Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (13)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja. (Etapa 13).

Mapa do norte de Marrocos - Capeia Arraiana

Mapa do Norte de Marrocos – Terras por onde andou o Franklim

II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 60

1969

Viagem à boleia de Lisboa a Oujda (Marrocos) e idas à praia de Saídia. Regresso a Espanha por Melilla na Costa Leste de Espanha. Sul de França. Itália de Norte a Sul e cruzamento para Leste. Grécia – Israel – Turquia – Bulgária – Roménia – Hungria – Áustria – Alemanha – Bélgica – França – Espanha – Portugal. Foram 12.170 quilómetros à boleia, mais umas centenas na travessia de barco de Cádis-Ceuta, Melilla-Almeria e Brindisi-Corfu e mais uns milhares de avião de Atenas a Tel Aviv e de Tel Aviv a Istambul.

1.ª parte

Em 1968/69 iniciei a minha profissão de professor no Liceu de Passos Manuel. Tinha sido colocado na secção de Queluz do Passos Manuel. Porém, o então Reitor, Dr. Diamantino, resolveu colocar lá um amigo. Tive de ir queixar-me ao Ministério. O Reitor acabou por colocar-me na sede, em Lisboa, mas com a data de 7.10.68, em vez de 1.10.68. Esta perda de 7 dias trouxe-me imensos prejuízos durante toda a vida profissional, já que 1968 não contou com 1 valor e isso colocou-me atrás de muitos colegas na atribuição de horários e nas promoções.

No Verão de 1969, terminado o meu primeiro ano de professor do ensino secundário no Liceu de Passos Manuel, fui com a Sirkka, finlandesa que conhecera no ano anterior em Helsínquia, com o plano de atravessar o Norte de África até Israel e voltar pela Síria e Turquia para a Europa. Havia-me munido em Lisboa do visto de Marrocos e do Egipto para poder atravessar estes países e tencionava obter o da Argélia, Tunísia, Líbia, Israel, Síria e Turquia nas respectivas fronteiras, países de que me muni dos respectivos mapas. A intenção era visitar também Chipre. Por isso pedi em Lisboa averbamento no passaporte para ter validade para Chipre.

Com a negação da entrada na Argélia, como adiante contarei, tive de voltar atrás e não houve necessidade de vistos para a Argélia, Tunísia e Líbia. O do Egipto não foi utilizado. O de Israel obtive-o na Grécia.

A Sirkka veio ter comigo a Lisboa e dormimos na tenda montada na quinta onde eu vivia com outros estudantes universitários, em Lisboa, na Estrada da Luz, n.º 112, a quinta do Lactário, da Associação de Beneficência e Refúgio Aboim Ascensão. Haveria de me acompanhar numa viagem a Marrocos até à fronteira da Argélia e depois, de regresso a Espanha, na continuação de Espanha até Israel.

1.8.69 – Saímos de Lisboa à boleia até Elvas, entrando em Espanha nesse dia pela fronteira do Caia e seguimos até Cádiz sempre à boleia, numa extensão de 570 quilómetros. Cruzámos o Estreito de Gibraltar num barco até Ceuta, onde entrámos por Tarajal.

3.8.69 – Saímos de Ceuta e seguimos em boleia em direcção à Argélia. Tivemos a sorte de apanhar um imigrante argelino em França, que ia sozinho para a sua terra e nos levou cerca de 790 quilómetros. Atravessámos todo o Norte de Marrocos.

Fiquei impressionado com a extensão dos canais que transportavam água através duma região semideserta. Comparei isto com a falta de tudo em Portugal nessa época e ainda hoje, em grande parte do país. Parámos perto de Taza para tomar um chá num café à beira da estrada. E era ouvir os marroquinos no café a dizer-me:
– Vai dormir um bocado, vai!

O que queriam era apanhar a rapariga. Felizmente, não eram violentos. Que poderia fazer eu sozinho contra vários? Talvez tivessem respeitado o condutor.

Seguimos até Oujda, a 12 quilómetros da fronteira da Argélia. Aí dormimos no albergue da Juventude, ela na camarata das mulheres, eu na dos homens. Todas as manhãs vinha um marroquino dar-me uns figos da Índia fresquinhos e já descascados. Achei a amabilidade demasiada. Até que a finlandesa me contou que estava a ser assediada por ele. Corri com ele de imediato.

Eu levava um bom naco de presunto dum marrano novo que havia morrido por ter o intestino furado. Minha mãe não quis prová-lo. Mas eu e o pai demos conta dele. Levei um presunto para Lisboa. Era o almoço do universitário algarvio José Prata, residente na mesma casa de estudantes, que o descobriu no meu armário e toca de se lamber com ele.

Como em Marrocos era proibido comer carne de porco, o père-aubergiste autorizou-nos a comê-lo numa varanda, que nos indicou. Os muçulmanos não comem carne de porco nem bebem vinho?! Era vê-lo a comer do meu presunto e a beber da minha borracha, que levei cheia de vinho. Já o mesmo haveria de acontecer nos anos 80 com um guia em Tânger, que fez gala em nos oferecer um trago de whisky, que ele também bebeu.

