Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (14)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 14).

Mapa da Bulgária, Roménia e Hungria - Capeia Arraiana

Mapa da Bulgária, Roménia e Hungria – Terras por onde andou o Franklim

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1969

Viagem à boleia de Lisboa a Oujda (Marrocos) e idas à praia de Saídia. Regresso a Espanha por Melilla (Costa Leste de Espanha) – Sul de França – Itália de Norte a Sul e cruzamento para Leste – Grécia – Israel – Turquia – Bulgária – Roménia – Hungria – Áustria – Alemanha – Bélgica – França – Espanha – Portugal.

2.ª parte

4.9.69 – A Sirkka apanhou o avião para a Finlândia no aeroporto de Lod-Ben Gurion, tendo levado a tenda, que depois me enviou pelo correio para Portugal, tendo eu ido à Alfândega resgatá-la. Era do meu amigo Tonho de Clássicas. Eu apanhei o avião também no aeroporto de Ben Gurion em Lod para a Turquia com a El Al (companhia de aviação de Israel), pelas 19:30 horas.

No aeroporto de Lod conheci uma francesa, Dominique Dieude, de Clamart, nos arredores de Paris, a quem pedi que me levasse a bilha dentro do cesto de verga. Recuperei-o em Paris, já de regresso a Portugal. Mais uma pessoa boa no meu caminho.

5.9.69 – Vindo de Israel, cheguei de avião da El Al, ao aeroporto de Ataturk, em Yesilkoy (Turquia), na parte europeia, no distrito de Bakirkoy, que serve Istambul. Visitei outra vez o que já conhecia.

6.9.69 – Não foi fácil apanhar boleia para sair de Istambul. Encontrei-me parado exactamente no mesmo local onde havia dormido no campo em 1967, por ninguém me ter levado. Fui para Edirne e tenho carimbo de saída de Edirne.

7.9.69 – Já perto da fronteira da Bulgária, foi um casal sírio ou egípcio que me deu boleia até Varna, praia famosa na Bulgária, passando por Burgas. Eles foram para o hotel e eu fui dormir na praia, conhecida estância turística no Mar Negro. Estava um pouco vento e resolvi voltar para junto do hotel. Na rua estava estacionado um comboio de praia, do tipo do que existiu nas praias da Caparica. Meti-me dentro, estiquei-me nos dois bancos fronteiros, coloquei a mochila no vão dos dois bancos e aí dormi. Às tantas ouço um carro a parar junto de mim. Pensei logo tratar-se da polícia. E era. Começou a querer falar comigo, mas eu fiz de conta que dormia. Pediram-me o passaporte. Falaram do Eusébio. Perguntaram se estava bem ali. Eu respondi que sim e lá continuei. De manhã fui tomar banho à praia. Como era cedo, não havia ainda turistas, pelo que pude baloiçar-me numas cadeiras confortáveis, qual turista rico. Quando me deu na gana, resolvi tomar a estrada para Sófia. Havia ali uvas e outros frutos nas árvores públicas que me serviram de pequeno almoço. Pedi boleia. Parou um camião de transporte de carvão ou alcatrão. Perguntei se ia para Sófia, Acenou que sim e eu ia entrar. Mas ele fechava a porta. Novamente perguntei se ia para Sófia, acenou que sim e a mesma cena. Lá partiu sem mim. Só mais tarde soube que o aceno da cabeça para dizer «sim» na Bulgária era igual ao nosso «não».

8.9.69 – Acabei por seguir para Mangala e depois Mamaia na Roménia. O médico de Costinesti, Mihail Lefter, deixou-me dormir no chão do consultório em Mamaia. Tratava-se de um posto médico de apoio aos banhistas. Não há carimbos da Bulgária e Roménia no passaporte. Não tinha vistos desses países? Fiz, certamente, o mesmo que fizera em 1967: pedi que me deixassem entrar e deixaram.

9.9.69 – Viajei para Bucurest. Creio que aí dormi na casa dos estudantes. Visitei o museu Narodni.

10.9.69 – Segui para Ploesti. À saída de Ploesti fui tomado pelo Eng.º Suiliga Anatolie num Wartburg. Levou-me a dormir na casa da avó perto de Brasov, em Fagaras.

Franklim em Fagaras com filho da senhora da casa onde dormiu - Capeia Arraiana

Franklim em Fagaras com filho da senhora da casa onde dormiu


11.9.69 – Tenho foto tirada em 11 de Setembro em Fagaras. Foi ele que ma tirou com a sua máquina e ma deu (ver foto).

Porta principal da Basílica Negra de Brasov, do séc. XIV-XV - Capeia Arraiana

Porta principal da Basílica Negra de Brasov, do séc. XIV-XV


Visitei Brasov. Tenho postais da igreja negra e outros (ver postais).

