Ninguém aguentaria

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Sinto-me chamado à crónica, tal como se houvesse apalavrado com alguns leitores do «Capeia» a publicação do meu escrito, para amanhã, às zero horas. E, para mim, que sou da velha guarda, a palavra vale tudo.

Tragédia em Moçambique

Ora, no decorrer da inevitável escolha de tema, dei comigo a admitir que o que está na moda é criticar. Mas já anda tudo tão refutado, tão esgrimido, tão esconjurado que talvez, por ora, não vá em depreciações.

Para além disso, quem iria eu censurar? políticos? Já tanta gente o faz!

Anteporia, então, alguma questão social? Há exceções, de facto, mas, essa temática soa-me, um pouco, a população alienada onde pode singrar o populismo, deveras nocivo às fações mais desajudadas.

Poderia abordar matéria de poluição? Talvez evidenciar rios inquinados ou mares contaminados. Ou, por contraste, patentear a beleza beirã. Mas ela está sempre tão presente que, em qualquer altura, pode servir de inspiração.

Revelaria a minha convicção sobre o vazio interior de alguns seres humanos? Falaria de fanatismos? Especificaria, porventura, o facto da incomplacência concorrer para o ódio.

Também poderia culpar as redes sociais de muitos males. Mas já há tanto quem o faça!

Enfim, talvez articular sobre novelas alucinantes, sobre desvarios futebolísticos, sobre fake news. Mas isso sabe-me a assuntos de resolução dispersa.

Talvez referir os medos que a sociedade nos transmite pudesse, também, insinuar um bom tema.

Mas não, não irei por aí hoje.

Elegi para incorporar nesta crónica a recente catástrofe moçambicana. E mesmo sobre ela decidi não falar muito. Quanto mais se mexe na ferida mais ela dói. Apenas sublinhar a impotência humana perante os arbítrios da natureza. Que ocultas razões terão instigado tão devastador ciclone no sudoeste do Índico?

Impõe-se, evidentemente, socorrer as vítimas e todos os apoios disponíveis se aparentam insuficientes. Moçambique não consegue contar os mortos e continua a disseminação de imagens de desabrigados sem comida. As equipas de auxílio humanitário ganharam, ultimamente, novo e poderoso inimigo. Como seria de esperar um enorme surto de cólera infesta toda a região da Beira.

Só faltava agora que a vigarice viesse a embeber as ajudas, enlameando o epílogo da tragédia numa hedionda imundice moral. Oxalá isso não se repita pois já ninguém aguentaria.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Ninguém aguentaria

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Temos de ver mais longe e mais alto do que a torre da igreja das nossas terras, se assim não fizermos…Não te doam as mãos de escreveres sobre a Justiça Social, a outra, sem ser a social, a corrupção, a hipocrisia política, a defesa do meio ambiente, sobre a Natureza que me inebriam tanto os teus artigos sobre ela ! Sei que ás vezes é difícil escolher um tema, são muitos anos a escrever, mas o Capeia dá-nos a Liberdade de escrever, e só isso merece todo o nosso sacrifício, posso dizer-te, que um dia me vieram as lágrimas aos olhos, queria largar, mas não pude ! Fui vencido pelo respeito que me merecem o Paulo Leitão e o José Carlos Lages, não me arrependi…Poderás perguntar amigo Capelo o porquê desta retórica toda, mas acredita que é do fundo do coração que me saem as palavras, não é uma retórica barata nem cinismo.

    António Emídio

    • Fernando capelo diz:

      Bom dia amigo Nabais.
      Se há coisas de que eu não duvido é da tua sinceridade. Sei da força da escrita e admiro muito a tua intervenção. A minha “excessiva” fuga para a natureza tem sido algo criticada entre amigos. Começo a sentir vontade de me explicar. Talvez numa das próximas cronicas.
      Entretanto envio-te aquele abraço.

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