Fomos alguns dias para a praia de Saídia, a uns 60 quilómetros, onde montávamos a tenda, ou para a piscina de Oujda, enquanto esperava autorização para entrar na Argélia. Cada vez que ela se lançava à água sozinha, havia uma chusma de marroquinos a atirar-se à água e a tentar tocar-lhe. Lançava-me eu à água e todos desandavam. Felizmente que não se atiravam a mim. O mesmo acontecia com uma louraça norueguesa que acompanhava um português da Madeira e que vivia à custa dela. Aí ficámos 12 dias à espera que a Argélia me concedesse visto de entrada. Felizmente, neste albergue não vigorava a regra de apenas se poder dormir três noites. Não colocaram carimbo deste albergue no meu cartão.

Certa tardinha ouvimos o toque das cornetas e pandeiretas que acompanhavam um casamento. Um burrito carregava as prendas para a noiva. Seguimos o cortejo. Ficámos à porta dos pais da noiva. Alguém lhes terá dito que estavam dois turistas à porta e vieram convidar-nos a entrar. O senhor Tmimi Boujemâa, de Oujda, era construtor civil abastado. Por isso tinha duas mulheres, em duas casas distintas, embora uma, que também estava no casamento, não gostasse da situação. Embora sendo proibido ver a noiva, eu consegui permissão para a ver no quarto, acompanhada duma irmã. Esta queria casar comigo. A finlandesa é que não estava a gostar da cena.

Num salão, serviram-nos carne de borrego num grande prato, donde todos comiam à mão acompanhada de pão, ao som da música e de bailarinas. Saímos já tarde para o albergue da juventude.

A Argélia acabou por não me dar o visto. Parece que havia um encontro dos chefes dos grupos armados dos territórios portugueses do Ultramar e, provavelmente, tiveram receio que eu fosse praticar actos contra eles.

Mapa do sudeste de Espanha e sul de França - Capeia Arraiana

Mapa do sudeste de Espanha e sul de França

14.8.69 – De boleia, voltámos para trás até Melilla, a uns 173 quilómetros, onde entrámos em 14 de Agosto e onde tomámos o barco para Almeria.

Continuámos de boleia Espanha fora por Múrcia, Alicante, Valencia até França por Figueras numa distância de 920 quilómetros. Não puseram carimbos de entrada e saída de França, nem da entrada e saída de Itália.

15.8.69 – Não sei se dormimos algures em Espanha. Provavelmente dormimos na tenda.

16.8.69 – Saindo por Figueras, entrámos em França. Atravessámos o Sul da França, tendo dormido algures, creio que na praia da Camargue.

Mapa de Itália e Grécia - Capeia Arraiana

Mapa de Itália e Grécia

17.8.69 – Continuámos pelo Sul de França e entrámos em Itália, percorridos que estavam mais 735 quilómetros.

18.8.69 – Dormimos em Torino no albergue. Não sei se foi à saída de Turim que, ao entrar num carro e colocando o saco em cima das pernas, me esqueci dum saquito de cabedal que havia comprado em Marrocos, onde guardava a máquina fotográfica Cannon, que havia comprado em Ceuta em 1966, rolos, postais e outros papéis de interesse. Lá se foram as fotografias tiradas até aí e fiquei sem máquina para tirar outras.

Torre de Pisa - Capeia Arraiana

Torre de Pisa

19.8.69 – Seguimos para Génova, La Spezzia, Pisa, tendo visitado a igreja e a sua célebre torre, que subimos. Devemos ter dormido algures.

20.8.69 – Continuámos para Roma, onde visitámos alguns museus e onde devemos ter dormido duas noites no albergue, no estádio Olímpico.

22.8.69 – Partida para Nápoles, onde visitámos a célebre igreja onde se encontra a capela de S. Januário, cujo sangue guardado em dois frascos se liquefaz em certas datas. Visitámos também as ruínas de Pompeia.

23.8.69 – Cruzámos para Salerno, Taranto e Brindisi. Comprámos bilhete do ferry para a Grécia. De Torino a Brindisi percorremos à boleia mais 1.275 quilómetros.

24.8.69 – Partimos à tardinha de barco de Brindisi (Itália) para Igoumenitsa, com paragem na ilha de Corfu. Boa parte da viagem deve ter sido de noite dentro do barco. Tenho carimbo no passaporte da saída de Itália por Brindisi.

Mapa da Grécia - Capeia Arraiana

Mapa da Grécia

25.8.69 – Entrada na Grécia por Kerkyras, na ilha de Corfu, onde me puseram carimbo no passaporte (ver imagem), continuando de barco para Igoumenitsa. Seguimos de boleia para Patras, à distância de 275 quilómetros, mais 132 kms. para Corinto e depois mais 95 kms para Atenas. Aqui dormimos no albergue (ver carimbo).

