeia. Alias a empresa que fundou e que projetou fabricas e outros empreendimentos marcantes na nossa história recente acabou por ser comprada por franceses, mesmo tendo tudo feito para não perder o poder de decisão.

Herdei dele o gosto pelo Jazz, o Dixieland, tendo sido um verdadeiro percursor desta arte em Portugal. Próximo de Villas Boas e tantos outros amantes, acompanhou-os na fundação do Hot Club de Portugal. Aliás um dos momentos nobres nas festas na sua casa era cada um tocar um instrumento de sopro, ou piano, acompanhando um vinil de Louis Armstrong, ou Miles Davis ou Charlie Parker. Ainda hoje oiço a orquestra de Wynton Marsalis lembrando-me do «free» que esmagava por completo a boa Dixie que o velhinho gira discos brotava.

Outra particularidade era as prendas que me dava. Havia sempre algo diferente.

Para irritar a polícia política resolve ir em finais dos anos 60 a Moscovo, contraventos e marés. Trouxe-me um rublo que ainda hoje guardo com carinho: «as lojas do povo pouco ou nada tinham para comprar e acho que esta é a prenda ideal para ti».

Um rublo russo dos antigos - Capeia Arraiana

Um rublo russo dos antigos

Uma outra também nunca mais me esqueci. Já quase com o curso feito dava-me sempre uma nota boa. Aliás nos meus orçamentos anuais a prenda do Tio Olívio era sempre a «grande receita», mesmo acima da do meu Pai. Um ano oferece-me uma tablete de chocolate. Obviamente que não me desfiz abraçando-o como sempre o fazia, mas não deixou de ser um choque. Naquele ano iria ter seguramente deficit e o stress bloqueou-me a cabeça. Onde iria recorrer para aquela quebra de receita?

Resolvo então comer a tablete para consolo. Assim que abro o invólucro de papel que revestia a prata encontro a tão desejada nota repondo-me a necessária estabilidade emocional e financeira.
Um outro aspeto que lhe devo foi um dos conselhos de vida mais sábios. Tendo uma empresa de projetos, e eu um amante de juntar dinheiro, telefonei-lhe a pedir trabalho como desenhador. Mandou-me então ao seu escritório e fui recebido no gabinete do Presidente do Conselho de Administração como um convidado. Leva-me a conhecer a empresa. Um edifício com alguns 5 pisos onde em cada um estava uma especialidade de engenharia e serviços de apoio: civil, mecânica. pipping, utilities, sala de cópias, recursos humanos, contabilidade, enfim imensa gente desde desenhadores, engenheiros, arquitetos, administrativos, contínuos, etc.

Durante a visita era hora de almoço. Praticamente não havia ninguém nas salas de desenho. Com a sua sabedoria mostra-me um desenho num estirador e tenta-me explicar o que era: «Achas que és capaz de fazer isto?»

Obviamente que não. Mas o fito do salário bloqueava-me a determinação. Porém o objetivo da sua «lição» era outro. Começou-me a falar de alguns bons profissionais do desenho técnico que acabaram por desistir de estudar porque com o retorno financeiro a motivação do sacrifício do estudo vai desaparecendo. Sabiamente sem me dizer «não» levou-me à razão de que muito provavelmente acabaria por desistir do curso e, seguramente, teria o meu Pai «à perna». A visita terminou com um almoço que me ofereceu, num restaurante de topo, em que a conversa nos levava a qualquer lado e eu sem nunca me aperceber que estava a acompanhar um Presidente.

Devo-lhe ainda o estágio. Embora tudo fizesse para eu ir trabalhar para uma empresa de hidráulica, sem sucesso, tive a oportunidade de trabalhar num projeto internacional, experiência que nunca mais vivi. O verdadeiro empreendimento em que o projeto, a fiscalização e a construção estava no mesmo organigrama. A organização e apoio era algo impensável. Quando saí da empresa, porque finalmente tinha arranjado trabalho na hidráulica (ou esgoto como ele dizia na brincadeira), o choque foi tão grande que nunca mais tive um ambiente profissional como aquele. Os líderes do consorcio eram americanos e nessa altura já se notava uma organização muito acima da nossa.

Despedi-me dele ao som do jazz. Algo insólito na capela da Basílica da Estrela no dia da sua morte. Mas na minha memória ficará sempre aqueles «desconcertos» em que todos ajudavam como podiam num barulho ensurdecedor que fazia vibrar o prédio da Infante Santo.

Obrigado Olívio, familiar e colega, pelo meu «Manifestus Probatum», e por toda a amizade que vivemos e que acredito que ainda voltemos a «viver». Porque ainda tenho muito que aprender! Mesmo….

Lisboa, 16 de dezembro de 2018

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to «Manifestus Probatum»

  1. Alex diz:

    Muito giro. Desconhecia esta faceta do tio. E tenho pena que não tenhas ido para aquilo que gostas mesmo… Diplomacia ou então espião… Com gabardina e chapéu a condizer. Bisou

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