O Serviço Nacional de Saúde

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Onze dias num hospital público deram-me algumas noções sobre o que está bem e o que está mal no Serviço Nacional de Saúde (SNS) do ponto de vista do cidadão utilizador.

Urgências nos hospitais - Capeia Arraiana

Urgências nos hospitais

Em primeiro lugar deixar uma palavra de agradecimento à grande maioria dos médicos, enfermeiros e auxiliares que cuidaram da minha mulher. E dizer que, no geral, se trata de pessoas dedicadas e competentes, que, muitas vezes, são obrigados a fazer mais do que a simples condição de profissional da saúde lhes exigiria.

Esta constatação não me permite, no entanto, esquecer que alguns desses profissionais não estão à altura, nem dos outros profissionais, nem do SNS. Pensar que todos são iguais e todos têm a mesma dedicação é um erro que muitas vezes perpassa pelos discursos sindicais e das ordens profissionais.

Sim, a grande maioria é competente e dedicada, não, nem todos o são.

E, pode ser que não seja assim, mas não me dei conta da presença de chefias, e a existirem, nunca as vi, e chegávamos todos os dias ao hospital às onze da manhã e saíamos perto das nove da noite.

E isto era mais notado quando as coisas corriam mal, e ficávamos com a sensação que ninguém tomava uma atitude.

Não consigo dizer se o número de profissionais, sobretudo enfermeiros e auxiliares, era o suficiente para as 62 camas existentes, mas penso que, mais do que um maior número de técnicos, tornava-se necessário melhorar a organização e libertar os técnicos de tarefas que os ocupam.

Falo, por exemplo, das altas. A minha mulher teve alta por volta do meio-dia, mas o processo burocrático está atribuído a um dos enfermeiros de serviço, o que conduziu a que os mais de uma dezena de doentes que tiveram alta no mesmo dia, só tenham recebido a documentação depois das cinco da tarde. Como só nessa altura é que foi possível chamar os bombeiros para a transportarem, tal significou que a cama só ficou livre perto das sete horas!

Saliente-se, que isto levou a que o SO das urgências continuasse cheio de doentes à espera de uma vaga no internamento!

Quem como nós passámos largas horas na urgência, não percebe porque continua a a haver uma resistência feroz à criação de unidades de saúde urgentistas, com pessoal médico, de enfermagem e auxiliar dedicado a este serviço.

É que, mesmo que duplicassem os quadros técnicos da urgência onde a minha mulher esteve, não melhoraria significativamente a situação, pois não era possível alargar de um momento para o outro as instalações.

E ter pessoal que faz serviço, ao mesmo tempo, na urgência e no internamento, conduz a um esgotamento do pessoal que só prejudica o doente.

Eu vi e vivi o drama da urgência naqueles dias. Eu vi a minha mulher com a demência que tem e com o fémur partido, ficar mais de 24 horas no SO por não haver cama de internamento, de onde só saiu durante a noite, pelas razões que já acima descrevi.

Vi as salas de SO completamente esgotadas, macas com macas, sem espaço entre elas e o pessoal de serviço impossibilitado de prestar um serviço de melhor qualidade.

Mais do que mais médicos e mais enfermeiros o que ali se pedia era libertação de camas nos pisos de internamento!

Ora tal só será possível, no meu entender, se se separarem fisicamente as urgências, isto é se se especializarem unidades de saúde onde concentrar as situações de urgência.

E, a manter a situação atual, melhorar o serviço de altas, libertando os enfermeiros da parte burocrática dessa tarefa. Quem tem alta ao meio-dia não pode esperar sete horas para sair. Outros doentes aguardam a vaga deixada.

Mas, e faltaria à verdade se não o dissesse. O SNS mostrou funcionar e não acredito que a minha mulher fosse melhor tratada num hospital privado. Não é fácil ter uma doente com uma fratura quando a mesma tem uma demência. Precisa de apoio suplementar para comer e beber, e foi a família que lhe deu esse apoio. O que se verificaria à mesma no privado.

E por isso saí do hospital ainda mais defensor de um Sistema Nacional de Saúde universal e de qualidade.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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