Carimbos da entrada e saída da Grécia e entrada em Israel. Visa de Israel - Capeia Arraiana

Carimbos da entrada e saída da Grécia e entrada em Israel. Visa de Israel

26.8.69 – Tirei o visto para Israel em Atenas (ver visto).

27.8.69 – Tenho um carimbo de saída da Grécia. Saímos de Atenas para Tel Aviv num avião da Olimpic Airways. Tenho um postal do avião da Olimpic, sinal que fui nesta companhia. Aí dormimos numa Pousada da Juventude. Lembro-me de um judeu americano que aí pernoitava também, ter colocado umas correias à volta do corpo e o solidéu na cabeça e ter começado com as suas orações na camarata. Fomos à praia numa boleia do judeu Ruben Givon, que se despiu e fez nudismo e nos convidou a fazer o mesmo. Fizemo-lo a contra gosto. Começou a atirar-se à finlandesa, mas não levou nada.

Fiquei admirado com tantos pomares de citrinos em terrenos arenosos. De facto, os israelitas conseguem transformar pedras em frutos.

28.8.69 – Demos sangue ao exército israelita no hospital Ben Gurion, julgando que o pagavam, mas não pagaram. De boleia numa furgoneta de jovens militares, fomos por Askelon até Bersheva, à entrada do deserto do Neguev, onde comemos uma melancia. Atravessámos o Neguev e fomos dormir em Eylat, na praia, encostados ao muro que divide a fronteira de Israel com a Jordânia. Ouvi uns tiros de noite, mas não fomos incomodados. Banhámo-nos no Mar Vermelho, conseguindo, assim, a proeza de me ter banhado em todos os oceanos, excepto o Glacial Antártico, e numa boa parte dos mares interiores.

Mapa de Israel - Capeia Arraiana

Mapa de Israel por onde andou o Franklim


Mapa de Israel por onde andou o Franklim - Capeia Arraiana

Mapa de Israel por onde andou o Franklim

29.8.69 – De regresso, bebemos água fresquíssima de um camião cisterna com uma torneira estacionado em pleno deserto, perto do Mar Morto. Terá sido colocado ali propositadamente para dessedentar os passantes? Depois subimos a rampa para o centro atómico de Dimona. Aí, dois ou três soldados israelitas que conversavam connosco correram atrás de um terrorista.

Seguimos para Jerusalém, onde dormimos no albergue.

30.8.69 – Visitámos a igreja do Santo Sepulcro, o Knesset (Parlamento de Israel) por fora, o Muro das Lamentações, onde um soldado israelita me revistou a máquina fotográfica da Sirkka, e a parte velha da cidade, habitada por palestinianos, onde comprei um pequeno candelabro. Devo ter visitado mais lugares, mas não me recordo de quais. Em 31 de Agosto continuámos em Jerusalém.

Carimbos do cartão dos albergues - Capeia Arraiana

Carimbos do cartão dos albergues

1.9.69 – Depois fomos num carro dum palestiniano até Ramalat, onde comprámos umas bilhas coloridas e dois cestos de verga para as transportar e comemos figos. Ainda conservo a cesta de verga e o meu barril de segredo-a água mete-se por baixo. Seguimos para Nablus, Belém, Nazaré, onde vimos a Igreja da Visitação, Monte Tabor, até Kiryat Shemona. Queríamos trabalhar aí no Kibuts uns dias, mas disseram-nos que tinha de ser um mês. Devemos ter dormido no albergue de Kiryat Shemona.

2.9.69 – Descemos para Haifa. Como não havia albergue em Haifa, procurámos um terreno para montar a tenda. Já de noite, encostámo-nos à rede do que viemos depois a saber tratar-se do campo de aviação militar de Haifa. Veio a polícia, viu os nossos passaportes, fez umas perguntas e acabaram por nos aconselhar a sair dali. Alguns metros a seguir era a praia, onde acabámos por dormir.

3.9.69 – Descemos por Netanya para Tel Aviv. Já tínhamos percorrido 1.140 quilómetros à boleia em território de Israel. Desta viagem não tenho fotografias porque as deixei na máquina, juntamente com outro ou outros rolos no saco marroquino, ao entrar para um carro em Itália. Ainda fiz queixa aos carabinieres, mas de nada valeu. Não sei se fiz relato da viagem. Até Itália, se o fiz, foi no saco marroquino. Daí em diante, se o fiz, não o encontro. Não tirei mais fotografias por falta de máquina. Uma pena!

Por isso, esta viagem só conta com a minha memória e carimbos no passaporte e cartas de albergues, que, felizmente guardei no saco de viagem.

Consegui salvar o passaporte, cartão dos albergues da juventude e alguns documentos porque os guardava numa bolsa no reverso da tampa do saco.

O dinheiro era em travellers cheque ou guardava-o numa bolsinha ao pescoço. Só tarde aprendi a usar um cinto para o efeito.

(Fim da Etapa 13.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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