O vinho e a literatura

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Voltemos ao tema do vinho, bebida que provoca paixões. O vinho é tido por uns como amigo divinal e companheiro das boas e más horas da vida, mas para outros ele é um nefasto produto da existência humana.

Lázaro magicava mil artimanhas para escorripichar o vinho, que era o seu melhor sustento

No geral das sociedades milenares há uma tradição de forte apego ao vinho como bebida maravilhosa, que satisfaz os homens de todas as condições sociais, à roda do qual se convive, debate, negoceia, se decide a guerra e se celebra a paz. Mas há civilizações onde o vinho é bebida abominada, quando não interdita, pelo mal que provoca ao juízo.

Esta bebida, ora adorada, ora repelida, anda associada à literatura, tal a sua importância na vida humana e tal o seu papel subtil na convivência social. Peguemo-nos aqui a dois exemplos de obras literárias onde o vinho tem um papel central no decorrer do enredo romanesco.

Comecemos por Lazarilho de Tormes, obra prima da literatura espanhola, legado sem autor conhecido, expoente da literatura medieval em estilo pícaro, escrita jocosa, de forte sabor popular.

Lázaro, criança órfã de pai e enjeitado pela mãe, corre mundo servindo vários senhores, em sucessivas aventuras. Lá está o vinho como elemento social, presente na mor parte dos quadros descritos. A bebida de Baco é apreciada por todos, incluindo pelo próprio fedelho que magicava mil artimanhas para o conseguir escorripichar dos copos ou o sugar dos tonéis, sem que os amos desconfiassem. Não só o bebia, como também era usado para tratamento de feridas e escoriações, por ser prodigioso líquido. Um dos amos, após lhe lavar um profundo ferimento, diz em ar de mofa:

«Na verdade, mais vinho me gasta este moço em lavadelas ao cabo de um ano do que eu bebo em dois. Com certeza, Lázaro, deves mais ao vinho que ao teu pai, porque ele te gerou uma vez, ao passo que o vinho te deu vida mil vezes.»

Já em Baudolino, colossal romance, da lavra de Umberto Eco, traçam-se as aventuras, quase epopeicas, de um jovem protegido do imperador Frederico, no tempo da decadência do império romano, já dividido entre ocidental e oriental.

Também aqui o vinho tem um papel crucial, a pontos de, estudando em Paris, o jovem Baudolino, emborcar todas as manhãs uma ração de pão migado em abundante vinho. Preocupada com a sorte do protegido a rainha Beatriz, esposa de Frederico, escreve-lhe, recomendando:
«Que não poupasse no vinho, senão um rapaz sente-se fraco durante todo o dia».

E no vinho descobriam os estudantes daquele tempo o garante da força para aguentarem os estudos e viverem suas aventuras de juventude.

Por estes dois exemplos, se vê que o vinho sempre acompanhou a espécie humana, e que a literatura trata, em abundantes páginas este casamento do homem com o néctar de Baco, umas vezes para o bem, e quantas vezes para o mal, pelo desnorte que causa a quem dele abuse.
:: ::
«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

Deixar uma resposta