Continuei para Sibiu, Cluj Napoca e Oradea. Tenho dois postais: um de Cluj com a catedral de S. Michail, do séc. XV e outro de Oradea com o lago dos nenúfares. Em Oradea conheci uma moça, a Jura Maria. Fui a sua casa e ofereceu-me uma gramática de Romeno. Não sei se dormi em Oradea, na fronteira da Hungria, ou se ainda entrei nesse dia na Hungria. Esses países não tinham albergues da juventude. Havia algumas casas de estudantes.

14.9.69 – Dormi em Strasbourg, cidade onde havia feito um Curso de Verão e que bem conhecia.

Catedral de S. Michail do séc. XV, em Cluj - Capeia Arraiana

Catedral de S. Michail do séc. XV, em Cluj


12.9.69 – Atravessei a Hungria e fui dormir à Áustria, países que já conhecia doutras viagens.

13.9.69 – Segui para Munique, onde dormi no albergue. Já conhecia a cidade doutra viagem, pelo que não devo ter gasto tempo nela.

Áustria, Alemanha e França - Capeia Arraiana

Áustria, Alemanha e França

15.9.69 – Segui para Paris, tendo dormido pelo caminho.

16.9.69 – Cheguei a Paris, em cujo albergue dormi.

17.9.69 – Aguardei por um rapaz do Porto que prometia levar-me para Portugal num mini cooper, passeando pela cidade.

18.9.69 – Fui a Clamart buscar o barril comprado em Ramalat.

19.9.69 – Dormi ainda em Paris no albergue.

20.9.69 – Acho que acabei por sair à boleia para a estrada. Dormi em Tours no albergue.

21.9.69 – Entrada em Irun-S. Sebastian. Tenho um carimbo de S. Sebastian sem data.

Carimbos no cartão dos albergues - Capeia Arraiana

Carimbos no cartão dos albergues

22.9.69 – Devo ter seguido para Pamplona e ter sido apanhado no caminho por um casal de velhotes de Toulouse ou Pau, ele sapateiro, e levaram-me para Zaragoza. Levei-os ao hotel Maravilla, onde tinham reserva e pagaram o almoço. Queriam que ficasse com eles para os ajudar, porque não falavam Castelhano. Disse-lhes que não podia. Pedi um copo com a marca do hotel e deram-mo. Fui ver o ZéManel Sono, que havia casado com uma espanhola e tinha um café em Zaragoza. Segui depois para Catalayud, Guadalajara e Tarancón. Devo ter dormido por aí. Ao chegar a Catalayud lembrei-me da canção «Si vas a Catalayud…» e comecei a cantá-la, ao que o condutor ajudou, seguindo-se outras canções espanholas.

23.9.69 – Devo ter continuado por Ciudad Real em direcção a Córdoba e ter dormido algures.

24.9.60 – À saída de Córdoba apanhei boleia com um alemão, que vinha só no seu carro, até Sevilha. Ainda deu para visitar a catedral, pelo menos por fora. Não me lembro de mais nada. Como já era tarde, procurámos albergue ou pensão para dormir mas não encontrámos. Saímos da cidade e fomos acampar num terreno nos arredores, ao lado de uma vivenda. O alemão tinha uma tenda, que montámos. A senhora da vivenda, receosa de sermos más pessoas, chamou a autoridade, que veio, já nós estávamos deitados. Pediu-nos o passaporte. Expliquei-lhes o que tinha acontecido sobre pensões e disse-lhes que no dia seguinte iríamos embora logo de manhã. Tranquilizaram a senhora da vivenda e lá nos deixaram ficar. No dia seguinte creio que a senhora até nos deu água para nos lavarmos. Já não sei se continuei boleia com o alemão ou se o deixei em Sevilha.

Carimbos da PIDE no passaporte - Capeia Arraiana

Carimbos da PIDE no passaporte

25.9.69 – Fui até Aracena, onde visitei as grutas. Fui apanhado por um casal já de certa idade, farmacêuticos, que viviam em Lisboa, num Volvo azul já com alguns anos. Cruzámos a fronteira de Rosal de la Frontera-Vila Nova de Ficalho, de que tenho carimbos no passaporte e levaram-me até Lisboa. Conversei com eles no caminho e disseram-me que me tinham tomado por ter boa aparência e se ver que era estudante. Trocava endereços muitas vezes com quem me dava boleia e procurava ser simpático com eles.

E lá cheguei eu a Lisboa depois de ter percorrido outro meio mundo.

Nota: Como perdi o saco marroquino onde estava a máquina fotográfica com os rolos já usados e postais de Israel, bem como um possível relato da viagem, não tenho fotos desta fantástica viagem e toda ela é aqui descrita por memória. Muita coisa falhará, que já lá vão quase 50 anos.

(Fim da Etapa 14.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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