Roda dos expostos de Sortelha – Conclusão

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

«A observação do passado (…) não é uma viagem ao reino das sombras (…). Só me atrai, no passado, aquilo que me permite compreender e viver o presente.» – José Matoso, A Escrita da História. Editar esta informação sobre a roda dos expostos era um dever de cidadania.

Porta Nova – Sortelha

Quando iniciei as pesquisas, estava longe de imaginar a inexistência ou desaparecimento de alguns livros, que deviam estar devidamente conservados nos arquivos, alguma dificuldade de consulta no Arquivo Municipal de Sabugal, resultante do estado de conservação de alguns documentos, o que condicionou a investigação.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX houve uma crescente consciencialização da importância das crianças para o progresso económico do país e para as famílias. Assim se justifica a crescente intervenção do Estado na assistência aos expostos e no combate ao infanticídio.

A implementação das Rodas dos Expostos, nas primeiras seis décadas do século XIX, assentava na legalização da exposição anónima. Na realidade tentou-se aplicar os princípios iluministas, do século anterior, que valorizaram os indivíduos enquanto cidadãos.

«A criança recém-nascida tem necessidade de estender e mexer os seus membros para os tirar do entorpecimento em que estiveram tanto tempo. Os países onde se enfaixam as crianças são aqueles que formigam de corcundas, coxos, tortos, enfezados, raquíticos, de gentes deformadas de toda a espécie….» – J.Jacques Rousseau, Emílio.

Em meados do século XIX o sistema começou a ser criticado, acabando por ser extinto.

No caso do antigo concelho de Sortelha, é de realçar o número de progenitores que recorrem aos subsídios matriculando os filhos, por vezes com a ajuda da justiça e do pároco. Esta situação foi uma consequência da extrema pobreza, isolamento e ignorância em que viviam as populações.

A Roda, enquanto local de colocação de crianças abandonadas, teve um impacto diminuto. Resultado da dispersão da população, isolamento nas montanhas e das péssimas vias de comunicação existentes. Ao permitir a atribuição de subsídios a famílias carenciadas contribuiu para diminuir o sofrimento de muitas crianças. Certamente que houve pessoas que se aproveitaram do sistema, tornando-se num sistema iníquo, pois nem todos terem tratamento igual.

Com a transferência de responsabilidades para a Câmara Municipal esta teve que disponibilizar verbas para assegurar a manutenção da Roda e o pagamento dos vencimentos da Rodeira e das amas. Estes eram feitos regularmente com atraso de alguns meses, o que revela as dificuldades económicas do município. Devido à falta de recursos por vezes tornava-se necessário lançar impostos (apesar de ainda não ter identificado nenhum caso concreto). Registe-se ainda que contribuía para o Cofre dos Expostos da Comarca de Castelo Branco e recebia daí verbas. Sobre o balanço (o deve e haver) é assunto por estudar!

As atas das Sessões da Câmara revelam uma elevada sensibilidade humanística, muita preocupação para com essa gente miserável.

Com a extinção do concelho, em 1855, os serviços foram transferidos para o Sabugal, apesar de não ter encontrado a certidão de óbito da Roda dos Expostos de Sortelha.

Se considerarmos as calamidades provocadas pelos exércitos napoleónicos (no início do século XIX), os relatos da miséria das populações constantes das Atas das Sessões da Câmara Municipal de Sortelha e, ainda, os registos dos Livros de Matrículas e Contabilidade dos Expostos, somos forçados a concluir que durante todo o século XIX, tendo continuado até meados do século XX, a população do antigo concelho de Sortelha vivia numa pobreza extrema, quantas vezes no limiar da sobrevivência!

Só com apoios será possível levar uma investigação até às últimas consequências.

Esta informação tem o mérito de reabilitar centenas de desconhecidos que durante séculos desempenharam um papel importantíssimo nesta região.

Jardim do Anel – Sortelha

Razões da publicação deste trabalho:
1.Enquanto realizava a investigação preocupei-me em questionar algumas pessoas, supostamente bem informadas, sobre os nomes de lugares, pessoas e algumas famílias (como de Maria Gonçalves e João Barreiros). Ninguém foi capaz de fornecer-me qualquer informação útil! Ou seja, nada se sabia em Sortelha!

2.Este trabalho não deve ser visto como um produto final de um tema complexo, mas sim como uma etapa que deverá despoletar novas fontes e proporcionar a abertura de novas discussões ao nível dos comportamentos e costumes das gerações que nos precederam.

3. Trata-se de prestar um pequeno tributo aos nossos antepassados. Dificilmente alguém poderá admitir que não tem um antepassado exposto!

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves
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PS:
• António Lourenço, meu trisavô, natural da Quarta Feira, freguesia de Sortelha, de idade de cinquenta anos, viúvo de Angélica Martins, de Santo Amaro, freguesia de Casteleiro, casou, em segundas núpcias, com Maria Angélica, (o documento não refere a idade, provavelmente era desconhecida) exposta da Bendada, em 23 de julho de 1876. Não encontrei registos de eventuais descendentes desta união. Este foi o mote para a investigação com que me entretive durante mais de um ano. Acerca de Maria Angélica não consegui mais informação.

• Apesar de considerar a investigação inacabada, entendi ser um dever de cidadania a sua publicação. Em História a verdade não é estanque! Torna-se necessário identificar as famílias que possam possuir documentos e sensibilizá-las para a sua importância, consultar novos arquivos e cruzar a informação com a existente. O estudo das Rodas dos concelhos vizinhos, principalmente do Sabugal, pode completar o que agora se sabe.

• Fica demonstrado que há muito a investigar ao nível da história local. Haja vontade política!

• Agradecimentos:
– Aos funcionários do Arquivo Distrital da Guarda (incluindo o seu Diretor) pela excelente colaboração;
– Aos funcionários da Biblioteca/Arquivo Municipal de Sabugal pelo seu empenho e disponibilidade para ajudar;
– Ao Paulo Leitão Batista e ao José Carlos Lages pelo apoio para a publicação.

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