Um governo em família

Maria Rosa Afonso - Orelha - Capeia Arraiana

Por todo o lado, há críticas ao Governo e com razão. O Conselho de Ministros mais parece um encontro lá em casa, marido e mulher, pai e filha – nunca se viu nada assim – todos amigos queridos e velhos conhecidos. O mesmo acontece nos gabinetes ministeriais, com os chefes e os assessores.

Relações familiares no Governo de António Costa envolvem 50 pessoas e 20 famílias (Jornal Económico, 29-3-2019) - Capeia Arraiana

Relações familiares no Governo de António Costa envolvem 50 pessoas e 20 famílias (Jornal Económico, 29-3-2019)

Sabíamos há muito disto; há círculos familiares e cumplicidades partidárias que se perpetuam e, quem quiser romper o cerco, mesmo tendo cartão do partido, tem de se esforçar a valer: dar nas vistas, bater palmas, aos vários chefes que encontrar pelo caminho; dizer-lhes mil vezes, de viva voz ou acenando com a cabeça, que têm razão, são bonitos, inteligentes e tudo o mais. E mesmo assim não é garantido que possam conseguir o lugar que desejam; o que eu aconselho é que tentem casar com um ministro ou uma ministra, um secretário de estado ou uma secretária de estado, um deputado ou uma deputada…, é mais seguro e mais rápido (pelo menos, até ao divórcio).

Normalmente, invocam duas razões: a competência e a confiança política. São todos imensamente valiosos, competentes e leais; lêem desde pequeninos a cartilha do serviço público, amam o país, estão dispostos a sacrifícios pelo povo…; e por isso não podem ser prejudicados, por serem filhos, netos, maridos, mulheres, cunhados…, deste ou daquele político, deste ou daquele governante. Tal como, não podem, os cargos de confiança política, deixar de ser ocupados por nomeação.

Também sou a favor da competência e da lealdade. Devem estar nos lugares de nomeação os que merecem estar e os que são capazes de fazer o que se espera que façam. Mas, não sou ingénua ao ponto de achar que só, no circuito fechado do partido e das famílias de sempre, existem pessoas competentes e leais. Tal como, não é possível dizer-se que não se colocam questões de independência e de transparência, quando se nomeiam uns aos outros.

É favorecimento, claro e simples. E o pior é que isto acontece, em todos os níveis da política e tende a ser visto como algo normal. Não é normal.

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«Rostos e Contextos», crónica de Maria Rosa Afonso

One Response to Um governo em família

  1. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    Pretende-se voltar a ter dinastias como no tempo da realeza!

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