Casteleiro – Homenagem a JM Correia

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Publico aqui hoje para si alguns comentários a extractos (que reproduzo) do capítulo dedicado ao Casteleiro no Livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», de Joaquim Manuel Correia. Estes mesmos comentários já foram antes publicados em diversos suportes, incluindo o «Capeia». O livro referido foi editado em Lisboa, em 1946. Trata-se de uma edição póstuma. Julgo que pode ter sido escrito em 1904-1905. O autor nasceu em 1858 e morreu em 1945.

Memórias Sobre o Concelho do Sabugal - Joaquim Manuel Correia - Capeia Arraiana

Memórias Sobre o Concelho do Sabugal – Joaquim Manuel Correia

1. Nome do Casteleiro
O nome da terra parece ter derivado do facto de ter havido ali e proximidades pequenas fortificações. Diz-se que na Serra das Barrentas que fica próxima existia antigamente uma povoação fortificada, restando dela alguns vestígios, dando-se ao sítio o nome de Sortelha Velha.

Não. O autor só atendeu na altura a uma parte do que já se sabia, ao que julgo: é que o nome da minha aldeia derivará antes da palavra «casteleiro», a significar «aquele que constrói castelos». Porque muita da mão-de-obra, quer dos castros antiquíssimos como Sortelha a Velha, na Serra d’Opa, quer de outros e também, claro, do Castelo de Sortelha, era desta aldeia, que sempre teve muita e boa gente, ao que parece (eram arrastados para essas obras – como sempre em todo o lado, desde o Egipto das pirâmides, pelo menos).

Acresce, ao que congemino, que a casa apalaçada dos Rosas, no Largo de São Francisco, ou a sua antecessora ali no mesmo sítio, teria sido mandada erguer pelo responsável da construção do castelo da Vila, o qual aqui se «refugiou» depois da obra. E a esse fidalgo chamariam «o casteleiro», como se dissessem: «o pedreiro».

2. O Reduto
Vimos no Casteleiro os vestígios do antigo reduto, junto da velha capela do Espírito Santo e afirmaram-nos que em meados do século passado foram destruídas duas portas que havia na muralha que cercava a povoação.

Isto, diz o autor. Mas penso que a coisa pode estar um tanto romanceada. Hoje temos ao dispor as notas do Cura Manuel Leal, de 1758, para podermos afirmar com alguma firmeza o seguinte: se dentro da terra houvesse uma praça de defesa, mesmo que antiga, e uma muralha em torno da aldeia, como é que o Cura ia esquecer-se de as mencionar?

Mais: pela descrição dele, no século XVIII a aldeia começava ali, no Reduto, e espalhava-se para baixo até à Ribeira (a estrada da época para ligar a Caria era a Estrada Velha, que vinha do tempo dos Romanos).

As coisas não batem certo com a teoria de Joaquim Manuel Correia, penso.

3. Produção agrícola
Depois do vinho, o azeite, o centeio, o trigo, a batata, o feijão, grão de bico, frutas e hortaliças, são as principais fontes de riqueza. Há também bons gados lanígero, bovino e caprino.

Cem por cento de acordo. Mas o autor esquece o linho – e esse é muito importante até meados do século XX. Adiante retoma algo que entronca nesta ideia, mas de forma errada, também, quando diz que até 1855 pertencia ao concelho da Covilhã, passando depois para o do Sabugal. Talvez por ter pertencido àquela vila se explique o facto, afirmado por antigos escritores, de haver ali noutros tempos «grande tracto de panos», o que actualmente não sucede.

Ora, não era por ser do concelho da Covilhã (era, sim, do Concelho de Sortelha, e ambos pertenciam ao Distrito de Castelo Branco), mas sim pela melhor fluidez dos contactos para Sul que as indústrias artesanais de panos, sobretudo de linho, eram muito «populares» no Casteleiro – repito: isso, até meados do século XX. Mas atrevo-me também a referir as mantas de trapos, por exemplo, além dos bordados de linho e de estopa.

Quanto ao vinho, o autor faz-lhe justiça. Refere-se-lhe como fonte de riqueza da terra e classifica-o de afamado, quando escreve que as «vinhas que enfeitam os campos e que, embora ocupem menor área que antigamente, muito concorrem para a riqueza dos habitantes pelo afamado vinho que produzem, que antes da invasão filoxérica se calculava em 400 pipas».

A entrada da filoxera no País deu-se logo por volta de 1860 – uma desgraça económica também para a minha aldeia.

Faltou ao autor referir a caça, sobretudo tordo, coelho e perdiz, que abunda(va) nos campos da minha aldeia; a abóbora e o nabo em grande quantidade para a «abobrais» dos animais; e os porcos, galinhas e coelhos nas capoeiras de muita gente, sempre – essas eram pedras de toque da economia familiar de antanho, também.

4. Outras ideias fortes de Joaquim Manuel Correia

Ponto 1
O Casteleiro é terra de muita gente. Hoje menos, mas sempre o foi. Até que chegou a emigração dos anos 60 do século XX e levou quase todos os homens adultos e jovens para a França. Para o bem e para o mal. Joaquim Manuel Correia escreve: «Para se fazer idéia dos progressos da povoação convém dizer-se que em 1757 tinha apenas 52 fogos e actualmente (1905) 280 e 974 almas».
Mas havia mais casas naquela data do século XVIII. O Padre Leal, em 1758 escreve assim aos serviços do Marquês de Pombal: «Tem cento e cinquenta e dois fogos, pessoas de confissão e comunhão trezentas e quarenta e oito; só de confissão setenta e quatro, crianças que ainda não se confessam cento e três, pessoas ao todo quinhentas e vinte cinco.»

Ponto 2
Não fazia ideia de que na minha terra houvesse falta de água. Sim, quando éramos pequenos, as bicas corriam pouco. Mas havia sempre os poços, as presas, etc. e não me consta que se passasse cedo. Mas não contesto a veracidade do que o autor escreve: «Notamos no Casteleiro grande falta de água potável, sendo a fonte ainda das chamadas de mergulho, correndo mui raramente no verão, o que torna as águas impróprias para o consumo, condenadas pelos preceitos higiénicos.»

Ponto 3
Agrada-me também muito recordar a minha escola primária. O autor refere-a assim: «A (escola) do sexo masculino funcionava na sacristia da antiga igreja de São Francisco, a pequena distância da primeira.»

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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